Se já tentou de tudo para melhorar a pele e nada parece resultar, talvez a resposta esteja num sítio inesperado: o intestino. A ciência tem vindo a confirmar que existe uma ligação direta entre o que acontece no sistema digestivo e o estado da pele. Chama-se eixo intestino-pele e pode explicar problemas que nenhum creme consegue resolver.
O que é o eixo intestino-pele
O eixo intestino-pele, ou gut-skin axis, é uma interação bidirecional entre o sistema gastrointestinal e a pele. Segundo uma revisão científica publicada no PubMed em setembro de 2025, esta comunicação é mediada pelo sistema imunitário, pela inflamação sistémica e pela microbiota intestinal.
Na prática, quando o equilíbrio das bactérias no intestino se altera, a chamada disbiose, o corpo entra num estado de inflamação que se reflete na pele. A disbiose intestinal e o aumento da permeabilidade intestinal são hoje reconhecidos como fatores que contribuem para condições como acne, psoríase e dermatite atópica.
Acne, psoríase, dermatite: o intestino como ponto de partida
No caso da acne, a disbiose pode agravar a inflamação cutânea através da libertação de mediadores inflamatórios como IL-6 e TNF-α. São substâncias que o corpo produz quando o intestino está mais permeável do que deveria.
A dermatite atópica é outro exemplo claro. Afeta entre 15% e 30% das crianças a nível global e cerca de 10% dos adultos. Fatores genéticos, como mutações no gene da filagrina, tornam a barreira cutânea mais vulnerável. Mas fatores ambientais, como a baixa humidade ou a radiação ultravioleta, também podem comprometer essa barreira.
A produção reduzida de ácidos gordos de cadeia curta em pessoas com disbiose intestinal aumenta a permeabilidade do intestino. Isso desencadeia respostas inflamatórias que chegam à pele e agravam a dermatite atópica.
Uma descoberta portuguesa publicada na Nature Communications
Uma equipa do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular identificou uma bactéria com propriedades notáveis. A Klebsiella sp. ARO112 reduz a inflamação intestinal, bloqueia agentes patogénicos como a Salmonella e estirpes perigosas de E. coli, e ajuda a recuperar a microbiota após tratamento com antibióticos. Os resultados foram publicados na Nature Communications.
O mais interessante é o comportamento desta bactéria. A ARO112 só coloniza o intestino em níveis elevados quando a microbiota está desequilibrada, por exemplo depois de uma toma de antibióticos. Assim que o equilíbrio é restaurado, desaparece naturalmente. Funciona como um probiótico temporário e autolimitado.
Esta descoberta ganha relevância quando se compara com soluções existentes. O probiótico comercial E. coli Nissle 1917, já usado na Europa, não mostrou efeito protetor nos ratinhos estudados pela mesma equipa. Isto reforça uma ideia importante: nem todos os probióticos servem para todas as situações.
O que pode fazer pela ligação intestino-pele
A boa notícia é que terapias direcionadas ao microbioma, como probióticos, prebióticos e modificações na alimentação, demonstram eficácia no tratamento simultâneo de perturbações gastrointestinais e dermatológicas. Não se trata de substituir o dermatologista, mas de complementar o tratamento com atenção ao que acontece dentro do corpo.
Se lida com problemas de pele persistentes, vale a pena prestar atenção ao intestino. Incluir alimentos fermentados, fibras e uma alimentação variada é um bom ponto de partida. E se toma antibióticos com frequência, converse com o médico sobre formas de proteger a microbiota durante e após o tratamento. A pele, muitas vezes, é apenas o mensageiro do que se passa por dentro.











