Chama-se Rita das Batatinhas Fritas e tornou-se a heroína improvável de uma causa ambiental que começa na cozinha de cada casa. É a protagonista de um pequeno conto infantil original, criado pela Hardlevel Energias Renováveis, um dos principais operadores ibéricos na gestão e pré-tratamento de óleos alimentares usados (OAU), que está a ser distribuído em muitas escolas primárias portuguesas.
O objetivo é simples de enunciar e exigente de cumprir: transformar alunos e famílias em agentes de mudança, ambiental e de mentalidades, à volta de um gesto doméstico que quase ninguém pensa duas vezes antes de fazer, deitar fora o óleo que sobra das frituras.
Um vilão que desaparece pelo ralo
Na narrativa da Ritinha, o arqui-inimigo é o próprio óleo alimentar usado. Um vilão discreto, que continua a escapar pelos ralos, sifões e redes de saneamento em vez de entrar no circuito de recolha doméstica e reciclagem, aquele que permite transformar estes resíduos em biocombustíveis utilizáveis pelos transportes rodoviário, marítimo e aéreo.
A fábula integra o projeto “Educar para Reciclar: Heróis do Ambiente”, da Hardlevel, que por sua vez faz parte de um programa mais vasto e integrado. Essa Escola Ambiental leva educação ambiental às escolas e acompanha crianças do 1.º ao 8.º ano através de histórias, jogos, atividades e outros conteúdos pedagógicos. É, no fundo, um programa de responsabilidade social que mexe com hábitos domésticos, responsabilidade coletiva e com o papel das escolas e das autarquias na mudança de comportamentos.
Do arranque em oito territórios a 35 mil alunos
A campanha já arrancou e envolve tecnologia de Internet das Coisas, resultado da sensorização dos oleões da Hardlevel. Os territórios pioneiros foram:
- Guimarães
- Ovar
- Murtosa
- Sever do Vouga
- Albergaria-a-Velha
- Oliveira do Bairro
- Almada
- O território servido pela empresa intermunicipal Resialentejo
Feito o arranque no terreno, as metas subiram de patamar. Segundo Karim Karmali, fundador e CEO da Hardlevel, a expectativa passa por alargar a Escola Ambiental Hardlevel, a breve trecho, a um total de 25 municípios, 120 escolas e mais de 35.000 alunos. Em termos comparativos, isso representa um aumento de mais de 213% no número de concelhos abrangidos, de 167% nos estabelecimentos de ensino e de 192% no número de alunos.
Dois litros e meio por pessoa mudavam as contas do país
Apesar das metas legislativas introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 102-D/2020, o final feliz ainda está longe. Apenas uma pequena parte dos óleos alimentares domésticos usados em Portugal entra no circuito de valorização económica, num cenário que Karim Karmali classifica como o de um país “amplamente deficitário”.
A parte animadora é que a mudança depende de um gesto quase banal. Se cada pessoa separasse anualmente entre 2,5 e três litros de óleo usado, o país poderia produzir 25 a 30 milhões de litros de biocombustível, multiplicando por 25 a 30 vezes a produção atual.
Porque é que o óleo velho ficou tão valioso
A história tem também ramificações internacionais. A procura europeia de óleos alimentares usados como matéria-prima para biocombustíveis avançados, designadamente o Sustainable Aviation Fuel (combustível de aviação sustentável, conhecido pela sigla SAF) e o biodiesel HVO (óleo vegetal hidrotratado), registou uma valorização significativa nos últimos dois anos. Pesaram a necessidade de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis e os objetivos do Pacto Ecológico Europeu, a que se juntou o efeito do conflito no Médio Oriente, centrado no impasse que se mantém no Estreito de Ormuz.
“O OAU é hoje considerado uma das matérias-primas mais valiosas da economia circular energética, com prioridade máxima nas diretivas europeias de energias renováveis, através do quadro regulamentar da União Europeia para a promoção das energias renováveis, o RED III”, sublinha o responsável.
Da cozinha ao depósito dos aviões
Este contexto coloca a Hardlevel no centro da cadeia de valor, desde a recolha dos óleos usados no circuito doméstico e no canal Horeca, onde a taxa de recolha e reaproveitamento é bem mais eficaz, até à valorização em biocombustível certificado ISCC, o padrão global que garante a sustentabilidade e a rastreabilidade de biocombustíveis e biomassa. Um percurso que, nas palavras do empresário, assume “um papel estratégico crescente para a independência energética europeia”.
Fundada em 2006 pelos irmãos de ascendência indiana Karim e Salim Karmali, no âmbito de um programa de apoio ao empreendedorismo português, a empresa é líder na Península Ibérica na gestão e pré-tratamento de óleos alimentares usados e gere uma rede global de recolha, pré-tratamento e valorização em Portugal e no estrangeiro, com planos de crescimento em Espanha e em França.
Fica a moral da fábula: o gesto simples de guardar o óleo usado e de o levar até ao oleão mais próximo vale bem mais do que parece à saúde dos oceanos e do planeta.











