Continuam a circular nas redes sociais, sempre com a mesma promessa: se vir a bailarina a girar num sentido é porque tem um cérebro criativo, se a vir a rodar no sentido contrário é porque é uma pessoa lógica. O mesmo se diz do cavalo que parece mudar de sentido e do cubo que se vira do avesso. A neurociência, porém, é clara quanto a este ponto: nada disso corresponde à realidade.
Durante anos, milhões de utilizadores partilharam estas imagens convencidos de que estavam a fazer uma espécie de teste de personalidade. Segundo o neurocientista Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, aquilo que ali acontece é apenas um fenómeno normal do processamento visual, sem qualquer relação com o modo de pensar ou com a suposta predominância de um dos lados do cérebro.
“As ilusões de perceção biestável demonstram como o cérebro interpreta informação ambígua. O que muda é a interpretação do estímulo visual, não a personalidade da pessoa nem uma suposta dominância de um hemisfério cerebral”, explica o investigador.
O que estas imagens têm realmente em comum
Entre os exemplos mais divulgados estão figuras que muitos leitores reconhecem de imediato:
- a Bailarina Giratória
- o Cavalo em Movimento
- o Cubo de Necker
- o Vaso de Rubin
- o Pato-Coelho
- a Máscara Côncava
Todas partilham a mesma característica: a informação visual que fornecem é insuficiente para impor uma única leitura. Perante essa ambiguidade, o sistema visual começa a formular hipóteses sobre o que está a ver, apoiando-se em experiências anteriores, em expectativas e em mecanismos de previsão para escolher a interpretação mais provável naquele momento. Como as duas leituras são igualmente plausíveis, a perceção pode alternar sozinha, sem que façamos nada para isso.
Os dois hemisférios trabalham ao mesmo tempo
O especialista sublinha que a perceção visual mobiliza uma rede alargada de estruturas cerebrais, e não uma metade do cérebro de cada vez.
“A perceção visual resulta da atividade coordenada entre o córtex visual, localizado no lobo occipital, áreas parietais responsáveis pela atenção e regiões frontais envolvidas no controlo cognitivo. Não existe um hemisfério que funcione isoladamente enquanto o outro permanece inativo”, afirma.
Os estudos de neuroimagem funcional confirmam essa leitura: observar estas ilusões ativa em simultâneo estruturas espalhadas pelos dois hemisférios. A ligação constante assegurada pelo corpo caloso permite juntar numa só experiência o detalhe, o movimento, a orientação espacial e o controlo da atenção.
É precisamente aqui que cai por terra uma das ideias mais populares da cultura digital, a de que existem pessoas dominadas pelo hemisfério esquerdo e pessoas dominadas pelo hemisfério direito. Há, de facto, funções que apresentam lateralização (a linguagem, por exemplo, tende a predominar no hemisfério esquerdo na maioria das pessoas), mas praticamente todas as funções cognitivas complexas dependem da cooperação entre os dois lados.
Porque conseguimos inverter a imagem quando desviamos o olhar
Outro pormenor mal interpretado é a possibilidade de mudar voluntariamente o sentido do movimento. Muita gente consegue fazer a bailarina ou o cavalo rodar ao contrário bastando piscar os olhos, desviar o olhar ou mudar o ponto de foco. Também aqui não há qualquer revelação sobre o carácter de quem observa.
“Quando conseguimos inverter voluntariamente a ilusão, estamos a modificar o foco atencional e a favorecer uma interpretação diferente do mesmo estímulo visual. É um excelente exemplo da flexibilidade cognitiva do cérebro humano”, refere o neurocientista.
Um cérebro que constrói o que vê
Longe de serem apenas um passatempo viral, estas ilusões continuam a ser instrumentos valiosos para a investigação, porque mostram ao vivo como se forma a consciência visual.
“O cérebro não funciona como uma câmara fotográfica que regista passivamente a realidade. A perceção é uma construção ativa baseada na informação sensorial e nas previsões geradas pelo próprio sistema nervoso. As ilusões mostram precisamente esse processo em funcionamento”, acrescenta.
Em vez de traços de personalidade ou de criatividade, o que a bailarina giratória revela é uma das propriedades mais sofisticadas do cérebro humano: a capacidade de construir várias interpretações para a mesma realidade visual sempre que a informação disponível é ambígua.
Quem é o especialista
Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues é Pós-PhD em Neurociências, Doutor em Neurociências e Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Azteca. Integra sociedades científicas como a Sigma Xi, a Society for Neuroscience (EUA), a Royal Society of Biology, a Royal Society of Medicine (Reino Unido) e a European Society of Human Genetics, sendo também Sócio Agregado da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Autor de mais de 400 estudos científicos e 39 livros, é Diretor Científico do CPAH (Centro de Pesquisa e Análises Heráclito) e criador do Genetic Intelligence Project.











