A pessoa sai de casa, caminha duzentos ou trezentos metros e começa a sentir uma dor apertada na barriga da perna. Pára, encosta-se, e ao fim de dois ou três minutos a dor passa. Recomeça a andar e, mais ou menos à mesma distância, volta tudo.
Este padrão tão certinho tem nome, chama-se claudicação intermitente, e é o sintoma típico da doença arterial periférica.
O que é
As artérias que levam sangue às pernas ficam estreitadas por placas de aterosclerose, o mesmo processo que afecta as artérias do coração. Em repouso, o sangue que chega é suficiente. Ao caminhar, o músculo pede mais e não recebe, e dói.
É por isso que este sintoma importa muito além das pernas: quem o tem, tem aterosclerose, e tem risco aumentado de enfarte e de AVC.
Quem tem mais risco
Fumadores e ex-fumadores, diabéticos, hipertensos, pessoas com colesterol elevado e com história familiar. O tabaco é, de longe, o factor mais determinante nesta doença em concreto.
Como se confirma
O exame de primeira linha é simples e indolor: o índice tornozelo-braço, que compara a tensão medida no tornozelo com a medida no braço. Valores baixos confirmam a suspeita. Depois, conforme o caso, pode fazer-se ecodoppler e outros exames de imagem.
O tratamento que mais resulta
Parece paradoxal, mas é caminhar. Programas de marcha supervisionada, em que se caminha até sentir dor moderada, se pára, se recupera e se retoma, repetidos durante meses, aumentam de forma significativa a distância percorrida sem dor. É dos tratamentos com melhor relação entre esforço e resultado em toda a medicina vascular.
A isso juntam-se deixar de fumar, que é obrigatório, controlar a tensão, o colesterol e a diabetes, e medicação antiagregante e para baixar o colesterol, conforme indicação médica.
Em casos seleccionados, com grande limitação ou lesões, recorre-se a angioplastia ou cirurgia.
Os sinais de gravidade
Dor nas pernas em repouso, sobretudo à noite e que alivia ao pendurar a perna fora da cama. Feridas nos pés ou nos dedos que não cicatrizam. Pele fria, pálida ou arroxeada. Perda de pêlo nas pernas e unhas espessas.
Estes sinais indicam isquemia crítica e exigem avaliação urgente, porque nessa fase há risco real de perda do membro.
Cuidados com os pés
Quem tem esta doença deve tratar os pés com o mesmo cuidado de um diabético: inspecção diária, hidratação, corte recto das unhas, nunca andar descalço e nunca usar calicidas ou lâminas em calosidades. Uma pequena ferida numa perna com má circulação demora semanas a fechar e infecta com facilidade.
Não é só nas pernas
Quem tem doença arterial periférica deve ser avaliado quanto às artérias do coração e do pescoço, porque a doença raramente está isolada. É por isso que um sintoma nas pernas acaba, muitas vezes, por levar a um electrocardiograma e a uma ecografia das carótidas.
Caminhar é, nesta doença, tratamento e não apenas conselho genérico. Trinta a quarenta e cinco minutos por dia, com paragens sempre que a dor aparecer, produzem melhorias mensuráveis ao fim de três meses. O erro é deixar de andar para não sentir dor, porque é assim que a distância tolerada vai encolhendo.











