Há sempre um móvel assim: a cómoda da avó, o guarda-fatos escuro de mais, a mesa com o tampo queimado. Ocupa espaço, ninguém o quer como está e deitá-lo fora custa. Restaurar é, muitas vezes, mais simples do que parece, desde que se comece pela ordem certa.
Primeira pergunta: a peça tem valor?
Antes de pegar em lixa ou em tinta, vale a pena perceber com o que se está a lidar. Móveis antigos genuínos, em madeira maciça e com ferragens originais, perdem valor quando são pintados ou lixados até à madeira nua.
Uma fotografia enviada a um antiquário ou a um restaurador, ou levada a uma feira de velharias, resolve a dúvida em minutos e não custa nada. Se a peça tiver valor, o caminho é limpar e conservar, não transformar.
Segunda pergunta: há caruncho?
Procure furos pequenos e redondos e, sobretudo, pó fino e claro por baixo do móvel ou nas gavetas. Pó fresco significa insecto activo, e nesse caso o tratamento vem antes de tudo o resto.
Existem produtos próprios, aplicados com seringa nos furos e com pincel nas superfícies não envernizadas, e o tratamento deve ser feito em espaço ventilado, com luvas e máscara, seguindo as instruções. Depois, o móvel fica isolado algumas semanas para confirmar que não aparece pó novo.
Terceira pergunta: a estrutura aguenta?
Abane a peça. Se as junções cedem, é preciso colar antes de tratar da superfície. A cola branca de carpinteiro, aplicada nas juntas desmontadas e apertada com sargentos ou com cintas e um pau a torcer, resolve a maioria dos casos. Parafusar por cima de uma junta solta é o erro mais comum e o que estraga a peça a prazo.
Limpar antes de decidir
Muita gente pinta móveis que só precisavam de uma limpeza. Uma mistura de água morna com detergente neutro, aplicada com pano bem torcido, tira décadas de sujidade. Em superfícies enceradas, existe um produto clássico que é a mistura de essência de terebintina com cera, usada com palha de aço muito fina, sempre no sentido do veio.
Depois de seco, encere e dê lustro com pano de algodão. Em muitos casos, é aqui que o trabalho termina.
Quando pintar
Pintar faz sentido em móveis sem valor patrimonial, em contraplacado ou já muito danificados. Lixe ligeiramente para criar aderência, limpe o pó, aplique primário e depois duas demãos finas de tinta própria para madeira. Tinta a mais numa só demão é o que provoca escorridos e marcas de pincel.
Trocar os puxadores é a alteração que mais muda o aspecto final com menos trabalho.
Quando chamar um profissional
Em folheados levantados, marchetaria, douramentos, peças com valor histórico ou estofos antigos. São trabalhos em que uma tentativa caseira costuma custar mais a corrigir do que teria custado fazer bem à primeira.
Segurança
Trabalhe ao ar livre ou com janelas abertas, use luvas e máscara com solventes e decapantes, e não deite panos embebidos em óleo no lixo enrolados, porque podem aquecer. Faça pausas: são trabalhos que exigem posições incómodas e as costas notam.











