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Cinco ou mais medicamentos por dia: a revisão que se pode pedir

Cinco ou mais medicamentos por dia: a revisão que se pode pedir
Rogério Junior

Mais de um terço das pessoas com 65 ou mais anos em Portugal toma cinco ou mais medicamentos ao mesmo tempo. Nem todos continuam a fazer falta, e há uma forma de o confirmar sem interromper nada por conta própria.

Uma caixa com sete compartimentos, um por cada dia da semana, é hoje um objeto banal em muitas casas portuguesas. Mais de um terço das pessoas com 65 ou mais anos toma cinco ou mais medicamentos em simultâneo, um valor que coloca Portugal entre os países europeus com maior consumo. O problema não está na quantidade em si, mas no facto de boa parte dessa medicação se ter acumulado ao longo de anos, receitada por médicos diferentes, para queixas que entretanto passaram.

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Chama-se polimedicação ao uso simultâneo de vários medicamentos, e a fronteira dos cinco é a convenção mais usada na literatura clínica. Não é uma linha de perigo, é um sinal de que vale a pena olhar para o conjunto. Um anti-inflamatório receitado numa urgência há três anos, um protetor gástrico que entrou para compensar esse anti-inflamatório, um comprimido para dormir que começou numa fase difícil e ficou. Cada um teve a sua razão no dia em que foi prescrito. O que raramente acontece é alguém sentar-se e olhar para todos ao mesmo tempo.

O que pode correr mal quando são muitos

Quanto maior o número de medicamentos, maior a probabilidade de dois deles interagirem, de um agravar o efeito de outro ou de o anular. Com a idade, o fígado e os rins processam as substâncias mais devagar, e a mesma dose acaba por ter um efeito mais prolongado do que teria aos 40 anos. Há efeitos secundários que se confundem com facilidade com o próprio envelhecimento: tonturas, sonolência a meio do dia, confusão, falta de apetite, quedas. Quando um destes sintomas aparece, a pergunta que quase nunca se faz é se terá vindo de algum comprimido novo.

Existe ainda o problema inverso, a que se chama cascata de prescrição. Um medicamento provoca um efeito secundário, esse efeito é lido como uma queixa nova e recebe medicação própria, que por sua vez traz os seus efeitos. Quebrar a cascata exige alguém com a lista completa à frente, e é aí que a conversa tem de começar.

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Como se pede uma revisão da medicação

O ponto de partida é reunir tudo. Não apenas as receitas do médico de família, mas também o que vem das consultas de especialidade, os medicamentos comprados sem receita e os suplementos, que costumam ficar de fora porque não são vistos como medicação. Uma fotografia com todas as caixas em cima da mesa resolve o problema de memória e poupa metade da consulta.

Com essa lista na mão, marca-se consulta com o médico de família, que é quem tem a visão de conjunto do processo clínico e pode ser contactado através do SNS 24. A farmácia habitual também ajuda: os farmacêuticos podem rever a terapêutica, identificar duplicações e interações e comunicar ao médico o que encontrarem. É um serviço que existe e que a maior parte das pessoas não sabe que pode pedir.

O que sai daí pode ser a suspensão de um medicamento, uma redução gradual da dose ou a substituição por outro. A palavra técnica é desprescrição, e trata-se de um processo acompanhado, com prazos e reavaliação, não de um corte. Vale a pena insistir neste ponto, porque é onde está o risco maior: nenhum medicamento crónico deve ser interrompido por iniciativa própria, nem sequer por uns dias. Os da tensão arterial, do coração, da diabetes, da epilepsia e os psicofármacos são os casos em que a suspensão abrupta pode ter consequências sérias. A revisão serve exatamente para que essa decisão seja tomada por quem a pode tomar.