Portugal tem, há anos, um dos consumos mais elevados de ansiolíticos e hipnóticos da Europa, e uma parte significativa desse consumo é crónico e ocorre em pessoas com mais de 65 anos.
Quase sempre começa da mesma forma: uma fase difícil, um luto, uma doença, umas semanas sem dormir. E depois fica.
O que estes medicamentos fazem
Reduzem a ansiedade e induzem o sono, com eficácia real a curto prazo. O problema é que, ao fim de algumas semanas, o corpo habitua-se: a mesma dose faz menos efeito, e a tentação é aumentar.
Os efeitos que se confundem com a idade
É o ponto central. Nas pessoas mais velhas, estes fármacos associam-se a sonolência diurna, lentidão, dificuldades de memória e de concentração, confusão e, muito importante, quedas e fracturas.
Muitos esquecimentos atribuídos à idade e muitas quedas atribuídas ao azar têm aqui a sua origem, e melhoram quando a medicação é reduzida.
O risco aumenta quando se associam a álcool, a analgésicos opioides ou a outros medicamentos sedativos.
Não parar de repente
Esta é a mensagem mais importante. A suspensão abrupta, sobretudo depois de uso prolongado, provoca sintomas de privação: ansiedade intensa, insónia de rebote, tremores e, em casos raros, convulsões.
A redução faz-se de forma gradual, com um plano definido pelo médico, em semanas ou meses, por vezes com mudança prévia para outro fármaco de semivida mais longa.
O que resulta para dormir sem comprimidos
Horários regulares de deitar e levantar, incluindo aos fins-de-semana. Quarto escuro, fresco e sem televisão. Reduzir sestas longas. Evitar café depois do meio-dia e álcool à noite, que fragmenta o sono. Exercício durante o dia, nunca nas últimas horas.
E, se não adormecer em vinte minutos, levantar-se, ir para outra divisão com luz fraca e voltar só com sono. É a base da terapia cognitivo-comportamental para a insónia, que tem hoje mais evidência do que qualquer comprimido para o sono crónico.
Quando a medicação faz sentido
Em situações agudas e por períodos curtos, com prazo definido à partida. Em algumas doenças específicas, com indicação própria. O problema não é o medicamento, é o uso prolongado sem revisão.
A conversa a ter
Peça uma revisão da medicação ao médico de família e leve todas as embalagens. Pergunte concretamente: ainda preciso disto, e como se reduz? É uma conversa que muita gente adia há dez anos e que costuma melhorar o dia seguinte mais do que qualquer comprimido novo.
Não misturar com álcool
A associação de calmantes ou de comprimidos para dormir com álcool multiplica o efeito sedativo e é uma das causas mais frequentes de quedas nocturnas e de confusão em pessoas mais velhas. Não há dose segura para essa combinação.
Alternativas que o médico pode propor
Em ansiedade persistente, os antidepressivos são frequentemente preferidos às benzodiazepinas para uso prolongado, por não criarem dependência. Para o sono, há fármacos com perfil mais adequado a pessoas mais velhas e, sobretudo, a intervenção comportamental, que tem efeito duradouro.
A conversa com o médico deve incluir um plano de desmame com datas, e não apenas a renovação automática da receita.











