Encher o depósito, pagar o seguro, fazer a revisão: a conta da mobilidade pesa cada vez mais no orçamento das famílias portuguesas e já está a mudar rotinas de deslocação por todo o país. Segundo o estudo da ConsumerChoice sobre Mobilidade e Transportes, divulgado a 4 de agosto de 2026, 93% dos portugueses consideram que os custos da mobilidade aumentaram nos últimos dois anos e 77% já alteraram a forma como se deslocam. Ainda assim, o automóvel mantém-se no centro da vida diária e a transição para o elétrico começa a ganhar terreno nas intenções de compra.
O carro continua a mandar, mas custa mais
A fotografia traçada pelo estudo é clara: o automóvel próprio domina as deslocações diárias e é utilizado por 68% dos inquiridos, enquanto apenas 16% recorre maioritariamente aos transportes públicos. Essa dependência ajuda a explicar por que razão o aumento de preços se faz sentir de forma tão transversal.
Entre as despesas que mais pesam no orçamento familiar, os inquiridos destacam:
- Combustíveis, apontados por 81%
- Seguros automóveis, referidos por 48%
- Manutenção dos veículos, indicada por 43%
Menos viagens, mais caminhadas
A reação dos consumidores tem sido pragmática. Dos 77% que já mudaram hábitos de deslocação, 47% reduziram a utilização do automóvel e 34% cortaram nas viagens não essenciais. Os transportes públicos e as deslocações a pé surgem empatados como alternativa, escolhidos por 31% em ambos os casos.
São ajustes que não exigem grandes investimentos e que, no dia a dia, se traduzem em rotinas diferentes: menos quilómetros ao volante, mais percursos curtos feitos a pé e uma seleção mais criteriosa das saídas realmente necessárias.
A sustentabilidade entrou na equação
A preocupação ambiental deixou de ser um detalhe secundário nas escolhas de mobilidade. De acordo com o estudo, 73% dos participantes admitem que a sustentabilidade influencia as suas decisões nesta área, pelo menos ocasionalmente. E a leitura sobre o comportamento coletivo é ainda mais otimista: 80% acreditam que a população está a adotar comportamentos cada vez mais sustentáveis.
Carro elétrico: muito interesse, um travão evidente
O interesse pela mobilidade elétrica é dos dados mais expressivos do estudo. Apesar de apenas 25% dos consumidores possuírem atualmente um veículo eletrificado, 65% ponderam adquirir um carro elétrico nos próximos anos.
As vantagens reconhecidas são sobretudo duas: o menor impacto ambiental, referido por 68%, e a redução dos custos de utilização, apontada por 64%.
Os obstáculos, porém, mantêm-se e são conhecidos:
- Preço de aquisição (70%), a principal barreira
- Dúvidas quanto à durabilidade das baterias (36%)
- Tempo de carregamento (35%)
A rede de carregamento também não convence. Somente 15% consideram que Portugal dispõe hoje de uma infraestrutura adequada, enquanto a maioria (55%) entende que esta responde apenas parcialmente às necessidades existentes.
Comprar, alugar ou fazer leasing?
A forma de aceder ao automóvel também está a evoluir. A compra tradicional continua a ser largamente dominante, com 62%, mas soluções como o renting (7%) e o leasing (5%) começam a ganhar expressão. Por trás desta tendência está um fator muito concreto: a previsibilidade dos custos, valorizada por 54% dos entrevistados, ou seja, saber ao certo quanto se paga todos os meses.
Transportes públicos: atrasos e lotação continuam a afastar
Do lado da alternativa ao carro, os desafios persistem. Entre os participantes, 41% usam raramente os transportes públicos, e as razões apontadas são bastante específicas: atrasos (57%), lotação excessiva e frequência insuficiente (41% em ambos os casos).
Há ainda uma clivagem geográfica difícil de ignorar. Nada menos do que 95% dos inquiridos consideram que existem fortes diferenças entre a oferta disponível nas grandes cidades e nas regiões do interior, o que reforça a dependência do automóvel fora dos centros urbanos. O contraste fica evidente quando se pergunta se seria possível manter o estilo de vida sem carro próprio: 22% dos residentes em áreas urbanas dizem que não conseguiriam, valor que sobe para 55% entre os habitantes de zonas rurais ou de baixa densidade populacional.
O que faria os portugueses trocar o carro pelo autocarro
Questionados sobre as medidas capazes de incentivar uma maior utilização dos transportes públicos, os portugueses apontam quatro prioridades:
- Preços mais competitivos (49%)
- Maior frequência dos serviços (48%)
- Maior pontualidade (39%)
- Melhor cobertura geográfica (37%)
Uma década para melhorar
Apesar das queixas, a perspetiva para o futuro é positiva: 69% dos consumidores preveem que a mobilidade em Portugal estará melhor na próxima década. As transformações mais esperadas são a eletrificação dos veículos (77%), a evolução dos transportes públicos inteligentes (38%), a condução autónoma (25%) e a micromobilidade, que inclui bicicletas e trotinetes, também com 25%.
Como foi feito o estudo
O questionário foi respondido por 750 portugueses, 55% do sexo masculino e 45% do feminino. Em termos etários, a faixa dos 45 aos 54 anos é a mais representada, com 25% dos participantes, seguida dos 35 aos 44 anos (23%), dos 55 aos 64 anos (21%), dos maiores de 65 anos (12%), dos 25 aos 34 anos (11%) e dos 18 aos 25 anos (7%).
Quanto à distribuição geográfica, a maioria dos participantes está localizada na Grande Lisboa (35%) e no Centro do país (23%), seguindo-se a região Norte (19%) e o Grande Porto (16%). A restante percentagem distribui-se por outros pontos de Portugal. A ConsumerChoice assume-se como plena e única responsável pela integridade e precisão dos dados obtidos.
O trabalho integra a atividade regular de investigação de mercado da ConsumerChoice, que acompanha de forma continuada as tendências de consumo em Portugal através de estudos sobre diferentes setores e temáticas, permitindo comparar a evolução dos comportamentos ao longo do tempo.











