Emagrecer é o objetivo. Parecer mais velho é o efeito que ninguém esperava. À medida que milhões de pessoas recorrem à semaglutida para perder peso, um fenómeno ganhou nome próprio: o «Ozempic face». O rosto encovado, a pele flácida, uma aparência cansada — como se os anos chegassem todos de uma vez.
Mas será que o medicamento envelhece mesmo a pele? Ou há mais por trás desta história?
O que é, afinal, o «Ozempic face»
Uma revisão sistemática de 23 artigos científicos, publicada no Aesthetic Surgery Journal, concluiu que os agonistas do receptor GLP-1 causam alterações morfológicas faciais semelhantes ao envelhecimento avançado. Segundo um estudo publicado no Journal of Clinical Medicine, o efeito não é direto do fármaco na pele ou no colagénio — resulta da perda rápida de peso.
Quando se perde gordura facial depressa, a pele não acompanha. O resultado? Sulcos mais marcados, bochechas descaídas e uma aparência fatigada.
Os números que explicam a dimensão do problema
Em ensaios clínicos com doses de 2,4 mg, a semaglutida produziu uma perda média de 14,9% a 17,4% do peso corporal em apenas um ano. É uma redução significativa — e rápida. A Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos revelou que 2 em cada 5 pacientes a tomar GLP-1 estavam a considerar cirurgia estética. Um em cada cinco já a tinha feito.
Nos Estados Unidos, o uso de preenchimentos com ácido hialurónico duplicou entre 2017 e 2023 — de 2,6 para mais de 5,2 milhões de pessoas. Não é coincidência: 2017 foi o ano em que o Ozempic foi aprovado para diabetes. As pesquisas online por «Ozempic face» estão associadas a aumentos nas buscas por «face filler» e «plastic surgeons», segundo o mesmo estudo do Aesthetic Surgery Journal.
Nem tudo são más notícias
A semaglutida tem benefícios reais e documentados. Demonstrou reduzir o risco de eventos cardiovasculares graves, como infartos e AVC, em pacientes de alto risco. Investigadores da Universidade Case Western Reserve, após analisar registos de mais de 1,5 milhão de diabéticos, concluíram que os utilizadores de semaglutida apresentaram propensão menor de desenvolver Alzheimer ou outros quadros de demência.
A própria OMS recomendou, em dezembro de 2025, o uso de terapias GLP-1 para o tratamento da obesidade — uma decisão histórica. A organização lembrou que a obesidade foi associada a 3,7 milhões de mortes em 2024. Mas a recomendação é condicional: faltam dados sobre uso prolongado, manutenção e custos.
A realidade portuguesa
Em Portugal, as terapias GLP-1 são comparticipadas pelo SNS apenas para doentes diabéticos. Ainda assim, a classe dos antidiabéticos foi a que mais custou ao SNS entre janeiro e setembro de 2025: 354,6 milhões de euros, segundo dados do Infarmed reportados pelo Público.
E há outro dado importante: quem para, engorda. Pacientes que interromperam a semaglutida após um ano recuperaram cerca de dois terços do peso perdido. O efeito é temporário e depende da continuidade do fármaco.
Há soluções para o rosto?
Numa série clínica com 24 pacientes tratados com radiofrequência bipolar subdérmica para «Ozempic face», a maioria reportou satisfação elevada — 8 em 10 ou mais — após seguimento mínimo de 12 meses. O único efeito adverso foi eritema cutâneo transitório. É uma opção, mas não é acessível a todos.
Mais de 20% dos pacientes do dermatologista Paul Jarrod Frank, em Nova Iorque, utilizam GLP-1 como parte de um «regime de longevidade» — um aumento significativo nos últimos dois anos, segundo a CNN Portugal.
O que levar daqui
A semaglutida funciona para perder peso. Mas a perda rápida tem um preço visível no rosto. Uma análise ética publicada no BMJ concluiu que as preocupações não são razão suficiente para deixar de prescrever — mas que é fundamental informar quem toma.
Se está a considerar este tratamento, converse com o médico sobre o ritmo de perda de peso, as alternativas para manter a saúde da pele e o que esperar a longo prazo. O corpo muda. O rosto também. E é melhor saber antes do que descobrir depois.











