Aos vinte anos, os amigos apareciam sem esforço, porque havia escola, trabalho, bairro e tempo. A partir de certa idade, a rede começa a desfazer-se: uns morrem, outros mudam-se para perto dos filhos, outros deixam de sair por doença. E, ao contrário do que acontecia antes, ninguém aparece a substituí-los.
Porque é mais difícil
A investigação sobre amizade aponta três ingredientes: proximidade física, encontros repetidos e um ambiente que favoreça a conversa aberta. Na juventude, os três estão garantidos. Depois da reforma, desaparecem quase todos ao mesmo tempo.
É por isso que a solução passa menos por força de vontade e mais por voltar a criar essas condições.
A regularidade é o segredo
A amizade nasce da repetição, e não de um encontro brilhante. Uma actividade semanal, sempre no mesmo dia e com as mesmas pessoas, produz mais ligações do que dez eventos diferentes. É esta a razão pela qual as aulas, os coros, os grupos de caminhada e as colectividades funcionam tão bem.
Onde procurar
Universidades seniores, que existem em quase todo o país e cobram valores simbólicos. Grupos de caminhada organizados por juntas de freguesia e por clubes. Coros amadores. Voluntariado, que junta pessoas com valores parecidos. Aulas de dança, de informática ou de línguas. Clubes de leitura das bibliotecas municipais. Associações de reformados e centros de convívio.
E, num registo diferente, o café do bairro à mesma hora, a missa dominical ou o mercado semanal, que continuam a ser espaços onde se criam relações a um ritmo lento.
Como se dá o primeiro passo
Com perguntas, não com currículos. Perguntar como a pessoa chegou àquele grupo, o que costuma fazer, onde vive. E, sobretudo, aparecer outra vez na semana seguinte, que é o gesto que mais sinaliza disponibilidade.
Passar do conhecido ao amigo exige, a dada altura, um convite concreto: um café depois da aula, uma ida ao mercado, um telefonema. É o passo que mais custa e o que decide.
Para quem é tímido
Actividades com tarefa definida são mais fáceis do que conversas abertas. Num grupo de jardinagem, de tricô ou de voluntariado, há sempre algo a fazer com as mãos, e a conversa nasce de lado, sem pressão.
Amizades antigas também se recuperam
Muitas relações não acabaram, adormeceram. Um telefonema a alguém com quem não se fala há cinco anos costuma ser recebido com uma alegria que surpreende quem ligou. Vale a pena fazer a lista e começar por um por semana.
Quando a solidão pesa mais do que isto
Se o isolamento já se prolonga, se houve perda recente, se apetece cada vez menos sair, convém falar com o médico de família. A solidão prolongada associa-se a depressão e a pior saúde física, e existe apoio, desde consultas de psicologia a programas municipais de combate ao isolamento, que muita gente desconhece.
Dar tempo ao tempo
As amizades adultas demoram meses a consolidar-se, e é normal que as primeiras semanas pareçam artificiais. Insistir na presença regular, sem esperar resultados imediatos, é o que separa quem faz amigos novos de quem desiste à terceira sessão.










