A lista de sintomas associados à menopausa costuma começar nos afrontamentos e acabar nas alterações de humor. O sono aparece raramente, e no entanto é uma das queixas mais frequentes desta fase. Os números ajudam a perceber porquê.
Uma proporção que aumenta em cada etapa
As estimativas de prevalência de perturbações do sono seguem uma progressão clara ao longo da transição. Na pré-menopausa situam-se entre 16% e 42%. Na perimenopausa, a fase de transição, sobem para 39% a 47%. Na menopausa, chegam a variar entre 35% e 60%.
A amplitude dos intervalos explica-se pelos critérios usados em cada estudo e pelas populações analisadas. O padrão, esse, repete-se: a proporção de mulheres com sono perturbado sobe à medida que a transição avança.
Os quatro padrões mais comuns
As queixas tendem a organizar-se em quatro tipos, que podem aparecer isolados ou combinados. Dificuldade em adormecer. Sono fragmentado, com múltiplos micro-despertares ao longo da noite. Despertar prematuro, mais cedo do que o pretendido e sem conseguir voltar a adormecer. E sonolência durante o dia, que é consequência dos três anteriores.
Reconhecer o padrão é útil porque nem todos respondem às mesmas medidas. Quem não consegue adormecer tem um problema diferente de quem adormece bem e acorda às quatro da manhã.
Porque é que acontece
A causa mais direta é hormonal. A descida dos níveis de estrogénio está associada a insónia, e estima-se que afete cerca de 40% das mulheres nesta fase, com dificuldade em iniciar ou manter o sono e com despertares demasiado cedo.
Mas o efeito hormonal não age sozinho. Somam-se as manifestações mais típicas do período, os afrontamentos e os suores noturnos, que interrompem o sono várias vezes por noite mesmo quando a pessoa não chega a acordar completamente. E somam-se ainda fatores que nada têm de hormonal: a idade em si altera a arquitetura do sono, e esta é uma fase da vida frequentemente carregada de responsabilidades com filhos e com pais.
O resultado é que tratar apenas uma das causas costuma dar resultados parciais.
O que fazer com esta informação
A primeira consequência prática é deixar de tratar o sono como um sintoma menor. Noites mal dormidas de forma prolongada têm efeitos documentados na memória, no humor, na tensão arterial e no metabolismo, e agravam precisamente as queixas cognitivas que muitas mulheres associam à menopausa.
A segunda é levar a queixa à consulta em vez de a normalizar. Existe uma diferença entre dormir mal umas noites e ter insónia crónica, e essa distinção clínica muda a abordagem.
Quando a queixa é cognitiva
Há um ponto que merece cuidado. Quando surgem queixas de memória e de concentração nesta fase, e sobretudo quando os testes de rastreio sinalizam alterações cognitivas, a recomendação clínica é avançar para uma avaliação neuropsicológica e neuropsiquiátrica completa.
Não é alarmismo. É o contrário: serve para distinguir o que é efeito de noites mal dormidas e de flutuações hormonais, que é reversível, daquilo que possa ser outra coisa. Atribuir tudo à menopausa sem avaliar é que fecha portas.
Fica a nota mais simples de todas: se o sono mudou nesta fase, não é imaginação nem falta de disciplina. É um dos sintomas mais prevalentes da transição, e um dos que menos aparece na conversa.











