Síndrome do Pânico: «Compreensão e tratamento adequado da perturbação são essenciais para mitigar os impactos negativos», Alberto Lopes, neuropsicólogo e hipnoterapeuta

Artigo de opinião de Alberto Lopes, neuropsicólogo e hipnoterapeuta

O que é e como acontece um ataque de pânico?

Alberto Lopes, neuropsicólogo e hipnoterapeuta

Tudo acontece numa fração de segundos: de repente, o coração dispara, como se quisesse saltar do peito. O ar parece desaparecer, deixando-nos ofegantes e desesperados. Uma palidez assombra o rosto, enquanto as palpitações e o suor frio começam a escorrer. A sensação de desespero é avassaladora, acompanhada pela aterradora certeza de que a morte está iminente. Este estado de perda de controlo pode durar alguns minutos ou até meia hora, mas para quem vive um episódio de pânico, cada segundo é uma eternidade de terror, muitas vezes culminando numa corrida ao serviço de urgência do hospital mais próximo.

De acordo com o DSM V (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, APA), um ataque de pânico é definido como um período breve de intenso medo ou mal-estar, acompanhado por pelo menos quatro sintomas somáticos ou cognitivos. Estes sintomas podem incluir taquicardia, palpitações, tremores, dispneia, sudorese, sensação de morte iminente, medo de morrer ou de perder o controlo, entre outros.

Quando os ataques de pânico ocorrem repetidamente e sem causa aparente, estamos perante a chamada Síndrome do Pânico, uma condição psicológica que se estima, afeta cerca 3,5% da população portuguesa e entre 2-3% dos cidadãos europeus

Quais as causas mais comuns que levam à Perturbação de pânico?

Segundo a literatura, existem vários fatores que levam a desenvolver esta condição psicológica, entre eles estão fatores sociais, cognitivos e genéticos. Atente-se que para quem sofre desta síndrome limitante, as causas podem ser imaginárias, mas os sintomas são bem reais, e muitas vezes incapacitam as pessoas de terem uma vida normal. Pesquisas recentes concluem que esta perturbação desenvolve-se devido a uma desregulação da serotonina no cérebro, que, de alguma forma, influencia o metabolismo da lactose, levando o cérebro a interpretar erroneamente um aumento nos níveis de dióxido de carbono no sangue.

Pense nisto, é como se, de repente, o cérebro interpretasse que a pessoa está a ser sufocada, ativando um mecanismo de alertar e preservação da vida. De repente, a pessoa sente os efeitos de uma descarga de adrenalina na corrente sanguínea, e o corpo começa a funcionar a todo o vapor e o sistema de alerta dispara e o instinto de lutar ou fugir é acionado.

Quais as pessoas mais afetadas por esta perturbação?

Esta condição ocorre principalmente em adultos jovens, na faixa etária entre 20 e 45 anos, afetando ambos os sexos, mas com uma predominância significativa no sexo feminino, numa proporção de 3 para 1. Cerca de 70% dos casos da síndrome manifestam-se em mulheres, especialmente jovens entre os 15 e 25 anos.

A perturbação de pânico frequentemente surge na adolescência ou no início da vida adulta, uma fase crucial para o desenvolvimento profissional e social. É raro que a condição comece após os 50 anos. Quanto mais cedo a doença se manifesta, maiores são as implicações sociofamiliares e económicas, as comorbilidades associadas e o grau de cronicidade.

Como podemos mitigar os efeitos da perturbação de pânico?

A compreensão e o tratamento adequado da perturbação de pânico são essenciais para mitigar os impactos negativos desta condição na vida dos indivíduos afetados e na sociedade como um todo.

Contudo, o mais difícil para o doente compreender é que todos aqueles sintomas são, na verdade, resultado de um erro de interpretação cognitivo. O corpo todo se prepara para um risco que, na verdade, não existe, mas quando o sistema de alerta e de preservação de vida é acionado o corpo todo se preparar para: lutar, fugir e, em última análise, paralisar.

Esta condição psicológica tem tratamento?

Sim, claro! A síndrome de Perturbação de Ataques de Pânico tem tratamento eficaz, com altos índices de cura, especialmente através da hipnose e da terapia cognitivo-comportamental (TCC).

Acredita-se que o uso da hipnoterapia é a abordagem mais eficaz e com inúmeras vantagens comparativamente a outras abordagens. A hipnose oferece vantagens como menor dependência de medicamentos, maior autonomia para o paciente, e um tratamento direcionado que pode acelerar o processo de cura. As principais vantagens, são:

1. Menos Dependência de Medicamentos: Ao contrário dos psicofármacos, que podem ter efeitos secundários e causar dependência, a hipnose não possui efeitos colaterais químicos.

2. Autonomia do Paciente: A hipnose capacita o paciente, fornecendo-lhe ferramentas para autoregulação e gestão dos seus sintomas.

3. Tratamento Direcionado: Enquanto a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) pode exigir várias sessões para identificar e reestruturar crenças disfuncionais, a hipnose pode acelerar este processo, acedendo diretamente ao subconsciente.

4. Flexibilidade Terapêutica: A hipnose pode ser integrada em outras abordagens terapêuticas, complementando e potenciando os seus efeitos.

Ou seja, para além de ser uma técnica natural e inócua, utilizamos técnicas de hipnose para ajudar os pacientes a reprocessar memórias traumáticas, permitindo que liberem o medo associado e compreendam as causas profundas dos seus ataques de pânico.

Porque a necessidade de Dia Internacional do Pânico, que acontece dia 18 julho? 

Ao contrário do que possam pensar, o Dia Internacional do Pânico não é um convite para perder a cabeça, mas sim uma oportunidade para compreender melhor a síndrome do pânico e encontrar formas de lidar com esta condição que tira muita qualidade de vida às pessoas. O pânico pode surgir silenciosamente no quotidiano, com causas que, embora imaginárias, resultam em sintomas muito reais que frequentemente incapacitam as pessoas de levarem uma vida normal.

A perturbação de pânico tem fortes implicações sociofamiliares e económicas, retirando qualidade de vida às suas vítimas. Além disso, as comorbilidades associadas e o grau de cronicidade limitam significativamente a vida das pessoas. Se os sintomas não forem ultrapassados, geralmente ocorrem duas coisas:

Primeiro, a pessoa desenvolve comportamentos evitativos, levando-a a um isolamento progressivo. Isto acontece porque ela deixa de acreditar que possui recursos para lidar com essa perturbação limitante. Assim, isola-se gradualmente e só sai à rua acompanhada por alguém que possa socorrê-la, aquilo que em psicologia chamamos “figura contrafóbica”.

Segundo, há uma hipervalorização dos sintomas. A pessoa torna-se hipervigilante aos sinais do corpo, interpretando qualquer mudança, especialmente nas alterações na respiração, como um gatilho para um ataque de pânico. Paradoxalmente, a pessoa não corre nenhum risco real, já que um ataque de pânico é, em última análise, um alarme falso e um erro de interpretação cognitiva do sistema nervoso.

Existem diferenças entre uma crise de ansiedade e Síndrome do Pânico?

A ansiedade e a síndrome do pânico, embora relacionadas, diferem na intensidade e na imprevisibilidade dos sintomas. A ansiedade tem causas mais concretas e lógicas, como enfrentar um desafio ou uma situação delicada, por exemplo, como um exame ou uma apresentação. A síndrome do pânico caracteriza-se por episódios de intenso medo que ocorrem de forma súbita e sem uma causa aparente, isto é, não existe hora nem motivo para ocorrerem.

Conclusão

Compreender e tratar a síndrome do pânico é essencial para mitigar os seus impactos negativos na vida dos indivíduos e na sociedade como um todo. É importante reconhecer que sentir medo é uma resposta natural do organismo a situações de perigo. No entanto, quando este medo se torna desproporcional e irracional, transformando-se em pânico (medo patológico), é crucial procurar ajuda. Através da terapia adequada e de um suporte contínuo, é possível recuperar a serenidade e retomar uma vida plena e saudável.

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