Há um mecanismo que muda com os anos e do qual quase ninguém ouve falar: a sensação de sede diminui. O corpo continua a precisar da mesma água, mas deixa de avisar com a mesma clareza.
A isto junta-se outra coisa: os rins perdem parte da capacidade de concentrar a urina, ou seja, gastam mais água para eliminar a mesma quantidade de resíduos.
Porque é que isto importa
A desidratação ligeira, que não chega a dar sintomas dramáticos, é uma das causas mais frequentes e mais silenciosas de confusão, quedas, prisão de ventre, infecções urinárias e agravamento da função renal nas pessoas mais velhas.
Em muitos internamentos por confusão aguda, a primeira coisa que melhora é simplesmente a hidratação.
Os sinais a que se pode ir atendendo
- urina escura e com cheiro forte, quando devia ser clara ao longo do dia;
- boca seca, lábios gretados, língua com aspecto áspero;
- dor de cabeça ao fim da tarde;
- obstipação que apareceu sem mudança de alimentação;
- tonturas ao levantar;
- confusão ou sonolência invulgar, sobretudo em dias de calor.
O sinal mais prático de todos é a cor da urina. Clara como palha, está bem. Cor de chá, falta água.
Quanto beber
A referência habitual anda entre um litro e meio e dois litros por dia, incluindo todos os líquidos, mas não é uma regra universal.
Quem tem insuficiência cardíaca ou renal pode ter indicação médica para restringir líquidos, e nesses casos a orientação do médico prevalece sobre qualquer conselho geral.
Em dias de calor, com febre, com diarreia ou com exercício, a necessidade aumenta.
Não tem de ser só água
Contam o chá, as infusões, o leite, a sopa, os sumos naturais e a fruta com muita água, como a melancia, o melão, a laranja e o pêssego. A sopa, que é um hábito arreigado na alimentação portuguesa, é uma excelente forma de hidratar.
O álcool desidrata e o café, em quantidades moderadas, tem efeito diurético ligeiro mas ainda assim contribui com líquido.
Como criar o hábito quando não há sede
Não funciona confiar na vontade. Funciona associar a beber a coisas que já se fazem.
Um copo ao acordar, um com cada medicação, um a cada refeição, um a meio da manhã e outro a meio da tarde. Feita a conta, são seis a oito copos sem esforço nenhum.
Ter uma garrafa de um litro e meio à vista, cheia de manhã, permite ver ao fim do dia o que realmente se bebeu. É muito mais fiável do que a memória.
Quem tem medo de ir à casa de banho
É uma das razões mais comuns para beber pouco, sobretudo em quem tem incontinência ou dificuldade de mobilidade. A solução não é beber menos, que agrava tudo, incluindo a irritação da bexiga.
O que resulta é concentrar os líquidos até meio da tarde e reduzir depois do jantar, mantendo o total diário.
Os medicamentos entram na conta
Vários fármacos de uso comum aumentam as necessidades de água ou favorecem a desidratação. Os diuréticos são os mais óbvios, mas também os laxantes, alguns antidepressivos e os medicamentos que dão boca seca.
Em dias de calor intenso, algumas destas medicações merecem conversa com o médico, porque a combinação de temperatura alta, diurético e pouca sede é exactamente a que leva pessoas idosas às urgências todos os Verões. A decisão nunca é de suspender por conta própria, é de perguntar antes de o calor chegar.











