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Os signos existem? Neurocientista português explica o que realmente molda a nossa personalidade

Os signos existem? Neurocientista português explica o que realmente molda a nossa personalidade
Forever Young

Ao longo de décadas de vida, muitos de nós fomos construindo uma relação curiosa com o horóscopo: ora o consultamos por diversão, ora nos surpreendemos com descrições que parecem encaixar na perfeição.

Ao longo de décadas de vida, muitos de nós fomos construindo uma relação curiosa com o horóscopo: ora o consultamos por diversão, ora nos surpreendemos com descrições que parecem encaixar na perfeição. Mas será que a época em que nascemos determina mesmo quem somos? O neurocientista português Fabiano de Abreu Agrela, doutorado em Neurociências pela Universidade Azteca e membro da Royal Society of Biology no Reino Unido, da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa e da Society for Neuroscience nos Estados Unidos, propõe olhar para esta questão antiga através das lentes da biologia e da genética, afastando o misticismo e devolvendo o protagonismo àquilo que, ao longo da vida, verdadeiramente nos define.

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Uma questão de percentagens, não de certezas absolutas

Em vez de respostas fechadas, o investigador prefere pensar no peso relativo de cada fator que contribui para aquilo que somos. Para o especialista, a personalidade nasce de uma combinação complexa em que a biologia assume o papel principal, definindo o ponto de partida do desenvolvimento de cada pessoa.

“Quando me perguntam se acredito em signos, eu costumo responder da seguinte forma: eu trabalho muito com a ideia de percentuais. Nenhum fator, isoladamente, explica a personalidade humana. A personalidade tem uma predisposição genética importante e também sofre influência de fatores ambientais. Na minha visão, o precursor é sempre genético. Isso não significa que o ambiente não tenha influência; significa que, muitas vezes, ele atua sobre predisposições que já existem. Por isso, a genética acaba tendo um peso predominante na formação da personalidade”, afirma Fabiano de Abreu Agrela.

Esta leitura é sustentada pela investigação científica contemporânea. Os estudos com gémeos indicam que a herdabilidade dos traços de personalidade se situa, regra geral, entre os 40 por cento e os 60 por cento. O restante perfil comportamental é esculpido por experiências de vida únicas e pelo ambiente em que cada um cresce, embora, sublinha o neurocientista, esse próprio ambiente seja orientado por essas predisposições genéticas.

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A estação do ano, não o alinhamento das estrelas

E se há quem jure encontrar semelhanças entre a sua personalidade e o respetivo signo? Segundo o investigador, essa relação pode existir, mas por razões biológicas ligadas às estações do ano, e não ao posicionamento das constelações.

“O signo pode ter alguma relação indireta com a personalidade porque ele coincide com uma determinada época do ano. A estação, o clima, o posicionamento da Terra em relação ao Sol, a duração dos dias, entre outros fatores ambientais, podem exercer alguma influência sobre o desenvolvimento. Sabemos que o ambiente influencia o organismo, e isso é compatível com o que conhecemos sobre evolução e biologia”, explica.

Ainda assim, o especialista alerta para o risco de exagerar esse efeito. “Isso não significa que o signo seja o responsável pela personalidade. Não podemos atribuir a ele um peso que ele provavelmente não tem. Vamos imaginar, de forma hipotética, que a personalidade seja composta por mil traços comportamentais. Nesse cenário, o signo talvez influenciasse apenas vinte ou trinta desses traços, enquanto centenas de outros dependeriam principalmente da genética, do desenvolvimento e das experiências de vida”, refere.

Do ponto de vista da neurociência, aspetos como a exposição da grávida à luz solar, a absorção de vitamina D, a incidência de infeções sazonais e as variações de temperatura durante a gestação e nos primeiros meses de vida do bebé podem provocar pequenas alterações no desenvolvimento. Contudo, a ciência classifica estas influências como fatores sazonais do desenvolvimento, sem qualquer ligação causal com divisões arbitrárias do céu ou com a posição aparente do Sol face às constelações.

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O efeito Barnum e a ilusão de sermos compreendidos

Fica então por explicar um mistério: se a influência dos astros não tem base científica sólida, porque é que tantas pessoas se revêm com tanta exatidão nas descrições do seu horóscopo? A resposta está num fenómeno bem estudado pela ciência cognitiva, o efeito Barnum, também conhecido como efeito Forer.

De acordo com Fabiano de Abreu Agrela, tendemos a fixar-nos apenas nos traços que coincidem com a descrição do nosso signo. Ao reconhecer essas coincidências, generalizamos e passamos a acreditar que o signo é o grande responsável pelo nosso comportamento, quando, na realidade, ele representaria apenas uma parte ínfima de um ecossistema muito mais amplo de fatores.

As descrições astrológicas são, por natureza, genéricas e abrangentes, o que permite que quase qualquer pessoa se identifique com elas. O cérebro humano, sempre à procura de padrões e de validações para a própria identidade, tende a registar os pontos em que o horóscopo acerta e a ignorar tudo o que contraria a previsão.

O que a ciência nos diz sobre quem somos

A mensagem final do neurocientista é clara e, de certa forma, libertadora. O nosso comportamento é um mosaico complexo, dominado pela genética, pelo desenvolvimento do sistema nervoso e pelas interações sociais que vamos acumulando. Os principais alicerces da personalidade podem resumir-se assim:

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  • A predisposição genética, que funciona como ponto de partida e tem peso predominante.
  • O desenvolvimento do sistema nervoso ao longo da vida.
  • As experiências pessoais e as interações sociais que nos acompanham.
  • Fatores sazonais e ambientais, com uma influência real, mas pequena e sem relação com os signos.

Ainda que a época do ano em que nascemos possa exercer uma ligeira influência biológica e nutricional no organismo, o rumo da nossa personalidade continua a ser escrito pela biologia e pelas escolhas que fazemos ao longo da vida, sem qualquer interferência das estrelas.