Saiu para dar a volta habitual ao quarteirão e não voltou. É uma das situações mais angustiantes que uma família pode viver, e acontece com mais frequência do que se pensa. De acordo com dados da Polícia de Segurança Pública citados pela empresa SaveFamily, nos últimos dez anos registaram-se em Portugal cerca de 2600 idosos desaparecidos, o que corresponde a uma média de 20 por mês. Destes, 140 nunca foram encontrados.
Por trás de muitos destes casos estão doenças como a demência ou a doença de Alzheimer, que afectam a memória e a capacidade de orientação. Uma pessoa que faz o mesmo percurso há anos pode, de um momento para o outro, deixar de reconhecer as ruas e ser incapaz de pedir ajuda.
O calor e as mudanças de rotina aumentam o risco
O Verão que agora termina mostrou como o calor pode agravar o problema. As temperaturas elevadas provocam desidratação, tonturas, fadiga e confusão, sobretudo em pessoas mais velhas que vivem sozinhas ou tomam medicamentos que afectam a resposta do corpo ao calor. Em quem já tem problemas de memória, estes episódios podem desencadear desorientação.
As mudanças de rotina também pesam: férias, idas para casas de família ou segundas residências, e menos supervisão por parte de filhos e netos que estão fora. Em ambientes que não conhecem bem, as pessoas com défice cognitivo perdem-se com mais facilidade. E, quando isso acontece, as primeiras horas são decisivas.
Sinais a que as famílias devem estar atentas
Há comportamentos que devem acender o alerta: esquecer-se do caminho de casa, perder-se em sítios conhecidos, sair a horas invulgares, confundir o dia e a noite ou manifestar vontade de «ir para casa» quando já se está em casa. Perante estes sinais, é importante falar com o médico de família, para avaliar a situação e ajustar os cuidados.
Medidas simples que fazem a diferença
A prevenção começa com gestos simples. Garantir que a pessoa anda sempre com um cartão, pulseira ou medalha com o nome e um contacto da família. Ter uma fotografia recente guardada e à mão, que possa ser entregue às autoridades se necessário. Conhecer os percursos e os sítios que costuma frequentar. Avisar os vizinhos, o café e a mercearia do bairro, que muitas vezes são os primeiros a reparar que algo não está bem. E, nos dias de calor, garantir que bebe água com regularidade e evita sair nas horas de maior calor.
A tecnologia pode ajudar. Telemóveis com localização partilhada com a família e relógios com GPS, botão de emergência e detecção de quedas são cada vez mais procurados. Segundo a SaveFamily, que fabrica este tipo de equipamentos, a venda de relógios inteligentes para idosos cresceu 20% no último ano. A escolha deve ter em conta a facilidade de utilização e a autonomia da bateria, e ser feita com a pessoa, respeitando a sua dignidade e independência.
Se acontecer, não espere
Se um familiar desaparecer, a regra é agir de imediato. Não é preciso esperar 24 horas para comunicar um desaparecimento às autoridades: ligue para o 112 ou dirija-se à esquadra mais próxima, leve a fotografia recente e indique a roupa que a pessoa tinha vestida, a medicação que toma e os sítios para onde poderá ter ido. Em dias de calor, cada hora conta.
Cuidar de alguém com problemas de memória é exigente, e nenhuma família deve fazê-lo sozinha. Associações de apoio a pessoas com demência e aos seus cuidadores, centros de dia e serviços de apoio domiciliário podem ser um alívio precioso para quem cuida.











