Está a trabalhar, a ler ou simplesmente a olhar para o telemóvel quando, de repente, a pálpebra começa a tremer. Não dói, não altera a visão, mas é irritante. E a primeira pergunta surge de imediato: será que isto é grave?
A boa notícia é que, na esmagadora maioria dos casos, não é. Chama-se mioquimia palpebral e é uma contração involuntária do músculo orbicular (o músculo que rodeia o olho). Afeta geralmente apenas uma pálpebra de cada vez, quase sempre a inferior, e tende a desaparecer sozinha em dias ou poucas semanas, segundo o oftalmologista Dr. Mateus Martins Cortez Vilar, médico especialista na área.
Porque é que a pálpebra treme?
As causas mais comuns são bem conhecidas: stress, privação de sono, consumo excessivo de cafeína, olho seco e uso prolongado de ecrãs. Na maioria dos casos, bastam ajustes simples no dia a dia para resolver o problema.
O stress, por exemplo, liberta cortisol e adrenalina, substâncias que colocam os músculos em estado de hiperestimulação. Os músculos pequenos, como os das pálpebras, são particularmente sensíveis a estas hormonas. Resultado: movem-se sozinhos, sem aviso.
A carência de vitamina B12, magnésio e potássio também pode provocar espasmos involuntários, dado o papel destes nutrientes no funcionamento adequado da musculatura. E há um dado que merece atenção: um estudo publicado na revista especializada Cureus, com 206 participantes, encontrou uma correlação significativa entre o tempo diário de exposição a ecrãs digitais e a duração dos episódios de tremor.
Depois dos 50 anos, o olho seco torna-se mais frequente e pode ser um gatilho adicional. A irritação gerada pelo ressecamento leva o cérebro a tentar corrigir o problema através de movimentos musculares involuntários. O uso de lentes de contacto e anti-histamínicos agrava a situação.
Quando é que não é «só stress»
Existem condições mais sérias que convém distinguir. O blefaroespasmo é uma distonia diferente: provoca contrações intensas e bilaterais, podendo gerar uma espécie de «cegueira funcional», ou seja, a incapacidade de manter os olhos abertos. Surge geralmente após os 30 anos, é duas vezes mais comum em mulheres e o tratamento passa por injeções locais de toxina botulínica.
Já o espasmo hemifacial é ainda mais raro. Começa ao redor dos olhos e estende-se a metade do rosto, podendo persistir durante o sono. É geralmente causado por um vaso sanguíneo que pressiona um nervo facial.
Há ainda o nistagmo, um distúrbio que envolve movimentos rítmicos e involuntários do próprio globo ocular (e não da pálpebra). É visível para outras pessoas e pode estar associado a doenças neurológicas ou lesões cerebrais, conforme explica a otoneurologista Dra. Nathália Prudencio.
Os sinais de alerta a não ignorar
Segundo o Dr. Pedro Pinheiro, do MD.Saúde, há sinais que justificam uma consulta médica sem demora:
- Tremor que dura mais de uma semana
- Pálpebra que fecha completamente durante os espasmos
- Espasmos que se espalham para outras partes do rosto
- Vermelhidão, inchaço ou secreção
- Pálpebra caída
- Visão dupla, tontura ou fraqueza muscular
Doenças neurológicas como Parkinson, esclerose múltipla ou AVC podem, raramente, manifestar-se com espasmos palpebrais. Mas nestes casos, o tremor é quase sempre acompanhado por outros sinais neurológicos evidentes.
O que fazer para parar o tremor
Na maioria das situações, medidas práticas e simples são suficientes. A Medicare Portugal recomenda aplicar compressas mornas sobre o olho durante cinco minutos, fazer pausas visuais a cada 20 a 30 minutos de ecrã e dormir pelo menos sete horas por noite.
Reduzir o consumo de café, usar colírios lubrificantes e fazer uma massagem suave na região da pálpebra também ajuda. São gestos simples que, na maior parte dos casos, resolvem o incómodo em poucos dias.
Da próxima vez que a pálpebra começar a tremer, respire fundo. Provavelmente, o corpo está apenas a pedir uma pausa. Dê-lha.










