O nascimento de um neto é das melhores notícias que uma família pode receber. Mas nos meses que se seguem, enquanto todos os olhos estão postos no bebé, há alguém que muitas vezes fica sem vigilância: a mãe. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 13% das mulheres que acabaram de ter um filho apresentam uma perturbação mental, sobretudo depressão, e dados mais recentes da mesma organização indicam que uma em cada cinco pode experienciar depressão ou ansiedade no período pós-natal.
Baby blues não é depressão
Nem tudo o que acontece a seguir ao parto é motivo de alarme. O chamado baby blues é frequente nos primeiros dias e traduz-se em choro fácil, irritabilidade, maior sensibilidade emocional e alterações de humor. Habitualmente é transitório e resolve-se sozinho, explica a psicóloga Cátia Silva, especializada em depressão, ansiedade e autoestima.
Quando os sintomas ficam
A depressão pós-parto é diferente. Os sintomas persistem e podem incluir tristeza, perda de interesse e de prazer, cansaço intenso, ansiedade, sentimentos de culpa ou de inadequação e, nalgumas mulheres, dificuldade na ligação emocional ao bebé. Podem surgir pensamentos como “não consigo fazer isto” ou “não sou uma boa mãe”. Nos casos mais graves, há desesperança intensa, incapacidade para as tarefas do dia a dia e pensamentos relacionados com a morte, que exigem sempre avaliação profissional.
Mais rara é a psicose pós-parto, que afecta uma a duas mulheres em cada mil partos e constitui uma emergência psiquiátrica: pode surgir nas primeiras semanas, com delírios, alucinações, confusão e perda de contacto com a realidade, e exige avaliação urgente.
Quem está mais vulnerável
As alterações hormonais depois do parto, uma história anterior de depressão ou de outros problemas de saúde mental, um parto traumático, dificuldades financeiras ou conjugais, o isolamento e a falta de uma rede de apoio aumentam a vulnerabilidade. A privação de sono acentuada e prolongada, inevitável nos primeiros meses, pode agravar tudo o resto.
O que a família pode observar
Quem está próximo, e os avós estão-no quase sempre, pode fazer perguntas simples: a mãe consegue dormir quando tem oportunidade? Come? Consegue sair de casa? Chora com frequência? Tem medo de ficar sozinha com o bebé? Mudanças significativas no discurso ou no comportamento, tristeza persistente, apatia ou isolamento não devem ser normalizados com um “isso passa”.
“Um companheiro, uma mãe, uma irmã ou uma amiga não têm de saber fazer um diagnóstico. Mas podem saber que determinadas alterações exigem ajuda profissional. Também é importante criar condições para que uma mãe possa dizer ‘não estou bem’ sem sentir que essa frase coloca em causa o amor que sente pelo filho”, sublinha Cátia Silva.
Pedir ajuda é cuidar do bebé
A psicóloga insiste num ponto: a saúde do bebé é fundamental, mas a saúde mental da mãe também, e uma coisa não vive sem a outra. Garantir acesso a psicologia e psiquiatria quando necessário, aliviar a carga doméstica e evitar julgamentos são contributos ao alcance de qualquer família. Em caso de sinais de alarme, o médico de família e a linha SNS 24 são as primeiras portas.











