Poucas actividades juntam tanta coisa boa ao mesmo tempo: respiração controlada, memória, postura, atenção, disciplina de grupo e convívio semanal garantido. Cantar em coro é, provavelmente, uma das melhores coisas que alguém pode começar a fazer depois da reforma, e não exige qualquer talento especial.
O que acontece ao corpo
Cantar obriga a inspirar fundo e a controlar a expiração, o que treina o diafragma e a capacidade respiratória. Vários estudos com coros de adultos mais velhos descrevem melhorias na função respiratória, na postura e na projecção da voz, importante para quem começa a falar mais baixo com a idade.
Há ainda o efeito imediato no humor: cantar em grupo está associado a redução do stress e a sensação de bem-estar, provavelmente por combinação de respiração profunda, ritmo e ligação social.
O que acontece à cabeça
Decorar letras e entradas, seguir uma pauta ou o gesto do maestro e manter a própria voz enquanto se ouvem as outras é um exercício cognitivo exigente. Para quem se queixa de memória, é um treino muito mais completo do que qualquer jogo de palavras cruzadas, porque acrescenta coordenação, atenção dividida e emoção.
Um compromisso semanal que faz falta
Os ensaios têm hora marcada, normalmente uma ou duas vezes por semana, e é isso que muitos coralistas destacam: existe alguém à espera. Quando há concertos, há também metas, viagens e convívios, o que transforma uma actividade isolada num calendário cheio ao longo do ano, sobretudo no Natal e nas festas da terra.
Onde encontrar um coro
Portugal tem uma tradição coral riquíssima. Há coros paroquiais em praticamente todas as freguesias, grupos corais de associações recreativas e culturais, coros de universidades seniores, coros de bombeiros e de bandas filarmónicas, e ainda grupos de cantares tradicionais, cantares ao desafio, janeiras e fado de Coimbra.
A maioria aceita novos elementos ao longo do ano e quase nenhum exige audição. Basta aparecer a um ensaio e ouvir.
E quem canta mal?
Num coro, ninguém canta sozinho. As vozes organizam-se por naipes e o maestro ajuda cada um a encontrar a sua. Muitos coralistas amadores começaram convencidos de que desafinavam e descobriram que só lhes faltava treino auditivo. Além disso, cantar é uma competência que melhora com a prática, como qualquer outra.
Também há coros para quem tem demência
A música é das últimas memórias a perder-se, e há projectos em Portugal e no estrangeiro que criam coros para pessoas com demência e para os seus cuidadores. Muitas vezes, alguém que já não constrói frases consegue cantar uma canção inteira da juventude. Para as famílias, é um momento raro de reencontro.
Cuidados com a voz
A voz também envelhece: as cordas vocais perdem elasticidade e a respiração fica mais curta. Por isso convém aquecer antes de cantar, beber água, evitar gritar e não forçar quando se está constipado. Rouquidão que dura mais de três semanas deve ser sempre avaliada por um médico, e isso vale para todos, cantem ou não.
Fora isso, há coros com elementos de 80 e 90 anos a cantar semanalmente. É das poucas actividades em que a experiência acumulada se ouve.











