É dos assuntos que menos aparecem na conversa e dos que mais mudam o dia a dia. Estima-se que a incontinência urinária afete cerca de 600 mil pessoas em Portugal, com uma prevalência de 21,4% nas mulheres, e entre os 45 e os 60 anos a proporção é de aproximadamente um homem para cada três mulheres. Estes são números de casos identificados, o que quase de certeza fica aquém da realidade: há quem leve anos a comprar pensos, a decorar a localização das casas de banho e a recusar convites, sem alguma vez mencionar o problema numa consulta.
A ideia de que é uma consequência inevitável da idade é a razão principal desse silêncio, e está errada. É mais frequente com os anos, sim, mas não é normal nem irreversível. Na maior parte dos casos existe tratamento, e o primeiro deles nem sequer envolve cirurgia ou medicação.
Não é tudo o mesmo problema
Distinguir o tipo é o que determina o tratamento, e por isso a descrição que se leva à consulta importa muito. Na incontinência de esforço, a perda acontece quando aumenta a pressão sobre a bexiga: ao tossir, espirrar, rir, pegar num peso ou levantar de uma cadeira. Está associada sobretudo ao enfraquecimento dos músculos do pavimento pélvico, o que ajuda a explicar por que razão afeta mais as mulheres, em particular depois de partos e da menopausa.
Na incontinência de urgência, o que acontece é diferente: surge uma vontade súbita e intensa de urinar, difícil de adiar, muitas vezes com perda antes de se chegar à casa de banho. A causa habitual é uma bexiga hiperativa, com contrações que a pessoa não controla. Há ainda quem tenha as duas ao mesmo tempo, situação a que se chama incontinência mista, e casos ligados a outras condições, como a próstata nos homens, a diabetes, doenças neurológicas ou efeitos secundários de medicação, incluindo diuréticos.
Levar apontado durante uma semana quando acontece, com que frequência, em que circunstâncias e quanto se bebe por dia poupa tempo e evita voltas desnecessárias. É a informação que o médico não consegue obter de outra maneira.
O que se faz a seguir
Na incontinência de esforço, a primeira linha de tratamento é a reabilitação do pavimento pélvico, com exercícios específicos orientados por um fisioterapeuta com formação na área. Não são os exercícios que se encontram em vídeos avulsos na internet, e a diferença está na avaliação inicial e na correção da técnica, porque a contração errada, feita com os músculos do abdómen ou das nádegas, não produz efeito nenhum. Há evidência de melhoria da função sexual associada a esta reabilitação, o que raramente é referido.
Na incontinência de urgência, o tratamento passa por treino da bexiga, ajustes no que se bebe e a que horas, e medicação quando se justifica. A cirurgia existe e resolve muitos casos de incontinência de esforço, mas é uma decisão que vem depois e não antes.
A porta de entrada é o médico de família, que avalia e encaminha para urologia, ginecologia ou fisioterapia conforme o caso. Podem ser pedidas análises de urina para excluir infeção e, em algumas situações, exames urodinâmicos. Para quem hesita em falar do assunto, começar pela linha SNS 24 é uma forma de dar o primeiro passo sem sair de casa.











