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Ouvir fado sem cair na armadilha para turistas

Ouvir fado sem cair na armadilha para turistas
Rogério Junior

Há casas com jantar caro e espectáculo cronometrado, e há sítios onde se canta à moda antiga, por gosto e sem bilhete. Saber distinguir muda a noite.

O fado é Património Imaterial da Humanidade desde 2011 e tornou-se, desde então, um produto turístico com tudo o que isso traz de bom e de mau. Hoje é possível ouvir excelente fado em Lisboa e passar uma noite inteira numa casa onde o essencial é o jantar e a factura.

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As casas de fado

Concentram-se em Alfama, na Mouraria, no Bairro Alto e na Madragoa. Nas boas casas, a sala faz silêncio quando as luzes baixam, o fadista é acompanhado por guitarra portuguesa e viola, e ninguém fala durante o fado. Essa é, aliás, a regra de etiqueta mais importante e a que distingue uma casa séria.

Os preços variam muito. Muitas cobram consumo mínimo ou jantar obrigatório, com valores que podem ultrapassar os 50 euros por pessoa. Confirme sempre antes de reservar o que está incluído e a que horas começam as actuações.

Fado vadio, o mais genuíno

É a tradição de qualquer pessoa se levantar e cantar, acompanhada pelos músicos da casa, sem cartaz nem contrato. Acontece em tascas e colectividades de Alfama, da Mouraria e de outros bairros, normalmente a partir do final da noite, e o custo resume-se ao que se consome.

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É imprevisível: tanto pode aparecer alguém extraordinário como uma sucessão de aprendizes. Faz parte.

O fado de Coimbra

É outra coisa e convém não confundir. Cantado tradicionalmente por homens, com traje académico, tem repertório e afinação próprios e um ambiente mais contido. Em Coimbra há casas dedicadas e espectáculos regulares, alguns em espaços históricos, com sessões curtas ao início da noite.

Sem jantar e sem gastar muito

O Museu do Fado, em Alfama, tem exposição permanente, arquivo sonoro e bilhete barato, com desconto para maiores de 65 anos, e organiza sessões e concertos. Várias juntas de freguesia, colectividades e bibliotecas promovem noites de fado gratuitas ou quase, sobretudo em época de festas populares.

Muitos municípios do país têm associações de fado amador com sessões mensais abertas ao público, e é frequentemente aí que se ouve cantar melhor.

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Como escolher uma casa

Pergunte quem canta nessa noite e quantos fadistas actuam. Prefira casas onde o fado tem horários fixos anunciados e onde o serviço pára durante as actuações. Desconfie de quem angaria clientes à porta e de menus turísticos fotografados.

Reserve com antecedência, sobretudo ao fim-de-semana, e confirme se há escadas, porque muitas casas históricas ficam em caves ou primeiros andares sem elevador.

Para ouvir em casa

A discografia de Amália Rodrigues continua a ser a porta de entrada, e há hoje edições remasterizadas de gravações antigas. Alfredo Marceneiro, Carlos do Carmo e Maria Teresa de Noronha completam o essencial. Entre os nomes actuais, há fadistas que se afastaram do repertório clássico e outros que o mantêm quase intacto, o que permite escolher conforme o gosto.

Levar alguém pela primeira vez

Se for com netos ou com quem nunca ouviu fado ao vivo, escolha uma sessão curta e cedo, de preferência num museu ou num concerto anunciado, e não uma noite de casa de fado que só aquece depois das onze. A primeira impressão conta, e o silêncio de uma sala pequena faz mais pelo fado do que qualquer explicação.

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