“A Lagarta de Pedra” (II), de Marta Cruz

A Forever Young, em parceria com a Escrivaninha, apresenta agora semanalmente a todos os leitores um conto literário ou “short story” para inspirar e entreter.

(Ler Parte 1)

 

Eram 11h30 quando começámos a nossa caminhada em direção à muralha e 12h quando chegámos ao topo. Jinshanling é uma das várias zonas visitáveis da Grande Muralha da China, já na província de Hebei e a cerca de 125 quilómetros e a mais ou menos duas horas do centro de Pequim. Ir à muralha é algo imperdível e provavelmente difícil de repetir a não ser que se viva por estes lados do mundo. E tomando isso como um dado adquirido, nós resolvemos seguir a sugestão de uma das nossas mais recentes amizades e escolher uma visita guiada que fugisse a Badaling, a zona restaurada da muralha mais próxima de Pequim e, por isso, a mais turística.

 

Dir-me-ão os cépticos que não parece possível (só porque, tanto quanto sei, é isso que os cépticos tendem a dizer sobre as coisas), mas a verdade é que o nosso grupo (reduzido a mais ou menos 12 pessoas neste ponto) era o único nesta zona da muralha e, acredite-se ou não, cruzou-se com apenas umas seis outras pessoas durante as três horas de percurso. Ao longo das dezenas de quilómetros de muralha que podíamos ver a olho nu — num dia totalmente limpo — não avistámos mais ninguém. Apenas muralha e montanhas, ambas beijadas de branco por uma camada ainda considerável de neve.

 

É uma visão difícil de esquecer.

 

Um silêncio brutal e um frio que se tornou incapacitante quando tentámos imaginar as condições em que ali viviam os soldados do império. Neve e incontáveis quilómetros de uma estrutura defensiva com 2500 anos, que levou mais de uma dinastia a ser construída, sacrificando milhares de agricultores, soldados e presos, 70% dos quais nunca regressou a casa.

 

Pequenas cozinhas no primeiro andar de cada torreão, a imagem de soldados deitados ao frio da noite no telhado e um vastíssimo terreno Mongol — o atual deserto de Gobi — que, em tempos, representou 1/3 do território da China e uma constante ameaça para este país que se veio a tornar a enorme potência que, hoje, só por um vírus se deixa abalar.

 

Caminhámos por uma zona não restaurada da muralha com cautela e — por mim falo — com um certo receio de escorregar… Entre a instabilidade da neve, tijolos de pedra fora do lugar e armadilhas pensadas para evitar uma invasão, o percurso foi cuidadoso e — penso que aqui poderia falar por todos — maioritariamente alimentado pela paisagem avassaladora que nos rodeava. Quem ali nos visse, talvez só do céu, como 12 formiguinhas perdidas naquela majestosa lagarta de pedra, achar-nos-ia os seres mais insignificantes do mundo. E éramos.

 

Enfeitiçados, fomos avançando, fazendo as coisas normais de quem calça as botas ao fim-de-semana e escolhe fazer um trilho pelos solos que as nossas terras nos oferecem. Tiramos umas bolachas da mochila, reapertamos os sapatos, bebemos água e falámos de coisas triviais. Mas não estamos em casa, nem sequer num local que a faça lembrar. Guardamos os amendoins e voltamos à realidade: a muralha, e quem a construiu, merecem mais do que as migalhas que os turistas ali deixam.

 

13h30 e a viagem torna-se mais fácil porque também a muralha se torna mais plana. Há 30 anos também parte desta zona foi restaurada para que o turismo aqui pudesse singrar. O senhor sexagenário belga está bem disposto, o filho nunca se preocupou (demasiado) com ele, o escocês continua a tirar o juízo ao guia porque insiste em deixar-se ficar para trás para tirar fotografias e o rapaz chinês parece ter sido resgatado por um qualquer milagre que o salvou de terminar o vertiginoso percurso.

 

A fome é muita, mas não há estômago vazio que não se suporte quando ali se está, em silencioso respeito pelos corpos que, ao longo de tantos anos, foram sendo sepultados dentro da própria construção.

 

Senti pela história daquela jovem recém-casada que perde o marido para a legião de recrutas encarregados de erguer a cortina defensiva mais longa do mundo. Diz-se que, inconformada, essa jovem decidiu procurar o marido nas recônditas montanhas para onde tinha sido enviado. Diz-se também que levou três anos a chegar de Pequim a Jinshanling e que, por ter chegado demasiado tarde, o marido estava já enterrado dentro da muralha. Desolada, terá também ela caído morta no percurso de regresso. Anos depois, a China seria abalada pelo terramoto que destruiu parte da grande muralha. Reza a lenda que, por obra divina, ficou a descoberto, no meio dos escombros, o corpo do marido. E quem diria que, como mecanismo de defesa, a muralha acabou por não servir de nada…

 

Antes de descermos, fomos todos tentando tirar fotografias àquela estrutura sem fim, mesmo sabendo que nenhuma lhe faria jus. Estávamos já ‘habituados’ ao cenário, porque o ser humano tem destas coisas ingratas que o fazem, com o tempo, estar de acordo com quase tudo. De regresso a Pequim, já todos sorriam uns para os outros, mas eu — que preferia ter sentido essa empatia no caminho inverso — deixei-me embalar pelos solavancos do autocarro. Agora, estava certa de que não havia livro que eu trouxesse nesta viagem que pudesse substituir aquela pintura. E, também por isso, o leitor terá de desculpar a minha presunçosa necessidade de, na extensão destas páginas, escrever sobre o que ali vi.

 

 

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