Quem tem 60 anos já foi chamado, ou conhece quem foi, para o rastreio da mama, do colo do útero ou do cólon e reto. São programas organizados: uma carta chega a casa, há uma idade de início, uma periodicidade definida e um circuito montado. Para o cancro da próstata não existe nada disso, e muitos homens interpretam essa ausência como um esquecimento do sistema de saúde. Não é.
Em Portugal não há recomendação para rastreio sistemático do cancro da próstata. O que existe é o chamado rastreio oportunista, feito caso a caso, depois de o médico explicar os riscos e os benefícios e com a decisão a ser tomada em conjunto com o doente. Não é um detalhe de linguagem, é o centro da questão.
O problema não é a análise
A análise do PSA existe, é barata e faz-se com uma colheita de sangue como qualquer outra. A dificuldade começa depois. Um PSA elevado não significa cancro: sobe com a idade, com o aumento benigno da próstata, com infeções, com uma ida à bicicleta ou com a atividade sexual nos dias anteriores. E um PSA normal também não exclui doença.
O passo seguinte a um valor alterado costuma ser uma biópsia, que não é um exame inócuo. E aqui está o nó verdadeiro: uma parte significativa dos cancros da próstata detetados desta forma cresce tão devagar que nunca chegaria a causar sintomas nem a encurtar a vida de quem os tem. Diagnosticá-los conduz muitas vezes a tratamento, e o tratamento tem consequências reais e permanentes, sobretudo incontinência urinária e disfunção erétil.
É isso que os grandes estudos internacionais mostram e que sustenta a posição atual: não foi possível demonstrar de forma convincente que os benefícios do rastreio generalizado superem os danos que ele provoca. A discussão continua aberta e tem havido movimentação a nível europeu no sentido de reavaliar programas de deteção precoce, pelo que esta é uma matéria que pode mudar nos próximos anos.
O que fazer com esta informação
Não fazer nada não é a conclusão. A conclusão é que a decisão passa a ser individual e informada, e que o lugar para a tomar é a consulta de medicina geral e familiar.
Há fatores que pesam a favor de discutir o assunto mais cedo e com mais atenção: história familiar de cancro da próstata, sobretudo em pai ou irmão, e ascendência africana, ambos associados a risco mais elevado. Nestes casos a conversa costuma começar antes dos 50 anos em vez dos 50 aos 55 habituais.
Há também sintomas que nada têm a ver com rastreio e que exigem consulta independentemente de tudo isto: dificuldade em urinar, jato fraco ou interrompido, urinar muitas vezes durante a noite, sangue na urina ou no esperma, dor persistente na bacia ou nos ossos. Rastreio é procurar doença em quem não tem queixas. Com queixas, já não é rastreio, é investigação, e essa faz-se sempre.
Vale a pena levar duas perguntas à consulta e não sair sem resposta: quais são os riscos e os benefícios no meu caso concreto, e o que acontece se o resultado vier alterado. A marcação pode ser feita através do SNS 24. Uma decisão informada pode ser fazer a análise ou não a fazer, e as duas são legítimas desde que sejam tomadas com conhecimento do que vem a seguir.











