Há uma ideia instalada de que a velhice é, por natureza, um tempo triste, e que sentir-se em baixo depois dos 70 é apenas realismo. Os dados portugueses não confirmam isso. Um relatório do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge sobre envelhecimento em saúde concluiu que os mais velhos em Portugal apresentam menos depressão do que as gerações mais novas, e que a maioria das pessoas idosas não está deprimida. A tristeza permanente não faz parte do pacote da idade.
O que existe é um problema de reconhecimento. A depressão continua a ser a perturbação psiquiátrica mais frequente nesta faixa etária e é das que menos chega a diagnóstico, porque os sintomas se confundem com aquilo que toda a gente espera do envelhecimento. Fica por tratar uma doença que tem tratamento.
O que a distingue da tristeza
A tristeza tem objeto e tem fim. Vem de uma perda concreta, de uma má notícia, de uma saudade, e oscila: há dias piores e dias melhores, e continua a haver momentos de prazer. A depressão instala-se, mantém-se durante semanas seguidas e apaga o interesse por tudo, incluindo por aquilo que sempre deu gosto. Deixar de ligar a rádio que se ouvia todas as manhãs, deixar de ir ao café, deixar de tratar das plantas, e não conseguir explicar bem porquê.
Nesta idade, a depressão apresenta-se muitas vezes sem que a pessoa se queixe de tristeza. Vem disfarçada de queixas físicas persistentes que os exames não explicam, dores difusas, cansaço, problemas digestivos. Vem também sob a forma de apatia, de esquecimentos e de dificuldade de concentração, que a família interpreta como o início de uma demência, e sob a forma de irritabilidade, de perda de apetite e de sono partido, com despertar de madrugada e incapacidade de voltar a adormecer.
A confusão com a demência é frequente e tem consequências, porque leva a família a resignar-se em vez de procurar ajuda. Há uma diferença útil: na depressão, a pessoa costuma queixar-se muito das falhas de memória, enquanto na demência tende a minimizá-las ou a não reparar nelas. Não serve de diagnóstico, mas serve de pista, e é uma observação que vale a pena levar à consulta.
O que fazer, e o que não ajuda
O primeiro passo é o médico de família, que avalia, exclui causas físicas que produzem sintomas parecidos, como problemas da tiroide, anemia ou défices vitamínicos, e revê a medicação em curso, já que alguns fármacos comuns têm a depressão entre os efeitos secundários. A partir daí, o tratamento pode ser psicoterapia, medicação ou ambos, e responde bem nesta idade, ao contrário do que muita gente supõe.
Há uma frase que se diz com boa intenção e que faz o contrário do que pretende: dizer a alguém que precisa de reagir, de se animar, de pensar positivo. Quem está deprimido não escolheu estar, e ouvir isso acrescenta culpa a quem já tem de sobra. Marcar uma consulta e oferecer companhia até lá é mais útil do que qualquer conselho.
Quando há sinais de risco, nomeadamente falar em desistir, em não valer a pena ou em não fazer falta a ninguém, não se espera. A linha SNS 24, no 808 24 24 24, tem atendimento clínico permanente e encaminha, e existe também a Linha de Aconselhamento Psicológico do SNS. Nenhuma destas conversas obriga a nada, e qualquer uma delas é melhor do que ficar sozinho com o assunto.











