Entrevista a Camané: “O fado é uma música para a vida”

Com 52 anos, Camané é um dos nomes incontornáveis do fado, com a particularidade de pertencer a uma geração que cresceu a ouvir rock e assistiu a um boom deste mesmo rock em Portugal.

Vem de uma família de fadistas: o seu bisavô já cantava o fado no início do século XX e é irmão de Pedro e Hélder Moutinho, também eles fadistas.
Acredita que o fado só se pode afirmar como tal quando é autêntico.

Cresceu nos anos 80, numa altura em que se assistia ao grande boom do rock português. Como é que um jovem começa a cantar fado num contexto do nascimento de dezenas de bandas rock?

Na verdade o fado esteve sempre presente na minha vida, e desde muito novo. O primeiro contacto ficou a dever-se ao meu bisavô, que cantava fado. Por acaso, e por sorte, há dias encontrei um colecionador que tinha um disco dele de 1925. Veja há quanto tempo o fado está na minha família. Eu comecei a ouvir fado com sete anos, porque os meus pais tinham muitos discos deste tipo de música em casa: Amália, Alfredo Marceneiro, Carlos do Carmo, Fernando Maurício, Maria Teresa Noronha, João Braga, todos os grandes fadistas.

E, ao princípio, o fado soava-me estranho. Numa ocasião em que fiquei doente e tive de estar em casa durante um mês, a minha principal distração foi a música. O problema é que só havia lá em casa três discos que não eram de fado: um dos Beatles, um do Frank Sinatra e um do Charles Aznavour. Do Sinatra tinha o “Strangers in the Night”, com o “My Way” no lado B; dos Beatles tinha o “Don’t Let Me Down”; do Charles Aznavour tinha o “Non, Je n’ai Rien Oublié”.

Tudo coisas que para uma criança de sete anos não seria o mais comum, mas eu adorava. Lembro-me de ouvir esses discos repetida e compulsivamente. Depois passei aos fados, porque não tinha mais discos para ouvir. Ao princípio aquilo pareceu-me muito estranho, mas fui ouvindo muitos fadistas da altura – o Rodrigo, a Lucília do Carmo, a Amália, o Alfredo Marceneiro… E comecei a perceber que conseguia cantar aquilo, e a adquirir aquela característica de canto, aquele ambiente natural que tem a ver com o fado.

Naturalmente. E isto foi uma coisa que foi crescendo comigo. Quando eu tinha cerca de 14 anos, todos os meus amigos tinham bandas de garagem. Eu cantava e eles observavam que, embora eu cantasse bem, parecia sempre que estava a cantar fado. A entoação não tinha a ver com pop ou rock. Ou seja, eu tinha uma forma de cantar diferente da que tinha a minha geração e ouvia discos de fado em casa às escondidas.

Com os meus amigos, ouvia rock e pop da altura, rock português e alguns clássicos como Doors, por exemplo. O fado era para ouvir em casa, baixinho, para ninguém perceber. Era considerado pela minha geração como uma música pirosa. E o preconceito era tão grande que eu tinha vergonha de dizer que gostava de fado.

A esta distância temporal consegue perceber por que razão existia esse preconceito?

Eu acho que estava relacionado com uma certa ignorância sobre este tipo de música e viu-se, realmente, que anos mais tarde as pessoas descobriram o fado. Naquela altura muitas pessoas associavam o fado ao antigo regime, mas eu não acho que fosse assim. Havia de tudo. O fado vivia num meio muito pobre.

As casas de fado, antes do 25 de abril, eram locais onde havia muitas dificuldades, salvo raras exceções. Mesmo assim, as pessoas construíam as suas vidas, cantavam, tinham filhos e esses filhos tiveram uma vida fantástica vindos desse meio. As casas de fado eram uma escola onde se ouvia e se cantava. Era lá que as pessoas desenvolviam o seu talento.

Eram locais frequentados por todo o tipo de gente e, não só mas também, por pessoas ligadas ao antigo regime. Mas o fado surgiu muito antes disso. Ainda nem havia Estado Novo quando o meu bisavô gravou o seu primeiro disco. Voltando à questão do preconceito, sempre existiram coisas boas e más no fado. Os melhores fados não se ouviam nas rádios.

Como nos anos 60, quando a Amália cantou todos aqueles poetas incríveis – o “Abandono”, por exemplo, do David Mourão Ferreira, que é sobre um preso político. E não foi só a Amália,o Alfredo Marceneiro também cantou poetas populares nos anos 40 e 50. Nada disso passava na rádio. Passavam as “cantiguinhas”, aquelas coisas mais “brejeiras”.

E a verdade é que ainda hoje é um pouco assim. O fado tem uma parte com muita qualidade e foi essa que me fez querer ficar lá. Naquela altura eu podia ter optado, podia ter feito o que quisesse. Podia ter apanhado o comboio do rock, por exemplo. Mas quis continuar com o fado.

As pessoas interrogavam-me por que é que eu queria cantar aquele tipo de canção, sendo o fado uma música tão “má”. E eu respondia com outra pergunta: “Mas será que já ouviu tudo? Já ouviu fado a sério?” Sempre achei que o fado tradicional tem uma grande personalidade melódica. São músicas muito simples, mas que conseguem transmitir-nos um registo emocional sem a letra.

Isto é uma coisa que só acontece na música clássica, no blues, no jazz… O fado tem essa dimensão. Aos poucos fui percebendo isso, e numa fase da minha vida achei que tinha de defender esta música, provar que as pessoas estavam erradas. Este boom a que assistimos hoje de fado é recente e não existia, nem de longe, naquela altura. Eu sou um dos que tiveram de remar contra a maré. Antes dos anos 2000, as pessoas que cantavam fado eram a Mísia, o Paulo Bragança, o José da Câmara… Eram estes os mais novos, que estavam a tentar chegar às pessoas, o que era muito difícil.

Foi sempre bem acolhido no meio das casas de fado? As pessoas gostavam de o ouvir?

Eu comecei a cantar nas casas de fado com 17 anos. Foi um período fantástico porque apanhei uma geração genial nessas mesmas casas. Os antigos ensinavam-nos tudo. Eu fui cantar aos fins de semana num restaurante que ficava na Cruz Quebrada e estavam lá a tocar o Martinho da Assunção e o António Bessa.

Cheguei a cantar numa casa de fado acompanhado à guitarra pela Carvalhinho, um dos melhores guitarristas de sempre. Foi um percurso engraçado, porque eu ainda não tinha sequer um disco, mas o fado é mesmo assim. É uma coisa para ir crescendo e acho que o primeiro disco surgiu na altura certa.

Como surgiu a oportunidade de gravar o primeiro álbum?

Eu estava a cantar numa casa de fados quando fui convidado pelo Filipe La Féria para participar num daqueles espetáculos que passavam na televisão – a “Grande Noite”. Houve uma série de pessoas que começaram a ouvir-me nessa altura, e a Amália, quando foi assistir a uma peça de teatro onde eu participei, convidou-me para estar com ela numa passagem de modelos.

Foi nessa altura que ela ligou para o David Ferreira, que era o administrador da EMI, e passado dois dias fui convidado para gravar o primeiro disco. Isto aconteceu em 1993.

Tem feito muitos espetáculos fora do País. Como é que o fado é sentido nesses países?

A música, completamente ou quase, ultrapassa a barreira da língua. As pessoas vão com uma grande curiosidade e acabam por fazer uma descoberta. Há pouco tempo toquei numa sala em Taiwan, onde só estava um português. Ainda assim, no final do concerto, estive duas horas a dar autógrafos e a tirar selfies.

Isto já tinha acontecido em vários pontos: Norte da Europa, Escandinávia, Estados Unidos, França, Bélgica, Holanda… E a experiência que tenho tido ao longo dos anos tem sido cada vez melhor. Recentemente ganhei o Prémio Tenco, de Itália, e eles também não percebem o que eu estou a cantar.

Temos muitos novos artistas que têm criado variantes de fado, com diferentes sonoridades e até letras que parecem enquadrar-se menos no fado do que num estilo pop. Numa tentativa de atualizar o fado, podemos estar a descaracterizá-lo?

Há de tudo. O fado tornou-se uma coisa da moda, e por isso há uma vontade enorme de tentar chegar ao grande público de uma forma muito rápida. Isso faz com que por vezes se cometam alguns erros. O erro que mais me desagrada é a tentativa de aligeirar o fado, quando se fazem aquelas “cantiguinhas” fáceis. O fado não é uma música fácil.

É a mesma coisa que tentar aligeirar o blues, que tem uma característica e uma identidade próprias. O fado também. É por isso que não basta dizer-se que se é fadista. Tem que se ser. Tudo o que pode evoluir do fado, e muito bem, é de dentro para fora.

A evolução passa por muitas coisas. Uma delas é tentar cantar o fado com a austeridade que ele tem. A outra é cantar o fado tradicional. A linguagem também é importante. Há coisas que são intemporais, mas há outras que fazem parte do nosso tempo e do nosso quotidiano, e é importante que isso esteja presente no que se canta. A ideia é que, ao ouvir o fado, se consiga identificá-lo como tal.

As canções definem-se muito pelo ritmo, pelo tempo da música. Isto tem a ver com uma característica que existe no canto, na forma de tocar, no ambiente que se cria. Tudo aquilo é fado. Outras coisas não são. Não é que esta questão me assuste. Há pessoas a fazerem bons trabalhos baseados no fado, a cantarem muito bem com essa influência.

Mas não é fado. E isto nem é mau, simplesmente são coisas diferentes. Esses trabalhos são bons. O que me afeta mais são coisas “brejeiras”, a tentar aligeirar o fado com o objetivo de pôr as pessoas a cantar. O fado não é para isso. O que serve para pôr as pessoas a cantar é a música popular e o folclore. Não gosto quando o fado é aligeirado desta forma.

Disse numa entrevista ao “Expresso” que «nos homens, o fado envelhece melhor». O que é que isto quer dizer?

Não era bem isso o que eu queria dizer. Da experiência que eu tenho, os homens do fado cantaram até muito mais tarde. Também há mulheres que cantaram até muito tarde, como a Amália e até a Celeste Rodrigues. Mas acho principalmente que os homens, a cantar fado, têm uma maior preocupação com o texto do que com a voz.

O sentido da palavra ganha mais importância. Lembro-me que as fadistas mais antigas tinham uma preocupação de manter a voz ao longo do tempo, como se continuassem a ter vinte anos. Nem sempre isso é possível. Nos homens, a rouquidão e a diferença de voz não tinham tanta importância, e às vezes até se ganhava com isso. Estou a lembrar-me do Carlos do Carmo, do Fernando Maurício, do Alfredo Marceneiro, do Carlos Ramos, do João Braga, do João Ferreira Rosa… O Manuel de Almeida, por exemplo, quase falava a cantar.

Mas também conheço muitas mulheres que cantaram até tarde. Essa declaração foi uma forma de dizer que é mais fácil para os homens, mas isso não quer dizer que seja melhor. É mais fácil porque o homem fadista vive mais da performance do que da voz. Por acaso, depois de dizer essa frase, fiquei a pensar que é um pouco injusto colocar as coisas assim, porque, mesmo noutros géneros de música, tivemos uma Nina Simone a cantar genialmente com 70 anos, por exemplo.

Há milhares de cantoras que envelheceram bem a cantar no fado e em muitos outros géneros. Simplesmente é mais fácil para os homens manterem a sua forma de cantar ao longo do tempo. Para as mulheres é mais difícil, mas muitas conseguem-no.

O seu último álbum foi feito de fados do Alfredo Marceneiro. Por que é que teve a ideia de pegar num clássico como este?

Há muito tempo que eu canto Marceneiro, mas não com estas letras. Cantei com letras novas, como todos os fadistas fazem. A Amália, por exemplo, cantava “Estranha Forma de Vida” e o Marceneiro cantava aquilo com outra letra.

Todos os fadistas cantam fados que já existem, com letras diferentes. E todos os fadistas foram adaptando as novas linguagens e histórias a músicas já feitas. O Marceneiro, por exemplo, chegou a cantar várias letras para o mesmo fado. Eu próprio cantei o “Fado Cravo” com letras diferentes ao longo do tempo.

Há uma base musical onde se cria uma nova interpretação, e, através do registo emocional da história que se está a cantar e do ambiente que se cria, a música ganha uma dimensão diferente. Sempre foi assim, continua a ser com os fadistas atuais, e será com os futuros. Ou seja, o que fiz de diferente neste álbum foi cantar Marceneiro com as letras que ele cantava.

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