Apesar de vivermos num planeta esférico, há uma obsessão antiga por definir pontos centrais. Delfos foi, para os gregos, o umbigo do mundo. Hoje, cidades, vilas e até bares lutam pelo título de “centro geográfico” do seu continente. Porém, onde estão os verdadeiros centros dos sete continentes da Terra?
Antártida: um centro sem pressas nem pressões
Na Antártida, o centro geográfico continua por descobrir. Alguns apontam para uma área próxima ao Polo Sul, mas não há consenso nem interesse político para disputar o título. Como escreve o IFL Science, “os pinguins não parecem muito interessados em disputas de fronteiras”.
Sem população permanente nem mapas detalhados como noutros continentes, o “meio” da Antártida permanece mais um mistério glaciológico do que uma questão geopolítica.
Ásia: entre a Rússia e a China, a batalha continua
Na cidade de Kyzyl, na Rússia, ergueu-se em 1968 um monumento que proclama: “Centro da Ásia”. Contudo, em 1992, uma nova estimativa feita por geógrafos colocou esse ponto cerca de 20 quilómetros a sudoeste de Ürümqi, na China.
O governo chinês não perdeu tempo: construiu uma vila inteira no local, batizada de Coração da Ásia, com parque temático, atrações turísticas e sinalética em várias línguas. Para a Rússia, o debate mantém-se aberto. “Há muito mais do que números envolvidos nestas decisões”, escreveu o Geographical Journal em 1993.
África: uma localização quase consensual
Entre os sete continentes, África é talvez o que reúne maior consenso. A maioria das fontes, incluindo o World Atlas, apontam o centro geográfico para uma zona próxima da cidade de Epena, nos Camarões.
Embora os métodos usados para calcular o ponto variem (alguns usam o centro de gravidade do continente, outros a média de coordenadas), não há registos de outros países africanos a reivindicar o título, nem há monumentos concorrentes em disputa.
Europa: uma guerra de centros
A Europa é, de longe, o continente com mais cidades a reclamarem o centro. Alemanha, Polónia, Hungria, Bielorrússia, República Checa, Suécia e até Estónia apresentam estudos próprios, quase sempre com um resultado a coincidir com o território nacional.
Apesar dos pontos de vista diferentes, o ponto mais aceite é perto da aldeia de Girija, na Lituânia, definido por geógrafos franceses com base no centro de gravidade da forma geográfica da Europa, em 1989. O local foi assinalado com uma escultura em pedra, cercada por uma clareira tranquila. Ainda assim, a discussão continua a agitar fóruns académicos e direções de turismo.
América do Norte: entre Rugby, Robinson e… Center
Durante décadas, a cidade de Rugby, no Dakota do Norte (EUA), foi oficialmente o centro geográfico da América do Norte. No entanto, nos anos 2010, um dono de bar na vila de Robinson, também no estado, lançou a sua própria campanha, alegando que o verdadeiro centro passava pelo seu estabelecimento.
Além disso, o geógrafo Peter Rogerson, da Universidade de Buffalo, fez novos cálculos em 2017 e declarou que o ponto médio ficava afinal numa vila chamada Center, também no Dakota do Norte. Uma feliz coincidência toponímica que facilitou a transição de protagonismo.
América do Sul: o Brasil no centro
Em 1909, determinou-se que o centro da América do Sul ficava no centro de Cuiabá, capital do Mato Grosso. Estudos mais precisos nos anos 1990 deslocaram esse ponto 45 km a nordeste, mas sem polémicas.
A nova localização foi assinalada com um obelisco discreto e o Brasil manteve o estatuto de anfitrião do meio do continente. Aqui, não há disputas nem reclamações de vizinhos, um raro exemplo de aceitação coletiva.
Austrália: um centro calculado com rigor
Sendo um continente com um só país, o caso australiano seria aparentemente simples. Ainda assim, há debates. O ponto mais consensual é o chamado Lambert Centre, determinado a partir do centro de gravidade de 24.500 pontos da linha costeira em maré alta.
O local é assinalado com uma réplica da bandeira nacional e tornou-se ponto de interesse para aventureiros e amantes de geografia. Contudo, alguns grupos sugerem que o verdadeiro centro deveria ser baseado em áreas habitadas ou pontos culturais, o que abriria uma nova frente de discussão.
E afinal, o que é o centro?
Na ausência de uma definição universal, os métodos utilizados para calcular os centros geográficos variam: centro de massa, média das coordenadas extremas, centro de gravidade da figura cartográfica ou até projeções geográficas.
Como explica o historiador geográfico Mark Monmonier, da Universidade de Syracuse:
“Quando o mapa é território disputado, o centro nunca é apenas um ponto no chão, é também uma ideia.”
Entre patriotismos, promoções locais e interpretações geométricas, os centros dos continentes continuam a movimentar muito mais do que bússolas.