Basta uma dança numa festa da escola, uma reacção invulgar num jogo ou uns segundos apanhados pelo telemóvel de outra pessoa: hoje, uma criança não precisa de querer ser famosa para se tornar viral. A tendência do momento chama-se aura farming, valoriza parecer descontraído e carismático diante da câmara, e os especialistas da Kaspersky alertam que um meme aparentemente inofensivo pode aumentar depressa a pegada digital de uma criança, com consequências que os adultos da família devem conhecer.
Da brincadeira à exposição
Em 2026, o fenómeno saltou das redes para os espaços públicos, com adolescentes a organizar “batalhas de aura” que reproduzem gestos e poses virais diante de multidões. Quando um vídeo começa a circular, quem nele aparece perde grande parte do controlo sobre o seu percurso, e desconhecidos podem tentar identificar a criança, cruzar nomes de utilizador entre plataformas e juntar dados como a escola, a localização ou as rotinas diárias.
A preocupação já se mede: segundo um Eurobarómetro de junho, 38% dos pais portugueses dizem-se preocupados com a exposição dos filhos a conteúdos nocivos e 57% defendem limites de idade ou restrições adicionais no acesso às plataformas.
Verificar o que já anda por aí
A recomendação da Kaspersky é começar por rever o que já está público: perfis antigos, contas esquecidas, comentários e fotografias com identificações também contam para a presença digital. Nomes de escolas, moradas, datas de nascimento e rotinas, combinados entre si, revelam mais do que parece e podem alimentar usurpação de identidade e outras fraudes. O exercício vale para toda a família: procurar o nome da criança num motor de busca, ver que fotografias e vídeos aparecem e eliminar das redes a informação pessoal que não precisa de estar pública.
Desconfiar dos convites simpáticos
Com a popularidade repentina chegam mensagens: propostas de colaboração, pedidos de mais vídeos, alegados representantes de marcas. Uma mensagem não é credível só porque o remetente sabe em que vídeo a criança apareceu, avisam os especialistas: quanto maior o público, menos se deve presumir que todos os contactos têm boas intenções.
Conversar em vez de castigar
Se um vídeo se espalhar, a pior reacção é o pânico ou o castigo: uma criança que receie ficar sem telemóvel deixa de contar o que se passa. A alternativa é aproveitar o momento para uma verificação de privacidade em conjunto, reforçar contas com passwords únicas e autenticação de dois factores e denunciar eventuais contas falsas na plataforma, sem confrontos. “As crianças vivem cada vez mais num ambiente digital onde a visibilidade pode ser acidental, global e quase instantânea”, resume Andrey Sidenko, responsável de literacia digital da Kaspersky.
Um recado também para os avós
Parte da pegada digital dos mais novos é construída pelos adultos que mais gostam deles. Antes de partilhar o vídeo do neto a dançar no grupo da família ou no mural aberto, vale a pena a pergunta de sempre: os pais autorizam, e a partilha é feita num espaço fechado? O vídeo mais querido da festa de anos, visto pelas pessoas erradas, é exactamente o tipo de conteúdo de que fala este alerta.










