Há uma pergunta que circula cada vez mais nas conversas sobre skincare: será que os ecrãs, nomeadamente o telemóvel, o computador ou o tablet estão a envelhecer a pele? A indústria cosmética respondeu com uma vaga de protetores solares com ‘filtro de luz azul’. A ciência tem uma resposta diferente, mais honesta e mais útil.
O que diz a dermatologia
A dermatologista Iolanda Pereira foi directa à revista Máxima em julho de 2025: “A luz azul dos telemóveis não envelhece da mesma forma que a exposição solar.” Esta afirmação resume o estado actual do conhecimento médico sobre o tema: o efeito existe, mas a comparação com o sol não tem proporcionalidade.
A exposição solar — raios UVA e UVB — continua a ser responsável por até 80% dos sinais visíveis de envelhecimento cutâneo. É o principal factor de foto-envelhecimento extrínseco. A luz azul dos ecrãs fica muito aquém desta escala.
O que é o ‘fotoenvelhecimento digital’ e o que não é
O conceito de fotoenvelhecimento digital tem base científica. A luz azul pertence ao espectro visível de alta energia (HEV) e pode penetrar mais fundo na pele do que a luz UV. Pode causar stress oxidativo nas células da pele, o que contribui para a degradação de colagénio e elastina — responsáveis pela firmeza e elasticidade. E perturba o ritmo circadiano e a produção de melatonina, o que afecta o sono e, indirectamente, a regeneração cutânea nocturna.
O problema não é que estes efeitos sejam inventados. É que a intensidade da luz de um ecrã é incomparavelmente inferior à intensidade da luz solar. A distância a que se usa o telemóvel e o número de horas de exposição não se traduz num risco de envelhecimento comparável ao de uma manhã na praia sem protecção.
O que a evidência diz sobre os protetores com filtro de luz azul
A Veja Saúde analisou em dezembro de 2025 os dilemas do protetor solar, incluindo as alegações de produtos com filtro de luz azul. A conclusão foi que a evidência para dano cutâneo significativo por luz azul de ecrãs ainda é limitada — e que o protetor solar convencional continua a ser a prioridade para qualquer pessoa preocupada com o envelhecimento da pele.
A MAGG publicou em agosto de 2025 uma entrevista com uma especialista sobre fotoproteção em que a questão dos protetores com filtro de luz azul foi abordada: alguns dermatologistas consideram-nos desnecessários para a maioria das pessoas com uso normal de ecrãs.
Em conclusão, a luz azul dos ecrãs é um problema real, mas pequeno. Muito menor do que o sol, muito menor do que o tabaco, muito menor do que dormir mal de forma crónica. O marketing cosmético transformou uma preocupação científica legítima mas menor numa categoria de produto que não é necessária para a maioria das pessoas.
Se quer proteger a pele do envelhecimento: use protetor solar todos os dias, durma bem, não fume, mantenha-se hidratado. A luz azul do telemóvel é o último dos seus problemas dermatológicos.











