Ler para Crer: pequenos passos em volta de Herberto Helder

A sugestão literária semanal da equipa Escrivaninha, na nova rubrica “Ler para Crer”.

O meu talento seria o máximo talento do homem e devia reter, apenas pela sua força silenciosa, essa pessoa defronte da porta, a poucos metros, à distância de um simples movimento caloroso.

Não podia ser mais verdade esta forma como nos deparamos com um talento (quase) «inconcebível» de Herberto Helder, não fosse ele um experimentalista de palavras e sentimentos que nos deixa quase sempre um pouco acabrunhados com aquilo que nele lemos e com o que pensamos a respeito dessas nossas leituras. Foi muito bem escolhido o texto cuja parcela vem sentada na contra-capa desta edição hardback cover da Porto Editora. De facto, é talvez mesmo a partir de «Os comboios que vão dar a Antuérpia» que começa a ser mais fácil rendermos as nossas intimidades escabrosas ao movimento negativo da linguagem de Herberto Helder.

 

Falo por mim, claro. Este não é um livro fácil de ler, nem muito menos fácil de entender. E como com todos os livros que me provocam este tipo de sintomas, devo admitir que fico verdadeiramente incomodada com o que nele se lê sobre a nossa ignorância, ou com a psicose com que alguém tão humano quanto nós é capaz de escrever, mesmo sabendo que poucos o compreenderiam. Eu – tal como avisa o autor (ou o seu sujeito poético – nem me atrevo a entrar por aí) –, fiquei ‘trancada à porta’ do seu estilo, a poucos metros de entrar. Mas não entrar podia ter sido um verdadeiro desperdício, se não me tivesse lembrado que só se entra onde quer que seja se, primeiro, estivermos um bocado do lado de fora a tentar imaginar como somos vistos por quem vive do lado de dentro.

 

Fui avançando, com mais ou menos vagar, e com mais ou menos estranheza fui derretendo o sentido de palavras que, embora conhecesse, não sonhava que se pudessem usar assim. Demorei-me nos primeiros textos, talvez um pouco desiludida com as minhas expectativas – e mesmo sendo verdade que o autor nunca me prometera nada a mim nem, provavelmente, a mais ninguém. Depois dei de caras com «Os comboios», onde comecei, finalmente, a pensar que talvez percebesse um pouco do que ali se passava, e só a partir de «Lugar lugares» mergulhei de cabeça no livro – e na montanha-russa de emoções que ele me provocou.

 

Seguiram-se coisas fundamentalmente esquisitas – como «Cães, marinheiros» –, coisas intensamente furiosas – como «Como se vai para Singapura» – e coisas desagradavelmente autobiográficas – como «Doenças de pele» –, nas quais finalmente dei de caras comigo própria, com aqueles medos que não sabia que tinha, e com aquelas convicções, afinal bem pouco convictas, que me fizeram começar a «esconder a carne contaminada e a aproximar-me mais das pessoas».

Pois é, quem diria que a prosa poética podia falar tão directamente às pessoas. Afinal, Os Passos em Volta era um livro escrito para mim, ou para qualquer outra pessoa que lhe desse uma chance menos segura de si mesma como eu dei.

 

«Duas pessoas» veio, por fim, lembrar-me que cada um lerá esse e os restantes textos deste conjunto por um prisma totalmente distinto, o que não é mais do que a razão pela qual lemos e, claro, um comentário estupidamente acertado… E foi talvez por isso mesmo que a carapuça me serviu tão bem: porque «uma parte de mim mesma resist(iu), a parte mais clara e isenta, a mais implacável, mas também porventura a mais justa». E, no final das contas, compreendi: um livro de que não se gostou assim tanto pode gostar de nós bem mais do que nós gostaríamos.

 

Os Passos em Volta
Herberto Helder
Porto Editora
12.ª edição (1.ª na Porto Editora), 2015
Porto

 

 

Marta Cruz

 

(texto escrito de acordo com a antiga ortografia)
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