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Escrever uma carta à mão: o gesto que se perdeu e continua a fazer efeito

Escrever uma carta à mão: o gesto que se perdeu e continua a fazer efeito
Georgia Gonçalves

Chega uma mensagem por dia às dezenas e uma carta por ano, se tanto. É precisamente por isso que uma carta escrita à mão tem hoje o efeito que tem.

Houve um tempo em que a chegada do carteiro era um acontecimento. Hoje, a caixa do correio recebe facturas e publicidade, e uma carta manuscrita tornou-se tão rara que quem a recebe se lembra dela durante anos.

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A quem escrever

A um neto que está fora a estudar, e que recebe centenas de mensagens por semana e nenhuma carta. A um amigo de infância com quem se perdeu o contacto. A alguém que está doente ou internado, para quem o tempo passa devagar. A um filho, para dizer o que nunca se diz ao telefone.

E, num registo diferente, a uma instituição: muitos lares e hospitais recebem cartas para pessoas sem visitas, através de programas organizados por associações de voluntariado.

O que dizer quando não se sabe começar

Não é preciso ter assunto. As melhores cartas costumam ser as mais concretas: o que se viu da janela nessa manhã, o que se cozinhou, uma memória que apareceu sem razão, uma pergunta genuína sobre a vida do outro.

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Uma estrutura simples que funciona: começar por onde se está e o que se estava a fazer, contar uma coisa que aconteceu, fazer uma pergunta e terminar com uma frase de afecto. Meia página chega.

O material faz parte

Papel decente, uma caneta que corra bem e um envelope. Não é preciso mais nada, e a diferença entre escrever numa folha arrancada e num papel escolhido sente-se do outro lado.

Se a letra já não é o que era, escreva devagar e em linhas mais espaçadas. Ninguém guarda uma carta pela caligrafia.

Os correios ainda funcionam

Um selo para carta normal dentro do país custa pouco mais do que um café, e as estações continuam a vender selos comemorativos bonitos, que fazem parte do prazer. Para o estrangeiro, confirme o porte ao balcão.

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Vale ainda lembrar os postais: mais curtos, mais fáceis e igualmente eficazes, sobretudo enviados de um sítio onde se esteve.

Cartas para o futuro

Há uma variante que muitas famílias descobrem tarde de mais: escrever cartas para serem lidas mais tarde. Uma carta para um neto abrir aos 18 anos, outra para o dia do casamento, outra simplesmente para quando já cá não estivermos.

Não é um exercício mórbido, é o oposto. É deixar a própria voz escrita, com a caligrafia e as expressões que são nossas, num tempo em que praticamente tudo o que deixamos é digital e desaparece com as contas.

Um domingo bem passado

Escolha três pessoas, reserve uma tarde, ponha música e escreva. É provavelmente a forma mais barata que existe de fazer alguém feliz durante uma semana inteira.

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Guardar as que recebeu

Se ainda tem cartas antigas guardadas, retire-as de sacos de plástico, que aceleram a degradação, e guarde-as numa caixa de cartão em local seco. Uma anotação a lápis com quem escreveu e em que circunstância transforma um maço de papéis num documento de família.

Por último, escreva o remetente no envelope. Parece óbvio e é o pormenor que mais falta faz quando uma carta não chega ao destino.