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	<title>conto &#8211; Forever Young</title>
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	<description>Para se sentir sempre jovem. Viva com mais sentido, 55+ com atitude.</description>
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	<title>conto &#8211; Forever Young</title>
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		<title>A queimadura</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Forever Young]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2020 11:00:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Forever Young, em parceria com a Escrivaninha, apresenta agora semanalmente a todos os leitores um conto literário ou "short story" para inspirar e entreter.</p>
<p>Leia mais artigos em https://foreveryoung.sapo.pt</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>A água fervia quando caiu no braço prático. De seguida, soou a reacção da boca com uma ordem.</p>
<p>O braço direito foi, então, para o hospital («imagine-se», dizia a mente castradora) dentro de um <em>pirex</em> com água — porque não suportaria, de outro modo, os poros a gritar, intumescidos e furibundos, de dor. Na sala de espera, todas as bocas alheias se riram discretamente dele — havia-lhe dito o canto de um olho, que, de resto, nunca fora muito fiável, pelo pendor exagerado que sempre dava a determinados ângulos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De seguida, o braço teve direito a um comprimido rosa de compaixão e a um creme espalhado por mãos técnicas e cuidadosas — mais tarde por outras só carinhosas, que, ironicamente, foram também as mãos levadas, pelo acaso, à responsabilidade por aquela queimadura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como era de esperar, ao regressar a casa, o braço fez todos os pedidos que a uma vítima são devidos. Era, como todos os doentes, rabugento, vermelho, raivoso (ainda) com o que lhe acontecera.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Além disso, não estava senão habituado ao protagonismo que, quase sempre, se outorga a um braço direito: na escrita, no gesto, na utilidade de tudo o que fazia (congratula-se agora mesmo pelo elogio).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não podia, portanto, habituar-se àquele novo posto de resguardo, sob um penso de parafina e uma liga grossa. E, como se não bastasse, perder o estatuto do intelecto e da utilidade, a pele escurecia, saía em escamas — perdendo a honra, em despedida. Piorando tudo, na sua malícia e coscuvilhice, os olhos entretinham-se com a apreciação algo sádica do aspecto do outrora glorioso braço direito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Porém, segundo constou aos ouvidos, dali a uns tempos, o braço renascerá com um novo fulgor, uma tez mais macia, jovem e brilhante. Mas, como diz o olho céptico ao canto do olho incauto, o melhor é mesmo «ver para crer».</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Elsa Alves</p>
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<h6><span style="color: #808080;"><em>(texto escrito de acordo com a antiga ortografia)</em></span></h6>
<h6><span style="color: #808080;"><em>A Escrivaninha é uma equipa de <span class="italic">freelancers</span> que se dedicam à revisão, edição, tradução e produção de texto, criada por quem conhece e reconhece a beleza mas também os ardis da língua portuguesa. Conheça melhor os nossos serviços <a style="color: #808080;" href="https://www.escrivaninha.pt/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</em></span></h6>
<p>&nbsp;</p>
<p>Leia mais artigos em https://foreveryoung.sapo.pt</p>
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		<title>&#8220;A Lagarta de Pedra&#8221; (II), de Marta Cruz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Forever Young]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jul 2020 10:30:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Forever Young, em parceria com a Escrivaninha, apresenta agora semanalmente a todos os leitores um conto literário ou "short story" para inspirar e entreter.</p>
<p>Leia mais artigos em https://foreveryoung.sapo.pt</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>(Ler <a href="https://foreveryoung.sapo.pt/a-lagarta-de-pedra-i-de-marta-cruz/">Parte 1</a>)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eram 11h30 quando começámos a nossa caminhada em direção à muralha e 12h quando chegámos ao topo. Jinshanling é uma das várias zonas visitáveis da Grande Muralha da China, já na província de Hebei e a cerca de 125 quilómetros e a mais ou menos duas horas do centro de Pequim. Ir à muralha é algo imperdível e provavelmente difícil de repetir a não ser que se viva por estes lados do mundo. E tomando isso como um dado adquirido, nós resolvemos seguir a sugestão de uma das nossas mais recentes amizades e escolher uma visita guiada que fugisse a Badaling, a zona restaurada da muralha mais próxima de Pequim e, por isso, a mais turística.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Dir-me-ão os cépticos que não parece possível (só porque, tanto quanto sei, é isso que os cépticos tendem a dizer sobre as coisas), mas a verdade é que o nosso grupo (reduzido a mais ou menos 12 pessoas neste ponto) era o único nesta zona da muralha e, acredite-se ou não, cruzou-se com apenas umas seis outras pessoas durante as três horas de percurso. Ao longo das dezenas de quilómetros de muralha que podíamos ver a olho nu — num dia totalmente limpo — não avistámos mais ninguém. Apenas muralha e montanhas, ambas beijadas de branco por uma camada ainda considerável de neve.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É uma visão difícil de esquecer.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um silêncio brutal e um frio que se tornou incapacitante quando tentámos imaginar as condições em que ali viviam os soldados do império. Neve e incontáveis quilómetros de uma estrutura defensiva com 2500 anos, que levou mais de uma dinastia a ser construída, sacrificando milhares de agricultores, soldados e presos, 70% dos quais nunca regressou a casa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pequenas cozinhas no primeiro andar de cada torreão, a imagem de soldados deitados ao frio da noite no telhado e um vastíssimo terreno Mongol — o atual deserto de Gobi — que, em tempos, representou 1/3 do território da China e uma constante ameaça para este país que se veio a tornar a enorme potência que, hoje, só por um vírus se deixa abalar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Caminhámos por uma zona não restaurada da muralha com cautela e — por mim falo — com um certo receio de escorregar… Entre a instabilidade da neve, tijolos de pedra fora do lugar e armadilhas pensadas para evitar uma invasão, o percurso foi cuidadoso e — penso que aqui poderia falar por todos — maioritariamente alimentado pela paisagem avassaladora que nos rodeava. Quem ali nos visse, talvez só do céu, como 12 formiguinhas perdidas naquela majestosa lagarta de pedra, achar-nos-ia os seres mais insignificantes do mundo. E éramos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Enfeitiçados, fomos avançando, fazendo as coisas normais de quem calça as botas ao fim-de-semana e escolhe fazer um trilho pelos solos que as nossas terras nos oferecem. Tiramos umas bolachas da mochila, reapertamos os sapatos, bebemos água e falámos de coisas triviais. Mas não estamos em casa, nem sequer num local que a faça lembrar. Guardamos os amendoins e voltamos à realidade: a muralha, e quem a construiu, merecem mais do que as migalhas que os turistas ali deixam.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>13h30 e a viagem torna-se mais fácil porque também a muralha se torna mais plana. Há 30 anos também parte desta zona foi restaurada para que o turismo aqui pudesse singrar. O senhor sexagenário belga está bem disposto, o filho nunca se preocupou (demasiado) com ele, o escocês continua a tirar o juízo ao guia porque insiste em deixar-se ficar para trás para tirar fotografias e o rapaz chinês parece ter sido resgatado por um qualquer milagre que o salvou de terminar o vertiginoso percurso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A fome é muita, mas não há estômago vazio que não se suporte quando ali se está, em silencioso respeito pelos corpos que, ao longo de tantos anos, foram sendo sepultados dentro da própria construção.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Senti pela história daquela jovem recém-casada que perde o marido para a legião de recrutas encarregados de erguer a cortina defensiva mais longa do mundo. Diz-se que, inconformada, essa jovem decidiu procurar o marido nas recônditas montanhas para onde tinha sido enviado. Diz-se também que levou três anos a chegar de Pequim a Jinshanling e que, por ter chegado demasiado tarde, o marido estava já enterrado dentro da muralha. Desolada, terá também ela caído morta no percurso de regresso. Anos depois, a China seria abalada pelo terramoto que destruiu parte da grande muralha. Reza a lenda que, por obra divina, ficou a descoberto, no meio dos escombros, o corpo do marido. E quem diria que, como mecanismo de defesa, a muralha acabou por não servir de nada…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Antes de descermos, fomos todos tentando tirar fotografias àquela estrutura sem fim, mesmo sabendo que nenhuma lhe faria jus. Estávamos já ‘habituados’ ao cenário, porque o ser humano tem destas coisas ingratas que o fazem, com o tempo, estar de acordo com quase tudo. De regresso a Pequim, já todos sorriam uns para os outros, mas eu — que preferia ter sentido essa empatia no caminho inverso — deixei-me embalar pelos solavancos do autocarro. Agora, estava certa de que não havia livro que eu trouxesse nesta viagem que pudesse substituir aquela pintura. E, também por isso, o leitor terá de desculpar a minha presunçosa necessidade de, na extensão destas páginas, escrever sobre o que ali vi.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>&#8220;A Lagarta de Pedra&#8221; (I), de Marta Cruz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Forever Young]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jul 2020 10:30:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[a lagarta de pedra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Forever Young, em parceria com a Escrivaninha, apresenta agora semanalmente a todos os leitores um conto literário ou "short story" para inspirar e entreter.</p>
<p>Leia mais artigos em https://foreveryoung.sapo.pt</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>I</b></p>
<p>Eram 6h40 quando chegámos à recepção do hotel, encasacados até ao tutano e passeando dois copos de café improvisados. O motorista já nos esperava e, abordou-nos sem hesitar e, para variar, sem dizer uma palavra em Inglês. Aqui a pontualidade é absolutamente crucial e, embora os portugueses não sejam conhecidos por serem os mais pontuais, nós até temos o hábito de nos portar muito bem nestas situações.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Com as mochilas carregadas de bolachas, fruta e alguma água, acabámos por, quase uma hora depois, ser encaminhados para um autocarro onde nos esperavam — a nós e aos restantes turistas coletados pela moribunda carrinha do primeiro motorista — mais uns quantos ocidentais, todos eles muito diferentes entre si e, à primeira vista, todos eles demasiado reservados para o meu gosto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nevara durante toda a noite e as ruas de Pequim estavam cobertas de frio. No centro da cidade, grande parte da neve já tinha sido cuidadosamente amontoada por pessoas que — supus — estavam encarregadas da limpeza das ruas. Aqui, todos estão empregados e todos têm pelo menos uma tarefa a seu cargo, seja ela gerir a contabilidade de uma empresa de renome, recolher lixo da rua, limpar a neve dos passeios e estradas ou guardar uma porta. Tudo vale e, consequentemente, há poucos sem-abrigo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Àquela hora, grande parte da neve das ruas de Pequim estava colhida ou em vias de o ser. O mesmo já não se podia dizer dos ‘subúrbios’, embora seja difícil falar de subúrbios numa cidade como Pequim, especialmente se não se conhecer bem os seus limites e distâncias, que nós, estrangeiros, tendemos a medir por estações de metro ou quilómetros de táxi. Aí, como nas zonas de vegetação que contornam e percorrem os magnânimos edifícios de uma das cidades mais populosas do mundo, a neve aguardava.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O autocarro seguiu lentamente, fazendo caminho pelo trânsito e, mais tarde, percorrendo as estradas da montanha. A paisagem tingida de branco e preto parecia fazer parte de um livro de banda desenhada que eu nunca teria lido se não tivesse estado ali. Não admirava que o desenho e a caligrafia fossem tão profícuos naquelas terras de oriente: com paisagens daquelas compreende-se quem procura honrar o pincel mergulhado em tinta-da-china. Contudo, sorte para os que julguem que a paisagem é boa parte do trabalho! Agora que estava diante daquelas imagens podia, finalmente, perceber o que me havia sido explicado em Xi’an: a mestria da caligrafia chinesa está não só em saber fazer mais do que um traço numa só pincelada. Está também, e sobretudo, em pintar sobre o branco e conferir movimento e textura a esse fundo nunca pintado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eram 11h da manhã e já lá iam cinco horas desde que acordáramos. A neve, que nos maravilhava a nós, turistas, dificultava o andamento da visita guiada e, claro, a vida das aldeias locais pelas quais íamos passando.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Durante uma hora fui folheando as páginas da Lingshan que trouxera comigo no <em>Kindle</em>. Com excepção dos guias em papel que sempre carreguei para todo o lado, com o <em>Kindle</em> e outros dispositivos semelhantes sempre me sentira uma turista relativamente tecnológica. Até passar, claro, vinte dias na China.</p>
<p>O grupo era bastante eclético, embora maioritariamente constituído por ocidentais. Um casal de irlandeses simpáticos que, tanto quanto percebemos, estava há seis meses em viagem, mas, para mal dos nossos pecados, era vegetariano. Um escocês em nada escocês que, além de falar pelos cotovelos sobre si, vivia na Coreia do Sul há cinco anos, pelo que falava sobre si única e exclusivamente nesse contexto. Já ao nosso lado, no autocarro, vinha um casal de britânicos que, como quase todos os britânicos, se destacavam por falar muito depressa, com um sotaque carregado e, acima de tudo, por parecerem ser, <em>indeed</em>, britânicos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Havia também um chinês muito magro que, fazendo jus ao misterioso casaco de <em>matrix</em> que envergava, se manteve sempre escondido debaixo do seu cachecol largo de um cinzento pouco vistoso, sem proferir uma palavra aos não falantes de mandarim, durante toda a visita. Entre nós contava-se ainda uma alemã solitária, de Köln, que passou todo o tempo preocupada com a hora de regresso, dado que tinha de estar no aeroporto de Pequim num qualquer horário apertado, e um casal oriundo dos Alpes que não parecera muito simpático até ao momento em que ela percebera que um de nós falava — relativamente bem — francês.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Depois, e como em todas as visitas guiadas, havia um grupo de pelo menos cinco pessoas que, misteriosamente, nos acompanhou durante o trajecto até Jinshanling, mas, uma vez iniciada a subida, nunca mais fora visto. Teriam escolhido um caminho diferente do nosso ou, mais estranho ainda, optado por não o fazer? Escolhemos não nos preocupar com o assunto, uma vez que a pesada ressaca de que evidentemente sofriam só dificultaria o percurso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fosse como fosse, a lista não podia terminar sem a dupla de belgas — pai e filho — , o grande alvo de discriminação positiva por parte do nosso animado guia, constantemente preocupado com a saúde do senhor de 60 e poucos anos que estava perfeitamente capaz de levar a experiência a cabo. Além disso, a subida não teria tido a mesma graça sem o rapaz de Xangai que julgou que o Zé era chinês e morreu de medo de fazer a caminhada, afastando-se do grupo diversas vezes só para que o guia fosse obrigado a voltar atrás para o resgatar do pânico que o impedia de avançar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>«My dear friends, there is no romantic encounters on the Wall», dizia Chen, cuspindo animadamente para o microfone e fazendo os turistas rir da sua falta de jeito e inglês macarrónico. Era um tipo baixinho e praticamente imberbe, sempre sorridente e apressado, que dizia ter aprendido inglês com o filme <em>Forrest Gump</em>, o que servia de desculpa para a sua pouca proficiência linguística, mas explicava algumas semelhanças notórias com a dita personagem.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Continua…)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Marta Cruz</p>
<p>&nbsp;</p>
<h6><img decoding="async" class=" wp-image-35220 alignnone" src="https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/2020/04/Original-on-Transparent.png" alt="&quot;A Lagarta de Pedra&quot; (I), de Marta Cruz" width="256" height="47" title="&quot;A Lagarta de Pedra&quot; (I), de Marta Cruz" srcset="https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent.png 5000w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-960x176.png 960w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1920x353.png 1920w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-768x141.png 768w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1536x282.png 1536w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-2048x376.png 2048w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1200x220.png 1200w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-600x110.png 600w" sizes="(max-width: 256px) 100vw, 256px" /></h6>
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<h6><span style="color: #808080;"><em>(texto escrito de acordo com a antiga ortografia)</em></span></h6>
<h6><span style="color: #808080;"><em>A Escrivaninha é uma equipa de <span class="italic">freelancers</span> que se dedicam à revisão, edição, tradução e produção de texto, criada por quem conhece e reconhece a beleza mas também os ardis da língua portuguesa. Conheça melhor os nossos serviços <a style="color: #808080;" href="https://www.escrivaninha.pt/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</em></span></h6>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>&#8220;O Prédio&#8221; &#8211; Parte II, de Elsa Alves</title>
		<link>https://foreveryoung.sapo.pt/o-predio-parte-ii-de-elsa-alves/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Forever Young]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 30 May 2020 11:00:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Forever Young, em parceria com a Escrivaninha, apresenta agora semanalmente a todos os leitores um conto literário ou "short story" para inspirar e entreter.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>(ler <a href="https://foreveryoung.sapo.pt/o-predio-de-elsa-alves/">aqui</a> parte I)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>II</strong></p>
<p>Durante as vindas da Cátia e do marido à casa da D. Amélia havia sempre discussão e, logo a seguir, espevita, vinha ela ao nosso andar contar a cena com a ambivalência que lhe era característica. Ora vítima dos comentários maldosas da filha, ora líder, expulsando o Richard da sua casa, corajosa: «<em>Rauz</em>!» (rua, no seu «alemão»).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Porém, nem só sobre tempestuosas personalidades se erguia o prédio. Havia, felizmente, a candura e doçura dos bolos da dona Maria João do segundo andar. Preocupada em não incomodar, a dona Maria João não ofertava nenhuma iguaria sem pedir desculpa: ora era o recipiente que não se adequava, ora eram os bolos que não tinham bom aspecto. Havia sempre afectação no discurso: «Trouxe-lhe uns bolinhos. Olhe para o que me havia de dar… olhe para isto, sem jeito».</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Um dia, a D. Amélia e a D. Maria João conjugaram esforços para escrever, em quadras, uma letra personalizada e dedicada à minha família, que viriam a cantar no dias de reis, depois de alguns ensaios. Nunca julguei que dois temperamentos tão díspares se conjugassem tão bem, em uníssono.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já das terras de Quixote, vinha alguém com a vaidade, a destreza, o salero e o sotaque espanhol: a dona Ermínia, de 80 anos, uma exímia conversadora: «<em>Dona Issssabel comprou una bimbi?</em>», perguntara ela um dia vendo a minha mãe com um electrodoméstico nas mãos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Certa noite azeda caiu de forma espalhafatosa — ela dormia com uma touca (certamente ofertada pela sua filha que era enfermeira), num traje bastante risível. A minha mãe tinha ouvido gritos desde o sexto, acudindo-a de imediato, apesar de a dona Ermínia já gritar há umas boas horas. A partir desse dia a dona Ermínia ficou eternamente grata à minha mãe, dizendo sempre que por ela passava: «<em>Gracias dona Issssabel</em>».</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar desse incidente, no dia seguinte, a dona Ermínia era, de novo, e como sempre, a velhota mais composta da cidade. Ali a víamos, alternando entre o corpo espalmado, imóvel e queixoso com aquela mulher arranjada, repleta de base, <em>blush</em>, <em>batôn</em> e movimentando-se pelas ruas, num casaco de peles, acompanhada da filha, Tilinha.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Havia ainda o Feliciano, galã domingueiro que se pavoneava pela avenida onde ficava o nosso prédio. Tinha uma amante flagrante que escondia da mulher gorda e coxa — que deixava o carro durante muito tempo ligado na garagem, acumulando monóxido de carbono, enquanto passava os olhos por uns quantos papéis. Ainda para mais, a filha de ambos, Carlota, chefiara um <em>gang </em>que roubara o padre de Outeiro (uma aldeia das redondezas) mas, agora, inofensiva e sorridente, redimia-se vendendo bugigangas numa barraca, na feira medieval.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A vizinha do primeiro andar era a «Dorinha». Baixa, e extremamente magra, com uma anca larga e um queixo agudo, em forma de gancho. Acumulava dívidas de condomínio, com uma indiferença e uma simpatia que quase as faziam esquecer. Uma vez, ainda em pequena, ofereceu-me uma caneca original: a asa era o pescoço de uma girafa cujo padrão do corpo se estendia pelo resto da caneca. Dizia que me faria a colecção daquelas canecas… mas como as promessas de pagamento feitas ao condomínio não foi cumprida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Depois, havia vizinhos que não conhecia tanto, afigurando-se modelações estéticas de um aspecto específico: a advogada que repetia constantemente a palavra «efectivamente», fazendo-me até hoje considerá-lo um termo dispensável, ou o senhor Ruivo. Rico, com vários carros, várias casas e muitos filhos, e um rosto e expressão que lembravam ligeiramente Jean Paul Sartre.</p>
<p>Erguido sobre fundações trágico-cómicas, dotado do protagonismo que a principal avenida da cidade lhe conferia, o meu prédio e os seus vizinhos eram tão memoráveis quanto a Humanidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Elsa Alves</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>&#8220;O Prédio&#8221;, de Elsa Alves</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Forever Young]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 23 May 2020 11:00:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Escrivaninha]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Forever Young, em parceria com a Escrivaninha, apresenta agora semanalmente a todos os leitores um conto literário ou "short story" para inspirar e entreter.</p>
<p>Leia mais artigos em https://foreveryoung.sapo.pt</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>I</b></p>
<p>— Mamã, eu mato-te! — era a declaração exagerada e agressiva da Cátia.</p>
<p>Cátia nascera num «berço de ouro», mas agora, com trinta e poucos anos, zangava-se tempestivamente com a mãe e naquele dia ameaçava-a no terceiro andar do meu prédio. Narinas amplas e furiosas, a saliva borbulhando a chafurdar, depois gritos, o pérfido tratamento «Mamã!» e as queixas da mãe, em voz aguda, dirigidas ao céu: «Paizinho!».</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Depois da discussão entre ambas, a D. Amélia vinha ao nosso sexto andar contar o sucedido e, eventualmente, pedir algum favor. O meu pai fora durante alguns anos o presidente do condomínio do prédio, cargo que parecia tê-lo imbuído, mesmo findo esse período, de uma espécie de tácita responsabilidade para com os condóminos. E particularmente para com a D. Amélia, que sempre se insinuava amiga íntima da nossa família, assim como o seu cão, Boris, que entrava de rompante para as divisões mais recônditas da casa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A D. Amélia tinha modos de toupeira. Nos dias em que vinha ver-nos com o queixo inquisidor e ensaiados pretextos para companhia, espreitava indiscretamente para os compartimentos à vista, desde a porta de entrada de nossa casa. Mas, se íamos, por algum raro motivo, a casa dela, entrava rapidamente, fechando a porta atrás de si, num mesmo fluido movimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Adorava falar sobre as vidas alheias da cidade. Espalhava instantaneamente qualquer boato, admitindo-o perante os ingénuos confidentes, vaidosa: «E conta-me isso a mim? A mim, que conto tudo a todos?». Amiga e traidora solene já todos o sabiam, condenando-a, mas só assim gostando dela.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A indiscrição era bela na D. Amélia e dava-lhe um aspecto mais jovem. Querê-la recatada e comedida era querê-la moribunda. Uma vez perguntou à minha mãe se podia passar aquele e todos os serões, de todos os dias que se seguissem, em nossa casa — assim era a D. Amélia no pleno exercício da sua liberdade. A minha mãe respondeu: «Não, nem agora nem nunca» e que nos preparávamos precisamente naquele instante para ir jantar fora. A mentira era absolutamente necessária, porque tendo acedido ao pedido, ela espraiar-se-ia como um polvo, recostado no nosso sofá para sempre…</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Porém, não seria esta pequena contrariedade a desligar-nos dela. A D. Amélia tinha connosco uma ligação visceral. Lidávamos com uma vizinha peculiar, tão entediante quanto comovente — sobretudo quando a Cátia a expulsou de casa, descalça. Nesse dia, acolhemo-la: almoçou connosco e demos-lhe uns chinelos para aquecer os pezinhos peculiares, o culminar de um tornozelo portentoso e de linhas muito rectas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Preparava-se o meu pai para testemunhar contra a Cátia, quando o perdão e a condescendência impediram a D. Amélia de apresentar queixa da filha ingrata e feia: «Sempre fui mais bonita do que ela…» Nessa certeza residia, em parte, a desculpabilização pelos seus actos. De facto, em geral, a D. Amélia era especialmente benevolente para com a filha — chamava-lhe, pontualmente, «besta», mas continuava a mostrar, orgulhosa, a fotografia da pequena, de bochechas tenras e sobrolho, ainda, sereno.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Há relativamente pouco tempo tinha-me até pedido para lhe colocar como fundo de ecrã a foto da sua menina. Agora, porém, a expressão da Cátia tornara-se abjecta e um antro de irritações invadia-lhe as ventas, particularmente quando se irritava.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A vez em que, no prédio, os vizinhos do primeiro andar almoçaram no terraço ocasionou um desses furibundos discursos: «Estes parolos vêm denegrir a imagem do prédio com estas churrascadas. Este era um prédio de gente com classe. E cala-te mamã, que se não for eu mais ninguém zela pela classe, pelo bom nome deste prédio.» E batia com as mãos no peito, para que dele espoletassem as palavras da honra e do decoro.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Cátia adorava armar estrilho, provocar discussão e reclamar. Uma vez, estando por acaso perto de França, fez um desvio considerável da sua rota para reclamar aos laboratórios da marca <em>Caudalie</em>, por considerar que o seu frasco de creme não estava suficientemente recheado, havendo, segundo dizia, uma «absurda desproporção entre a embalagem e o conteúdo». A reclamação vingou e a Cátia recebeu um frasco de creme hidratante e <em>anti age</em> cheiinho até à tampa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>E como singrava sempre nas suas teimosias, o mesmo aconteceu quando pensara em casar. Ninguém que conhecesse a Cátia — com toda a sua antipatia e azedume, não sendo especialmente bonita — diria que ela se casaria. Contudo, o futuro ditou o contrário e um alemão chamado Richard hospedou toda a sua borbulhante essência.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Continua…)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Elsa Alves</p>
<p>&nbsp;</p>
<h6><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-35220 alignnone" src="https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/2020/04/Original-on-Transparent.png" alt="&quot;O Prédio&quot;, de Elsa Alves" width="256" height="47" title="&quot;O Prédio&quot;, de Elsa Alves" srcset="https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent.png 5000w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-960x176.png 960w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1920x353.png 1920w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-768x141.png 768w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1536x282.png 1536w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-2048x376.png 2048w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1200x220.png 1200w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-600x110.png 600w" sizes="auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px" /></h6>
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<h6><span style="color: #808080;"><em>(texto escrito de acordo com a antiga ortografia)</em></span></h6>
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		<title>&#8220;Miss Quiche&#8221;, de Marta Cruz</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Forever Young]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 May 2020 10:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Escrivaninha]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[marta cruz]]></category>
		<category><![CDATA[miss quiche]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Forever Young, em parceria com a Escrivaninha, apresenta agora semanalmente a todos os leitores um conto literário ou "short story" para inspirar e entreter.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje fizemos uma quiche. <em>Quiche</em> é uma palavra extremamente fina de ouvido. E fina de outras coisas também — que não é cá tripas ou rabo de boi, nem está para ser sequer feijoada, quanto mais chanfana.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Parece, assim, redondinha de anca, com um cabelão compridíssimo, mas apanhado na nuca com um lencinho <em>burburry</em>, uma palavra bonitinha que quer sempre estar montada em cima dos seus maravilhosos saltos agulha — a imagem de marca de uma moça de boas famílias que quer arranjar bom marido e estender a toalha ao sol nas praias da Comporta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quíííchee! — grita a mamã, muito desatinada porque a menina está deitada de corpo <em>danone</em> para o ar há já 20 minutos e ainda não se dignou a por um pinguinho de bronzeador, que assim não vamos a lado nenhum com esta história do ficar morena.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Quiche</em>… Bem, digam lá o que disserem, há-de ser sempre uma tarte, e pouco mais do que isso.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mas o certo é que, desde que Lisboa incutiu esta palavrita malandra no meu vocabulário — e que eu levei anos a assimilar –, toda a labrega experiência de comer uma fatia de tarte se transformou numa não melhor, mas mil e uma vezes mais esguia (e pretensiosa), experiência gastronómica de devorar, com pequenas dentadinhas controladas, uma requintada fatia de <em>quiche</em> digna dos melhores restaurantes.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Gente! É uma tarte feita à base de ovos. Quão sofisticada pode ser uma tarte, ou, melhor dizendo, uma torta, que no fundo é a tradução correcta para a palavra alemã <em>kuchen </em>— de onde, de facto, vem esta nossa <em>quiche </em>que, antes de ser nossa, foi francesa — razão pela qual até aceitamos a chiqueza deste prato.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pois bem, lá está a menina deitada na toalha de praia colorida, com o seu corpito moreno e imaculado, de seios firmes e empinados para o sol, deixando escorrer gotas de bronzeador e transpiração pelo decote, enquanto deixa cozer os ovos naquela frigideira respingada de areia. A mãe está na água e o sol arde com força, deixando a piedade para outro dia e fazendo do bronze um trabalho verdadeiramente duro e monótono que só alguns são capazes de aguentar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Cansada, a menina apoia-se nos antebraços agitando só ligeiramente os peitinhos muito rijos, fazendo subir o pescoço e rodando a cabecinha morena à procura da mãe. Há várias outras <em>quiches</em> pela praia, quase todas acompanhadas pelas suas mamãs, já não tão joviais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Bem vistas as coisas, todas parecem ter mais ou menos os mesmos ingredientes: têm ovos, algumas vegetais, outras carnes e queijo, e mais uns ovos para não faltar consistência ao pitéu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A chatice é quando falta sal. Ninguém gosta de gente desenxabida.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>Tring</em>! Entretanto, <em>habemus</em> <em>quiche</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Marta Cruz</p>
<p>&nbsp;</p>
<h6><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-35220 alignnone" src="https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/2020/04/Original-on-Transparent.png" alt="&quot;Miss Quiche&quot;, de Marta Cruz" width="256" height="47" title="&quot;Miss Quiche&quot;, de Marta Cruz" srcset="https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent.png 5000w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-960x176.png 960w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1920x353.png 1920w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-768x141.png 768w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1536x282.png 1536w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-2048x376.png 2048w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1200x220.png 1200w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-600x110.png 600w" sizes="auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px" /></h6>
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<h6><span style="color: #808080;"><em>(texto escrito de acordo com a antiga ortografia)</em></span></h6>
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		<title>&#8220;A sesta&#8221;, de Elsa Alves</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Forever Young]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 May 2020 11:00:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Lifestyle & Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[a sesta]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Tomou-os de assalto aquele sono. Nem as mãos de um mágico segurando, de súbito, um pomo branco igualariam a habilidade daquele sono que sorveu, repentinamente, pai, mãe e filho.<strong> </strong>Respiravam,  dormiam em uníssono. Parecia quase que fingiam para se tornarem dignos de descrição.</p>
<p>Três moscas que por ali voavam esperneavam pontualmente e comentavam o sono da família. Nunca antes haviam presenciado uma sesta tão peculiar que as distraísse da sua leviandade e do seu inerente sentido de fuga. As três ouviam a respiração dos três adormecidos que era uma só, pasmavam perante a expressão de abnegação dos três corpos despojados de gestos.</p>
<p>A janela da sala onde dormiam estava aberta, convidando uma aragem a espaçar os pêlos dos três narizinhos. O do pai era um nariz acabrunhado; o do filho, um nariz súbito, novíssimo. A mãe tinha um nariz retraído, de modos delicados — mas igualmente reles por dentro, e por vezes ressonando até.</p>
<p>Uma das moscas quis apreciar melhor e pousou junto às narinas da mãe. Espreitou. Considerou que o interior daquele nariz não condizia com a nobreza daquela mulher e daquela casa onde ela, hoje, esquecendo ser mosca, sonhadora, sentia-se um condor imperialista — estranhando amplamente essa sensação para a qual não havia espaço no seu corpo escasso.</p>
<p>As outras duas moscas começaram também a sentir-se maiores e mais capazes. Pararam de súbito nos rostos do pai e do filho, movidas pela curiosidade de melhor notar aquelas feições. E as três começaram, estáticas, a olhar com mais atenção do que até então, a família que dormia ainda. Estavam embevecidas, num êxtase que as tomava e se espraiava muito para lá delas.</p>
<p>Foi então que, num momento infeliz, escorregaram, sem quererem nem saberem, para o pensamento. A mosca maior sentiu-se pensando. Começavam as outras duas a estranhar também o que seria aquela voz que ressoava nas suas cabeças, ao mesmo tempo sendo e não sendo delas. Num momento solene, a mosca menor proferiu um juízo que muitos críticos aproveitariam para matéria de ensaio, seguindo-se um breve e reflexivo diálogo:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>— Pois se ser humano é ser-se assim&#8230; tão comovente e belo, à mercê de tudo, e ao mesmo tempo tão frágil, o que será ser mosca?</p>
<p>— Essa é uma boa questão, mas parece-me de resposta difícil.</p>
<p>— Pois eu não sei, sinto-me inchada e lateja-me a cabeça&#8230;</p>
<p>Observar a família suscitara uma horrível vontade de reflectir. No entanto, alguma coisa, mais cedo ou mais tarde, retiraria pai, mãe e filho, daquele belo e tolo estado de sonho, que as atraía para a observação e questionamento.  Seria só a força peremptória do acaso a acordá-los se não o tivessem feito as três moscas, que, voluntariamente, numa categórica vontade de não mais pensar, voejaram e picaram os três, fartas do silêncio e do seu novo perfil meditativo, com que a contemplação da sesta, naquele dia, as dotara.</p>
<p>A família acordou então, desfazendo-se o encanto e beleza daquele quadro que despertara nas três moscas um sentido estético e analítico tortuoso — que, felizmente, logo se esvaiu com o estalo seco do pai que espalmou as três juntas — repondo-se a ordem das coisas que durante a sesta, momentaneamente, se invertera.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Elsa Alves</p>
<p>&nbsp;</p>
<h6><img loading="lazy" decoding="async" class=" wp-image-35220 alignnone" src="https://foreveryoung.sapo.pt/dev/wp-content/uploads/Original-on-Transparent.png" alt="&quot;A sesta&quot;, de Elsa Alves" width="256" height="47" title="&quot;A sesta&quot;, de Elsa Alves" srcset="https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent.png 5000w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-960x176.png 960w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1920x353.png 1920w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-768x141.png 768w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1536x282.png 1536w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-2048x376.png 2048w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-1200x220.png 1200w, https://bunny-wp-pullzone-b8qgjsfixo.b-cdn.net/wp-content/uploads/Original-on-Transparent-600x110.png 600w" sizes="auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px" /></h6>
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<h6><span style="color: #808080;"><em>(texto escrito de acordo com a antiga ortografia)</em></span></h6>
<h6><span style="color: #808080;"><em>A Escrivaninha é uma equipa de <span class="italic">freelancers</span> que se dedicam à revisão, edição, tradução e produção de texto, criada por quem conhece e reconhece a beleza mas também os ardis da língua portuguesa. Conheça melhor os nossos serviços <a style="color: #808080;" href="https://www.escrivaninha.pt/" target="_blank" rel="noopener">aqui</a>.</em></span></h6>
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