Ler já não é só uma questão de olhos. Os audiolivros estão a afirmar-se como uma das grandes tendências da leitura em Portugal, acompanhando um crescimento que se vê um pouco por todo o mundo. E, para muitos leitores com mais de 50 anos, podem ser a solução para voltar aos livros quando as letras pequenas cansam a vista ou quando o dia não deixa tempo para sentar e ler.
Os números confirmam a tendência. A BiblioLED, a plataforma pública que disponibiliza gratuitamente eBooks e audiolivros através da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas, registou mais de 129 mil empréstimos digitais e ultrapassou os 30 mil utilizadores entre Janeiro de 2025 e Fevereiro de 2026. Ao mesmo tempo, editoras e plataformas têm reforçado a oferta de títulos narrados em português.
O livro e o audiolivro não competem
«O livro e o audiolivro são duas formas de viver a mesma experiência de leitura, cada uma com as suas características e momentos próprios», defende Bruno Sambado, fundador da Tale House, plataforma dedicada a audiolivros em português. «Não se trata de escolher entre o papel e o áudio, mas de dar ao leitor a liberdade de escolher como, quando e onde quer entrar numa história.»
Ouvir quando os olhos cansam
Na prática, o audiolivro encaixa em momentos em que o livro de papel não cabe: numa caminhada, na cozinha, numa viagem de carro ou de comboio, ao fim do dia de olhos fechados. E há quem descubra, ao ouvir, o prazer antigo de alguém nos contar uma história em voz alta.
Cinco sugestões para começar
Uma Família Surreal, de Hugo van der Ding. Nove séculos de reis e rainhas de Portugal contados com rigor e muito humor, do rei que viveu décadas fechado num quarto ao que ofereceu um elefante ao Papa. Um livro para aprender e para rir.
O Mosteiro: O Rei Improvável, de Nuno Nepomuceno. Um romance histórico que parte da crise sucessória em Castela no século XV e cruza os destinos de príncipes e de um jovem sonhador de estruturas impossíveis na construção de uma obra-prima da arquitectura portuguesa.
O Amor como Critério de Gestão, de António Pinto Leite. Uma reflexão sobre liderança, empresas e responsabilidade para com as pessoas, que interessa tanto a quem geriu como a quem trabalhou uma vida inteira.
O Protocolo Caos, de José Rodrigues dos Santos. Um novo thriller com Tomás Noronha, inspirado em factos reais, sobre desinformação e manipulação através das redes sociais.
A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós. O clássico que muitos leram na escola ganha outra vida em voz alta: a história de Jacinto, que troca o tédio de Paris pela serra do Douro e aí descobre a felicidade.
Como começar a ouvir
Para experimentar sem gastar, o melhor ponto de partida é a biblioteca municipal. Com o cartão de leitor é possível aceder à BiblioLED e requisitar audiolivros no telemóvel ou no tablet, tal como se requisita um livro em papel. Nas primeiras vezes, vale a pena pedir ajuda aos netos ou ao funcionário da biblioteca para instalar a aplicação. Uns auscultadores confortáveis, ou mesmo o altifalante do telemóvel em casa, e está feito.
A velocidade de leitura pode ser ajustada, e é possível parar e retomar exactamente onde se ficou. Com o Outono a chegar e as tardes a encurtar, poucas companhias serão tão boas como uma boa história contada ao ouvido.











