Chegaram de Belém, de São Bento, dos partidos todos e do meio musical, e chegaram quase ao mesmo tempo. A morte de Jorge Palma, na noite de segunda-feira, aos 76 anos, provocou uma dessas raras unanimidades portuguesas em que ninguém sente necessidade de discordar de ninguém.
E houve uma coisa curiosa nas mensagens: quase todas usaram títulos e versos dele para dizer o que tinham a dizer. É provavelmente a maior homenagem que se pode fazer a um autor.
O Presidente da República
António José Seguro reagiu numa nota publicada no site da Presidência, em que chamou a Jorge Palma um dos grandes poetas da nossa música e sublinhou que as canções dele marcaram a vida portuguesa durante décadas.
O chefe de Estado falou de um lirismo imprevisível e nunca de efeito fácil, e descreveu-o como herdeiro de tradições musicais e literárias diversas, por vezes improváveis.
A parte da mensagem mais citada ao longo do dia foi aquela em que Seguro diz que, de certa maneira, todos habitámos o seu bairro do amor, todos nos rimos com os seus versos e todos nos sentimos frágeis. Estão ali, pelo meio, três canções.
O Governo
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, escreveu na rede social X uma frase curta que muita gente repetiu durante a manhã: Jorge Palma parte, mas a sua música fica.
Acrescentou que fica nas palavras, nas melodias e na memória de várias gerações, e deixou condolências à família em nome do Governo.
A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, falou à Antena 1 e disse que várias das músicas fazem parte da identidade nacional e da memória colectiva do país, descrevendo-o como um autor absolutamente extraordinário.
De vários lados da política
Paulo Rangel escreveu que, com a morte do músico, ficam a voz, os poemas e o carisma, e classificou o dia como muito triste para a música portuguesa.
Abriu a mensagem com um verso dele, sobre inventar o que não se viveu, e fechou-a com a ideia de que o que Jorge Palma já não vai viver será agora inventado por quem fica. Foi das reacções mais comentadas do dia.
José Luís Carneiro, secretário-geral do PS, chamou-lhe um homem livre, de criatividade singular e autenticidade rara, e disse que ele fez da música também uma forma de celebrar a liberdade.
Terminou com quatro palavras que hoje andam por todo o lado: a gente vai continuar.
O meio musical
Do lado dos músicos, a reacção que mais circulou foi a de Samuel Úria, que disse à Antena 1 que a notícia o apanhou como um aríete no peito e confessou, com algum embaraço, que ainda tinha muitos planos para Jorge Palma.
Alguns desses planos eram musicais, explicou, mas outros eram simplesmente planos para continuar a ouvi-lo.
Deixou também a descrição que melhor resume a estranheza do percurso: um homem com mãos olímpicas para as coisas mais eruditas e, ao mesmo tempo, com simplicidade para fazer o melhor folk que o país já escutou.
A frase que toda a gente encontrou
Há um pormenor que diz muito sobre o lugar que Jorge Palma ocupa. Ao longo do dia, de quadrantes opostos, repetiu-se o mesmo verso, sem combinação nenhuma.
A gente vai continuar não é uma frase de circunstância. É o título de uma canção que toda a gente conhece, e que hoje serviu simultaneamente de despedida, de consolação e de promessa.
Poucos autores portugueses deixam ao país uma frase pronta para o dia em que morrem.
O reconhecimento que já lhe tinha sido feito
Ao contrário do que acontece com tanta gente, Jorge Palma não morreu à espera de ser reconhecido.
Recebeu o Prémio José Afonso em 2002 e, em 2012, a primeira edição do Prémio Pedro Osório, da Sociedade Portuguesa de Autores. Em 2020 foi distinguido com a medalha de mérito cultural da Câmara Municipal de Lisboa e condecorado como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
E em Abril deste ano, cinco meses antes de morrer, recebeu o Prémio Carreira dos Prémios da Música Portuguesa.
O que se ouve hoje
As rádios portuguesas passaram a manhã a tocá-lo, e as plataformas de música encheram-se de listas feitas à pressa por gente que precisava de o ouvir.
É o funeral que faz sentido para um homem que passou cinquenta anos a pôr canções na cabeça dos outros: durante um dia inteiro, o país inteiro a ouvir a mesma coisa.










