Ficam as canções. Ficam num país inteiro que as sabe de cor sem nunca as ter decorado, porque elas foram entrando devagar, ao longo de cinquenta anos, pela rádio, pelos bares, pelas festas de bairro e pelos carros a caminho de qualquer lado.
Jorge Palma morreu na noite de segunda-feira, aos 76 anos, e a notícia chegou às redacções na manhã desta terça-feira. Deixa meio século de carreira e uma obra que atravessou gerações que não têm nada em comum umas com as outras, a não ser saberem cantar a mesma coisa quando ela começa a tocar.
Do Conservatório para a estrada
Nasceu em Lisboa a 4 de Junho de 1950 e começou muito cedo. Aos seis anos a mãe inscreveu-o na Academia Musical dos Amigos das Crianças, e aos oito fez a primeira audição no auditório do Conservatório Nacional. Aos doze foi premiado num festival de juventudes musicais em Palma de Maiorca. Era um percurso que apontava numa direcção, e ele seguiu outra.
No início dos anos setenta partiu para a Europa e passou temporadas a tocar em bares, em cafés e na rua, sem rede e sem plano. Foi ali, mais do que em qualquer sala de aula, que se fez o músico que voltaria a Portugal. Antes disso passara ainda por bandas, o Sindicato e os Black Boys, que foram o primeiro palco.
Essa formação dupla explica muita coisa na música que fez depois: a mão esquerda de quem estudou a sério e a desenvoltura de quem tocou para quem passava.
Os discos
O primeiro álbum, Com uma Viagem na Palma da Mão, é de 1975, o ano em que o país estava a aprender a ser outra coisa. A carreira que se seguiu não foi linear nem confortável, e é precisamente isso que a torna interessante de percorrer.
Em 1985 chegou O Lado Errado da Noite, que muita gente aponta como o momento em que passou de músico admirado a nome popular. Vieram depois, ao longo de catorze álbuns de originais, Acto Contínuo, Asas e Penas, Bairro do Amor, Só, Norte, Voo Nocturno e Com Todo o Respeito. O último, Vida, saiu em 2023.
Nunca se acomodou a uma fórmula. Entre um disco e outro mudava de banda, de som e de humor, e havia sempre quem preferisse o anterior.
As canções que o país aprendeu
Deixa-me Rir, A Gente Vai Continuar, Encosta-te a Mim, Frágil, Dá-me Lume, Bairro do Amor, Portugal, Portugal.
São títulos que não precisam de apresentação a ninguém que tenha vivido em Portugal nas últimas cinco décadas. Foram cantadas em autocarros de excursão, em casamentos, em manifestações e em noites que acabaram tarde de mais.
Há uma parte da obra que é de uma ternura desarmante e outra que é dura, com noites mal dormidas e contas por pagar. Palma escreveu as duas com a mesma honestidade, e talvez seja essa a razão pela qual tanta gente se reviu nele.
O músico e a lenda
Seria desonesto contar esta vida apenas pelo lado luminoso. Jorge Palma construiu, ao longo de décadas, uma reputação de imprevisibilidade que ele próprio nunca escondeu: concertos que não chegaram a acontecer, palcos onde apareceu e palcos onde não apareceu, períodos difíceis vividos à vista de toda a gente.
O público português, que costuma ser severo, escolheu perdoar-lhe quase tudo. Talvez porque, quando aparecia e estava inteiro, dava um concerto que ninguém esquecia.
Nos últimos anos encontrou uma forma nova de estar em palco, ao lado de Sérgio Godinho, numa digressão a dois que encheu salas por todo o país e juntou duas obras que tinham crescido em paralelo desde os anos setenta.
Foram espetáculos de duas vozes, duas memórias e um repertório que o público conhecia de fio a pavio.
Até ao fim, com posição
Não se retirou para a discrição. Em Abril deste ano, com um cravo ao peito, apelou publicamente ao combate ao recrudescimento do fascismo, num gesto que muita gente ouve hoje como uma última declaração de princípios.
Continuava a subir a palcos e a ser convidado para encontros e festivais, poucos meses antes de morrer.
Fica uma obra que não precisa de ser explicada, porque está aprendida. Fica um repertório que vai continuar a tocar em rádios e em jantares de família, e que daqui a vinte anos alguém vai descobrir pela primeira vez sem fazer ideia de quem foi o homem que o escreveu.
E fica a certeza, que hoje sabe a pouco, de que ele próprio já tinha escrito o verso com que o país se vai consolar. Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar.











