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Centros de saúde privados vão ter a possibilidade de recusar inscrever utentes que venham do Serviço Nacional de Saúde

Centros de saúde privados vão ter a possibilidade de recusar inscrever utentes que venham do Serviço Nacional de Saúde
Forever Young

O Governo prepara a implementação das Unidades de Saúde Familiar modelo C (USF-C), uma nova resposta para os utentes sem médico de família.

No entanto, o diploma que regulamenta estas unidades, a que o Expresso teve acesso, levanta preocupações ao permitir que estas estruturas possam recusar ou retirar utentes das suas listas, desde que apresentem “requerimento fundamentado”.

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Esta possibilidade, ainda sem critérios claros definidos, está a gerar críticas e levantado questões sobre o impacto no Serviço Nacional de Saúde (SNS) e na equidade de acesso aos cuidados primários.

O diploma estipula que as USF-C poderão optar por não inscrever ou mesmo retirar utentes das suas listas, com base num pedido fundamentado que será submetido à respetiva Unidade Local de Saúde (ULS). Apesar de a tutela sublinhar que estas unidades se destinam prioritariamente a utentes sem médico de família, não foram especificados os fundamentos que poderão justificar tal exclusão.

Questionado pelo Expresso, o Ministério da Saúde não esclareceu quais os critérios aceites. Em resposta, limitou-se a afirmar que “as USF-C darão resposta aos utentes sem médico de família e estão definidas para zonas carenciadas”, reiterando que estas unidades “terão de cumprir requisitos de qualidade e segurança”.

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No entanto, o diploma inclui uma cláusula que contradiz a posição oficial. Está explícito que as entidades gestoras das USF-C devem garantir o acesso a todos os utentes que queiram inscrever-se, mas com prioridade para aqueles sem médico de família e residentes na área geográfica de influência, “nos limites da capacidade instalada”.

Pedro Pita Barros, economista da saúde, em declarações ao mesmo jornal, alerta para o risco de “seleção de bons utentes”. Na sua análise, a cláusula pode levar à exclusão de utentes considerados de risco ou com custos mais elevados, caso o mecanismo de remuneração não contemple ajustes adequados. Para o especialista, a exigência de um “requerimento fundamentado” pode não ser suficiente para evitar abusos. “Será válida a exclusão com base em custos esperados, associados a maior necessidade de cuidados?”, questiona.

As novas USF-C serão implementadas em áreas com baixas taxas de cobertura de médicos de família, com 20 unidades a serem abertas inicialmente. A região de Lisboa e Vale do Tejo, onde se concentra a maior carência, receberá metade destas unidades.

O modelo prevê que médicos e enfermeiros das USF-C sejam especialistas em medicina geral e familiar e que não tenham qualquer vínculo com o SNS nos últimos três anos. A liberdade de gestão de recursos humanos e financeiros é uma das características distintivas deste modelo em relação às atuais unidades do SNS.

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Os profissionais poderão trabalhar em regime parcial, algo que André Biscaia, presidente da Associação Nacional das Unidades de Saúde Familiar, critica fortemente. “Se o preço é barato, vai pagar-se na qualidade. São unidades que visam o lucro, e isso em saúde só se consegue à custa da qualidade”, afirmou ao Expresso.

Biscaia também destacou a importância de indicadores rigorosos de qualidade e acessibilidade, alertando que as USF-C podem repetir os problemas de projetos semelhantes, como o Bata Branca, onde “não há avaliação, apenas contabilização de atos”.

O modelo de remuneração por capitação das USF-C, em que o financiamento é atribuído por utente e engloba todos os cuidados prestados, é outra preocupação. Segundo Biscaia, isso confere às USF-C liberdade para gerir os fundos públicos como entenderem, sem as limitações do SNS.

Para o médico, o modelo também cria uma competição desleal, oferecendo melhores condições aos profissionais que optem pelas USF-C. “Com horários flexíveis e sem vínculo ao SNS, os recém-especialistas preferem estas unidades. Está-se a asfixiar o SNS e a dar melhores condições aos privados com dinheiro público. Por que não podemos ter horários flexíveis também no SNS?”, questiona.

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O Ministério da Saúde rejeita as críticas, defendendo que as USF-C representam uma solução para os utentes sem médico de família. “O SNS vai atribuir médicos de família aos utentes que hoje não têm, através de propostas dos setores social e privado que reúnem as condições técnicas e competências profissionais previstas na Carta de Serviços das USF-C”, afirmou a tutela.