Opinião: «A obesidade não é dependente meramente de escolhas pessoais», Gil Faria, cirurgião

Artigo de opinião de Gil Faria, cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo, coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde. Professor da FMUP e investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

Frequentemente, a minha consulta é pontuada de contrastes. Entre a ansiedade pela cirurgia e a tranquilidade do controlo do apetite; entre o medo das complicações e a ousadia de renascer; entre as dúvidas do desconhecido e a certeza do controlo do seu destino; ou entre a insatisfação com as limitações e a felicidade na recuperação da qualidade de vida. Ainda hoje, foi um desses dias…

Se por um lado, tive diversos doentes felizes, saudáveis e realizados, a agradecer a sua transformação de vida, também tive alguns indecisos, acomodados à sua doença e confusos pelas opiniões alheias. Apesar de que “cada macaco no seu galho”, é muito frequente que pessoas que nunca sofreram com obesidade, nem passaram por uma cirurgia metabólica, se arvorem o direito de comentar sobre as intenções de quem está doente e precisa de ajuda. Que é a saída mais fácil; que com esta nova tentativa de dieta é que vai ser; que a optar pela cirurgia se está a meter “num cabo de trabalhos”. A estes comentários bem-intencionados, mas perniciosos, há que responder com uma expressão popular, tão típica do meu Porto: “desampara-me a loja!”

A cirurgia metabólica é, para os casos de obesidade grave ou resistente ao tratamento conservador, a única opção terapêutica com resultados comprovados a longo prazo. “Pior cego é aquele que não quer ver!” A cirurgia metabólica é um tratamento altamente eficaz, extraordinariamente seguro e minimamente invasivo. Com as técnicas cirúrgicas atuais, permite-se uma recuperação praticamente indolor e um rápido regresso à vida ativa. A cirurgia metabólica está associada a perdas de 30-40% do peso corporal e, comprovadamente, resulta em perdas de peso mantidas ao longo de mais de duas décadas.

Tanto que o maior arrependimento dos doentes submetidos a cirurgia metabólica é não terem sido operados mais cedo. Os estudos de qualidade de vida após cirurgia são inequívocos a demonstrar o benefício do tratamento. A melhoria das condições de saúde associadas à obesidade traz, não só um bem-estar significativo, mas uma diminuição do risco de complicações e de progressão dessas doenças. A generalidade dos doentes submetidos a este tipo de cirurgia comprova que, efetivamente, a cirurgia metabólica salva-vidas e que tiveram uma nova oportunidade de renascer.

Insistir em métodos de tratamento que já falharam no passado vai resultar nos mesmos efeitos no futuro: frustração e desalento. Se “errar é humano, persistir no erro é burrice!” À medida que compreendemos melhor a origem e o desenvolvimento da obesidade, percebemos também que os velhos aforismos de “come menos e corre mais” estão destinados ao fracasso. Além da nossa tendência genética para a obesidade, vivemos numa sociedade que favorece o seu progresso. A obesidade não é dependente meramente de escolhas pessoais e, definitivamente, não se trata ignorando todo o contexto social, genético e ambiental. Felizmente, a ciência trouxe-nos tratamentos eficazes, pelo que não deixemos a sociedade semear a dúvida do merecimento, da pertinência ou da eficácia desta solução médica.

Por tudo isto, se pensa que precisa de uma cirurgia para controlar o seu problema da obesidade, provavelmente beneficiará desse tratamento e há que fazer “orelhas moucas” às “vozes de burro que não chegam ao céu” e embarcar nesta viagem tão necessária e com um poder transformativo sem igual!

 

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