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Ler para Crer: “O Processo”, de Franz Kafka

A sugestão literária semanal da equipa Escrivaninha, na nova rubrica “Ler para Crer”.

10 Junho 2020
Forever Young

«Formaram fileiras dos dois lados da escada, encostando-se rente à parede para permitir que K. pudesse passar comodamente por entre elas e alisaram com as mãos os seus aventais. Todos os rostos como também esta formação da fileira denotavam um misto de puerilidade e depravação. No topo, a chefiar todas as raparigas, que agora se juntaram rindo atrás de K., estava a corcunda. Foi graças a ela que K. encontrou rapidamente o caminho certo. Ele queria continuar a subir sempre em frente, porém, a rapariga mostrou-lhe que teria de escolher um desvio para se dirigir a Titorelli. A escada que conduzia ao sítio onde ele morava era acentuadamente estreita, muito comprida, sem curvas e visível em toda a sua extensão, terminando no topo, mesmo em frente à porta de Titorelli. Esta porta, que, ao contrário do resto da escada, era relativamente bem iluminada por uma pequena claraboia colocada obliquamente por cima dela, era feita de tábuas não rebocadas, sobre as quais se encontrava inscrito a vermelho, em grandes pinceladas, o nome Titorelli.

 

K., mal chegara a meio da escada com o seu cortejo de raparigas, quando lá em cima, devido aparentemente ao ruído de tantos passos, a porta se abriu um pouco, surgindo por trás da porta entreaberta um homem vestindo provavelmente apenas uma camisa de noite. “Oh!”, exclamou, quando viu chegar a multidão, e desapareceu. A corcunda batia as palmas de contentamento, e as outras raparigas empurravam L. para o fazer avançar mais rapidamente.» (Kafka 2012:167–168)

 

Nascido em Praga, lá bem no centro do que na altura era o Império Austro-Húngaro, Franz Kafka é hoje um dos mais conhecidos escritores de expressão alemã do século XX e dispensa qualquer outro tentativa de apresentação.

 

Conhecido por ter um estilo no mínimo difícil de definir e que vários investigadores tentaram (variadíssimas vezes) rotular e enquadrar numa das escolas literárias conhecidas — a tal ponto que acabou por se tornar rei de um género próprio — , Kafka é também conhecido por ter publicado pouco em vida, por ter queimado montanhas de coisas, e por ter deixado outras tantas inacabadas.

 

Acabaria por deixar os direitos da sua obra ao amigo Max Brod, a quem, pelos vistos, terá pedido para destruir aquilo que herdara — o que a nós nos parece um ultraje não muito fácil de acreditar, dado que um autor que quer verdadeiramente que os seus escritos sejam queimados, 1. não os escreve, ou 2. queima-os ele próprio. Em todo o caso, Max Brod trouxe a lume muitos dos inéditos que nós, hoje, lemos com gratidão e, embora o nível da sua intervenção editorial mereça, a meu ver, a mais profunda reprovação, isso fica para outra altura (leia-se, por exemplo, a nota introdutória do tradutor Álvaro Gonçalves, da edição d’O Processo que aqui utilizo).

 

Uma dessas grandes obras de Kafka — salva por Brod das garras da Gestapo — foi O Processo: um romance começado algures em 1914, nunca terminado mas, ainda assim, magnificamente atordoante que se foca na vida de um homem que um dia acorda preso, envolvido num processo jurídico absolutamente desarranjado e totalmente inacessível que o acusa não se sabe de quê, nem por que raio de motivo.

 

Dá já para tirar a limpo que Kafka é tudo menos fácil. Mas com isso não quero dizer — com o ímpeto de uma superioridade literária que não tenho — que é só para quem pode. Não, Kafka é para quem estiver disposto e, mais do que isso, para quem não for ansioso (e quem me conhecer sabe que contra mim falo). O Processo é uma encruzilhada narrativa feita de nós, labirintos, desvios e obstáculos — tal como tudo o que Kafka parece ter escrito —, ou não fosse ele ter escrito as coisas mais profundamente complicadas só para que, hoje em dia, existisse o adjetivo kafkiano (qualidade do que é confuso, ilógico, absurdo) atestado nos nossos dicionários e enraizado nas nossas conversas do dia-a-dia.

 

Talvez seja por isso que, para mim, O Processo há-de ser sempre um daqueles casos que primeiro se estranha e só depois se entranha.

 

Há coisas inevitavelmente garantidas em Kafka que me parecem ser estridentes n’O Processo. Falo, sobretudo, da mestria na construção das personagens e na perícia com que domina o discurso indirecto livre, uma das grandes qualidades literárias de Kafka. Do ponto de vista da linguagem — e cujo mérito não é, neste caso, apenas de Kafka, mas também do tradutor, a quem muito agradeço o zelo que a sua nota introdutória revela e que eu, desconhecedora do alemão, não posso fazer mais do que confirmar — posso dizer apenas uma coisa que a mim me entusiasma: O Processo está cheio de uma fortíssima descrição dos mais ténues sentimentos e aflições das personagens, carregadas de trejeitos e tiques diários à maneira das pessoas reais. Leiam por vocês próprios: do pingo de suor frio que brota nas nossas têmporas quando nos sentimentos humilhados, a fantásticas passagens como a que acima transcrevo, o absurdo reina em todo o seu potencial, mas a imagem é-nos sempre colada diante dos olhos, sem que nos falte um detalhe da complicação que para ali vai. E a verdade é que, sem estas qualidades imagéticas, nenhum enredo — por mais ridiculamente complexo e aleatório que fosse — sobreviveria.

 

Contudo, é contra este meu último comentário que eu própria falo quando admito que não fui fiquei imediatamente ancorada à narrativa. Aliás, foi só depois de vários capítulos que O Processo acabaria por se tornar uma das histórias mais angustiantes que alguma vez li, o que — atenção! — não é uma coisa má!

 

Isto leva-me, portanto, a reconhecer também outras duas coisas: que nem todos os bons livros se tornam bons imediatamente na primeira página, e que nem todos os livros de que nos apetece desistir são necessariamente livros para outras pessoas — talvez só sejam livros para outro momento da nossa vida, como foi, para mim O Processo.

 

Se os livros de Kafka podem conquistar ou re-conquistar qualquer leitor, porquê fecharmo-nos à possibilidade de entrar no seu fascinante universo?

 

Épocas kafkianas pedem Kafkas!

 

Título: O Processo

Autor: Franz Kafka

Editora: 11 x 17

Ano: 2012

Tradutor: Álvaro Gonçalves

 

Marta Cruz

 

(texto escrito de acordo com a antiga ortografia)
A Escrivaninha é uma equipa de freelancers que se dedicam à revisão, edição, tradução e produção de texto, criada por quem conhece e reconhece a beleza mas também os ardis da língua portuguesa. Conheça melhor os nossos serviços aqui.

 

 

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