Há uma lista de queixas que quase toda a gente aceita como parte de envelhecer. Cansaço que não passa com o descanso, pele seca, unhas frágeis, sentir frio quando ninguém mais sente, prisão de ventre, voz mais rouca, um aumento de peso que não se explica pela comida e uma lentidão a pensar e a falar que a família nota antes do próprio. É uma descrição plausível da idade. É também, quase palavra por palavra, o quadro do hipotiroidismo.
A tiroide é uma glândula pequena, à frente do pescoço, que produz as hormonas que regulam o ritmo a que o corpo funciona. Quando produz de menos, tudo abranda: o coração, o intestino, o metabolismo, a temperatura corporal, o raciocínio. O hipotiroidismo é a doença da tiroide mais frequente em pessoas com mais de 60 anos e a sua frequência continua a aumentar com a idade.
Porque escapa tanto tempo
O problema do diagnóstico não é a raridade da doença, é a lentidão com que se instala. Meses ou anos a piorar um pouco de cada vez, sem um dia em que se possa dizer que começou. Nada obriga a marcar consulta, porque nada mudou de repente. E quando finalmente se fala do assunto, a explicação que surge primeiro é sempre a idade, tanto na cabeça do doente como, por vezes, na consulta.
Há um segundo motivo, específico das pessoas mais velhas. Nos adultos jovens o hipotiroidismo dá um quadro mais completo e mais reconhecível. Nos mais velhos apresenta-se muitas vezes com menos sintomas, e por vezes só com um ou dois: apenas o cansaço, apenas a lentidão mental, apenas a obstipação. A apatia e as falhas de memória levam a família a pensar em demência ou em depressão, e por vezes trata-se de uma coisa que se resolve com um comprimido por dia.
Vale a pena saber que também existe o contrário. O hipertiroidismo, com a glândula a produzir em excesso, apresenta-se nesta idade de forma enganadora: em vez da agitação e do nervosismo clássicos, pode dar arritmia cardíaca, perda de peso e apatia. Está associado a fibrilhação auricular e é uma das causas tratáveis que convém excluir.
Uma análise resolve a dúvida
A confirmação é simples e barata: uma análise ao sangue que mede a TSH, a hormona que o cérebro produz para dar ordens à tiroide. Quando a tiroide trabalha pouco, a TSH sobe, e sobe antes de as hormonas da tiroide propriamente ditas saírem dos valores normais. Conforme o resultado, o médico pede também as hormonas T4 e, por vezes, anticorpos.
Há uma nuance importante e que evita tratamentos desnecessários: os valores de referência da TSH não são iguais em todas as idades. É normal a TSH ser mais alta em pessoas mais velhas, e uma subida ligeira não significa automaticamente que seja preciso medicar. A decisão de tratar pesa o valor da análise, os sintomas, a idade e a situação cardiovascular, e é por isso que se toma em consulta e não a partir de um número numa folha.
Quem se revê em vários dos sinais descritos tem motivo para pedir esta análise na próxima consulta de rotina, ou para marcar uma através do SNS 24. É das poucas causas de cansaço crónico que se identifica com uma picada no braço e se trata com um comprimido diário, tomado em jejum. Quando o hipotiroidismo é a explicação, a diferença ao fim de algumas semanas costuma ser notada primeiro por quem vive com a pessoa.











