Ninho vazio. Afinal, o que fazer quando os filhos saem de casa?

Quando os filhos saem de casa, existem consequências emocionais que podem (ou não) ser ultrapassadas com o passar do tempo. Mas também há formas de se preparar para evitar que esta situação seja demasiado dolorosa.

Síndrome de ninho vazio é o nome de uma condição que pode afetar os pais quando os filhos decidem sair de casa, seja para estudar, para trabalhar, ou por outra razão qualquer. É uma condição comum e facilmente ultrapassável na maioria dos casos, mas pode levar alguns pais a apresentar sintomas como ansiedade ou mesmo depressão. A chave, dizem os especialistas, está em transmitir confiança aos filhos e preparar-se ao longo da vida para o momento de deixá-los partir.

Esta síndrome existe, antes de mais, por uma razão muito simples. Porque durante muitos anos os filhos são a prioridade máxima dos pais. As suas necessidades estão acima de quaisquer outras, inclusive as do casal. E isto faz com que, apesar de cheios de boas intenções, os pais fiquem tão centrados na sua prioridade comum, que acabam por se afastar um do outro. Ora, é no momento da partida dos filhos que este afastamento se torna, finalmente, evidente. Muitos casais relatam que faziam mais coisas juntos quando os filhos estavam em casa do que depois. E isto acontece porque quando o casal volta a ser confrontado de forma isolada, sem aquele que sempre foi o seu projeto comum, percebe que as necessidades de cada um são agora diferentes e que já pouco os liga. Gerir a vida em casal ao longo da vida, sem deixar que os filhos sejam o único elo de ligação, é a solução para que o momento da partida dos filhos não se transforme também no princípio de uma degradação irreversível da vida a dois.

 

O ninho vazio

Na verdade, o crescimento dos filhos e a sua saída de casa deveriam ser um motivo de profunda realização pessoal. Se os seus filhos estão a sair de casa, e se estão a fazê-lo na casa dos 20 anos ou mesmo antes, isso significa que está a fazer um excelente trabalho, visto que lhes transmitiu a confiança necessária para seguirem o seu caminho e a capacidade de serem independentes e tomar as suas próprias decisões. Isto não quer dizer, no entanto, que a função dos pais se esgote neste momento de separação: significa apenas que a função de “cuidar” muda agora para uma de “acompanhar”, que já não exige uma dependência dos filhos face aos pais. E isso são excelentes notícias.

Alguns pais percebem de imediato esta realidade e encaram a situação de “ninho vazio” de uma forma muito positiva, começando desde logo a planear viagens e outras atividades que até então a presença dos filhos poderia dificultar.

Mas existem muitos pais que sofrem seriamente com a síndrome de ninho vazio. Alguns especialistas afirmam mesmo que as emoções que ficam nos tempos a seguir à separação são comparáveis às de um luto. Os pais passam a ter menos contacto e interação com os filhos e, simultaneamente, podem ter uma crise de identidade. A pergunta que alguns começam a colocar é, de facto, quem são e qual a sua função nesta nova realidade em que os filhos já não são dependentes. Na sequência deste turbilhão de emoções, muitos pais relatam sentir ansiedade, porque já não sabem o que fazer com o seu tempo. Noutros casos mais graves, apresentam sintomas de depressão, por vezes resultantes de uma sensação de solidão. Existem ainda relatos de sintomas mais profundos, em que os pais, mais do que deprimidos, dizem sentir-se velhos, agora que os filhos estão “criados” e entraram na idade adulta.

Em termos gerais, os sinais que podem surgir são os associados à depressão. Vontade de chorar, redução do apetite e, principalmente, ligar para os filhos constantemente e sem motivo. Apenas para estar em contacto. Estes sintomas podem ser sinais importantes de que os pais não estão a conseguir aceitar que os filhos partiram e que a sua relação mudou.

A síndrome de ninho vazio nem sempre afeta as famílias da mesma maneira. As investigações que têm sido feitas no âmbito da psicologia revelam que as mulheres tendem a ser mais afetadas do que os homens pela partida dos filhos. Vários fenómenos sociais contribuem para esta tendência, como a maior predisposição para colocar as necessidades dos outros à frente das suas ou para alterar as suas trajetórias profissionais quando os filhos nascem. Como resultado, a partida dos filhos quando atingem a idade adulta pode afetá-las mais através de um sentimento de profunda falta de propósito e conexão.

 

A redescoberta interior

Quando os filhos saem de casa, existe um período de transição até que as famílias se adaptem ao seu novo normal. Os especialistas falam mesmo de uma redescoberta, ou uma forma de novamente entrar em contacto consigo mesmo depois de muitos anos em que as atenções estiveram voltadas para os filhos. Uma questão a colocar é o que faria se fosse investir em si a mesma energia que investiu em cuidar dos seus filhos. Qual a melhor forma de equilibrar as suas emoções? O que poderia trazer aquele sentimento de realização ou de felicidade? E com quem quer passar todo o tempo que tem agora à sua disposição? Estas perguntas podem ser bastante difíceis de responder, principalmente para quem acaba de se ver privado do contacto diário com um filho. Mas é importante que não desista de lhes dar resposta, sabendo que não tem de o fazer hoje, nem amanhã. Ultrapassar a síndrome de ninho vazio é, afinal, um processo.

Alguns pais sentem também a tentação de não abandonar a sua função de cuidadores. Sentem uma necessidade esmagadora de continuar a cuidar do filho adulto que acabou de sair de casa e começam a preocupar-se sem motivo aparente, a fazer telefonemas constantes ou a preparar refeições para levar aos filhos quando a distância não é muito grande. Ao fazerem isto, estão a criar um problema maior para os filhos do que para eles próprios. Se um jovem continuar a ser superprotegido depois de sair de casa e continuar a ter todos os seus problemas resolvidos pelos pais, o mais provável é que não desenvolva uma grande autonomia ou capacidade de tomada de decisão e resolução de problemas.

É fundamental que os pais percebam que, a partir de determinado momento da vida, as suas funções perante os filhos mudam. E isso não faz com que eles passem a ser “menos” pais. Significa apenas que os filhos precisam de um outro tipo de atenção, mais alicerçado no apoio do que no cuidado.

Idealmente, a forma de lidar com a partida dos filhos não começa depois disso acontecer, mas desde que eles nascem. Os especialistas dizem que os pais que conseguem um equilíbrio ao longo da vida entre a parentalidade e os seus próprios interesses pessoais ultrapassam mais facilmente a síndrome de ninho vazio. O mesmo se aplica àqueles pais que passam tempo de qualidade com os filhos enquanto eles ainda são crianças ou adolescentes. Quando a vida não se esgota no papel de pais e quando o tempo é preenchido de forma a aproveitar o melhor de todas as idades dos filhos, a alteração das funções de pais, a partir do momento em que as crianças crescem, pode deixar algum vazio, mas não um vazio completo. Uma parte da vida dos pais muda, mas o resto não. Podem continuar a fazer as atividades que faziam antes e mais ainda. Os amigos que conquistaram e souberam manter ao longo da vida também não irão desaparecer num momento em que a solidão poderia tornar-se problemática. E, quando existe esse equilíbrio, é igualmente menos provável que a síndrome de ninho vazio venha exacerbar o sentimento de que muita coisa ficou por fazer nos anos de crescimento dos filhos, com eles e em casal, e que o tempo não volta atrás.

 

E o casal?

Muitas vezes os pais, em determinada altura do crescimento dos seus filhos, fazem planos sobre o que farão num futuro, sempre assumido como longínquo, em que eles venham a sair de casa, para estudar ou trabalhar. Projetam viagens, têm ideias para novas atividades que requerem uma disponibilidade que por ora não têm e fazem juras de amor eterno no conforto da ilusão de que falta muito tempo para os seus filhos saírem de casa. Este planeamento de como será a vida quando os filhos seguirem o seu caminho é boa, mas só se for consistente e se ao longo do tempo o casal reforçar e atualizar aquilo que quer fazer. Quando esta conversa aparece uma vez na vida, em casais jovens que foram pais recentemente, é muito provável que duas décadas depois não seja mais do que uma recordação de tempos passados que já não faz qualquer sentido.

É que o tempo encarrega-se de separar o casal sem que os sinais se manifestem até os filhos saírem de casa e marido e mulher se confrontem novamente, sozinhos, cerca de vinte anos depois. Afinal, quantos casais de meia-idade conhece que ainda estejam apaixonados? E, por oposição, quantos conhece que constantemente se criticam e condenam mutuamente?

Os casais recém-casados parecem ter a capacidade de parar o mundo em seu redor, só porque estão apaixonados, e isto acontece principalmente porque eles têm duas coisas: tempo e foco. Num contexto de ninho vazio, os casais mais velhos têm exatamente as mesmas duas vantagens do seu lado: o que é preciso é que estejam dispostos a capitalizá-las.

É fácil perceber como as coisas rapidamente podem correr mal. Muitos casais compensam a falta dos filhos criticando quem está mais próximo: o marido ou a mulher. Do mesmo modo, quando os dois se veem novamente sozinhos, é mais fácil encontrar falhas, irritar-se com o que o outro fez ou deixou de fazer, revisitar feridas antigas ou tentar impor pontos de vista.

Em parte, esta tendência para o ataque não passa de uma forma de defesa contra o sofrimento e o sentimento de vazio que a partida dos filhos deixa numa casa. Na maioria das vezes, os comportamentos perigosos para a relação surgem de forma inconsciente, e a separação entre o aceitável e o que desgasta irremediavelmente uma relação numa fase tão frágil é muito subtil.

Assim, reconhecer o problema é fundamental, bem como tomar medidas imediatas que por vezes são tão simples como dar ao outro o benefício da dúvida; abster-se de comentários sobre coisas que o outro faz e que nem sequer influenciam a vida a dois; concentrar- se nas coisas boas que o outro tem; e expressar gratidão.

Do mesmo modo, é muito comum os pais chegarem à síndrome de ninho vazio e sentirem algum tipo de isolamento. Durante esta fase de transição, tanto o pai como a mãe estão particularmente vulneráveis, e se não se tiverem preparado para este momento ao longo da vida, podem sentir que há um muro entre os dois, que leva a uma espécie de divórcio emocional. É este o caminho mais rápido para a solidão.

Se estiver nesta situação, reconheça o que está a acontecer e tome a decisão de começar a trabalhar para não destruir a sua relação. Para isso, resista à tentação de deixar o seu cônjuge de lado e fale com ele sobre o que se passa. Se necessário, procure aconselhamento de amigos que já tenham passado pela mesma situação ou mesmo de um psicólogo. Perceba que se foi feliz ao lado daquela pessoa até hoje, o seu casamento é provavelmente demasiado importante para ser negligenciado.

 

 

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