Metade dos consumidores portugueses e espanhóis já pergunta a um programa de inteligência artificial o que deve comprar. O número exacto é 51% e vem de um estudo da Minerva Insights, o grupo onde está a Marktest, feito com 1.500 pessoas.
O retrato é mais amplo do que isso. Oitenta e quatro por cento dizem ter usado inteligência artificial nos últimos doze meses, e 82% recorreram a ela para pesquisar e esclarecer dúvidas.
E confiam no que lhes diz
Dois em cada três, 66%, dizem-se satisfeitos com as sugestões que recebem. E 96% tencionam continuar a usar a tecnologia para decidir compras.
São números altos para uma ferramenta que, em muitos casos, as pessoas usam há pouco mais de um ano. A confiança instalou-se mais depressa do que o hábito.
Onde é mais usada
Os três sectores onde se recorre mais à inteligência artificial são precisamente aqueles em que é mais trabalhoso comparar informação: saúde, com 43%, tecnologia e electrónica, com 38%, e viagens, com 31%.
O primeiro desses números merece ser lido com atenção, e já lá vamos.
O que mudou na forma de procurar
O estudo identifica cinco mudanças de fundo. A mais visível é a substituição da pesquisa tradicional por uma conversa: em vez de escrever duas palavras e percorrer uma lista de resultados, as pessoas descrevem o que querem e esperam uma resposta.
A segunda é o tempo. Compara-se menos e decide-se mais depressa, o que é cómodo e perigoso em igual medida.
A terceira é a mais importante para quem compra: a confiança deixou de assentar na reputação da fonte e passou a assentar na sensação de que alguém percebeu o que queríamos. Mas um programa que percebe bem a pergunta não garante que acerte na resposta.
O problema dos 43% da saúde
Este é o número que merece um aviso a sério. Perguntar a um assistente de inteligência artificial que suplemento tomar, se um sintoma é grave ou se dois medicamentos se podem misturar não é o mesmo que perguntar qual a melhor máquina de café.
Estes programas geram respostas plausíveis, não verificadas. Não conhecem o seu historial, não sabem o que já toma e não têm forma de saber se a informação em que se basearam está actualizada. Nos medicamentos, em particular, o erro pode custar caro.
Para dúvidas de saúde, a resposta continua a estar no médico de família, no farmacêutico ou na linha SNS 24. Um assistente destes pode ajudar a formular a pergunta, não a dispensar quem a responde.
Três regras para usar sem se queimar
Primeiro, peça sempre a fonte. Se a resposta não indicar de onde veio a informação, ou se a ligação não abrir, trate-a como uma opinião de café.
Segundo, confirme o preço e a disponibilidade no site da loja antes de comprar. É frequente estes programas trabalharem com informação de meses atrás e indicarem valores que já não existem.
Terceiro, desconfie do entusiasmo. Estes assistentes foram feitos para ser prestáveis, não para dizer que não vale a pena comprar. Raramente lhe dirão que o produto que descreveu não serve para nada.
Quem ganha com isto
Há uma conclusão do estudo que explica muita coisa: as marcas deixaram de competir por notoriedade e passaram a competir por recomendações. Ou seja, o objectivo já não é que o consumidor se lembre do nome, é que o programa o sugira.
Isso significa que vai haver, se é que já não há, um esforço organizado para influenciar aquilo que estes assistentes respondem. É mais uma razão para confirmar antes de pagar.











