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Entrevista: «Até ao momento, não existe uma cura definitiva para a Paramiloidose», Isabel Conceição, neurologista e neurofisiologista no Hospital Santa Maria

Para perceber melhor a Paramiloidose, falámos com Isabel Conceição, neurologista e neurofisiologista no Hospital Santa Maria, e obtivemos o testemunho de Maria Laurinda Costa, portadora da doença.

3 Novembro 2023
Sandra M. Pinto

A Paramiloidose é uma doença genética que, normalmente, afeta vários membros da mesma família. Estima-se que cerca de 20% do total de doentes do mundo estejam em Portugal, ou seja, dos 10 mil doentes existentes no mundo, cerca de dois mil estão em Portugal. 

Conhecida como a “doença dos pezinhos”, a Paramiloidose é uma das variantes da Amiloidose. “Nascida” em Portugal, mais precisamente na zona norte do país, em Vila do Conde e na Povoa do Varzim, facto que continua a ser um mistério para os especialistas, a doença requer abordagens terapêuticas especificas, como refere em entrevista Isabel Conceição, neurologista e neurofisiologista no Hospital Santa Maria.

O que é a amiloidose?

A Amiloidose é uma doença rara em que proteínas anómalas se depositam em diversos tecidos e órgãos, levando à falência progressiva dos mesmos. Existem diversos tipos de Amiloidose Sistémica, cada um causada por uma proteína precursora diferente. Pode ser adquirida ou hereditária, afetando órgãos como coração, rins, fígado, nervos, sistema gastrointestinal, pulmões, músculos, pele e tecidos moles.

Para quem não está familiarizado, precisamente o que faz de uma doença “uma doença rara”?

Uma doença rara, também conhecida como doença órfã, é uma condição médica que afeta um pequeno número de pessoas em comparação com a população geral. Na União Europeia, uma doença é considerada rara quando afeta menos de 1 em 2000 pessoas. No entanto, as definições exatas de doenças raras podem variar de um país para outro.

Tem variantes?

Mutações ou variantes no gene da TTR pode levar à instabilidade dessa proteína, resultando na formação de fibrilas amiloides depositadas nos tecidos, especialmente no sistema nervoso periférico, gastrointestinal, coração e rim. Existem mais de 140 mutações conhecidas globalmente, sendo a Val30Met a mais comum em todo o mundo e em Portugal.

De que forma difere a Paramiloidose da Amiloidose?

A Amiloidose sistémica é uma doença rara resultante do desdobramento incorreto de proteínas, levando à falência progressiva dos órgãos. Foram identificadas 36 proteínas amiloidogénicas, 17 das quais podem causar doença sistémica. Na Amiloidose Sistémica, a proteína é produzida num local e deposita-se noutro distante, enquanto na Amiloidose Localizada ambos os processos ocorrem no mesmo local.

Os mecanismos patogénicos envolvem produção excessiva de proteína, mutações que aumentam a propensão ao desdobramento incorreto e a tendência natural da proteína para formar amiloide. A Paramiloidose é a Amiloidose Sistémica hereditária cujas manifestações clinicas predominantes são a Polineuropatia e a Cardiomiopatia.

Como e onde surgiu a doença?

A Póvoa do Varzim parece estar na origem de todos os casos de paramiloidose portugueses. Um estudo com doentes de Portugal, da Suécia e do Brasil estimou que o ancestral comum mais recente dos portadores da mutação do gene TTR em Portugal tem aproximadamente 750 anos, datando do século XVIII, sendo a mais antiga entre as populações analisadas. Além disso, foi descoberto que a mutação V30M na Suécia ocorreu espontaneamente e mais tarde do que em Portugal, aproximadamente há 375 anos.

Porquê a região norte do nosso país? Há alguma explicação?

Não se sabe a explicação para esse fenómeno.

Quais os efeitos da doença?

A principal manifestação clínica é uma neuropatia sensitivo-motora com envolvimento do sistema nervoso autónomo. Atingimento de outros órgãos e sistemas nomeadamente cardíaco, gastrointestinal, ocular, renal fazem parte do quadro clinico.

Pode ela ser prevenida?

Não é possível prevenir a doença em pessoas que têm uma predisposição genética para ela. No entanto, existem opções para aconselhamento genético e testes genéticos pré-natais para famílias com histórico da doença, que podem ajudar os casais a tomar decisões informadas sobre ter filhos.

Para aqueles que têm um histórico familiar de Paramiloidose, é fundamental procurar aconselhamento genético para entender os riscos e opções disponíveis. Além disso, é importante estar ciente dos sinais e sintomas da doença para um diagnóstico precoce e intervenção médica adequada, caso a condição se desenvolva.

O que significa ser genética? Todos os elementos da família a podem ter ou há alguns mais predispostos?

Significa que é uma doença causada por mutações em genes específicos que são passadas de uma geração para outra dentro de uma mesma família. O gene afetado na Paramiloidose é o gene da transtirretina (TTR). Quando um dos pais possui uma mutação no gene da TTR, existe uma hipótese de 50% de transmitir essa mutação para os seus filhos. Portanto, todos os filhos de um indivíduo afetado têm um risco de 50% de herdar a mutação e, consequentemente, desenvolver Paramiloidose.

Pode ela ser curada?

Até ao momento, não existe uma cura definitiva para a Paramiloidose. No entanto, existem abordagens terapêuticas que podem ajudar a estabilizar a doença e e melhorar a qualidade de vida dos doentes. Estas podem incluir medicamentos para reduzir a produção da TTR, para estabilizara a TTR ou suprimir a sua produção no fígado através do transplante de fígado. Tratamentos sintomáticos, isto é, capazes de aliviar sintomas específicos, como dor ou disfunção cardíaca são também utilizados.

De que forma se pode melhorar a qualidade de vida destes doentes?

Melhorar a qualidade de vida dos doentes com Paramiloidose requer uma abordagem multidisciplinar para gerir sintomas e apoiar suas necessidades físicas e emocionais. Isso envolve o acompanhamento por uma equipa médica diversificada, incluindo especialistas como neurologistas, cardiologistas, nefrologistas e oftalmologistas, para criar um plano de cuidados personalizado. Além disso, é crucial considerar as necessidades psicológicas e emocionais dos doentes, oferecer apoio social e promover estilos de vida saudáveis.

Pode o transplante ser a solução para estes doentes?

O transplante hepático é uma opção de tratamento para doentes com Paramiloidose desde 1990, mas que deve ser considerado cuidadosamente, levando em conta fatores como progressão da doença, mutação, disponibilidade de doador e condição geral do doente.

Apesar de um transplante hepático bem-sucedido, outros órgãos como coração, olhos e cérebro ainda podem ser afetados pela deposição de amiloide, resultando em manifestações nesses órgãos. Portanto, o transplante hepático não é uma cura completa para a doença. Além disso, com o acesso a terapias farmacológicas inovadoras, o transplante hepático tende a ser menos utilizado devido aos riscos envolvidos.

Há muitos casos de sucesso?

Hoje em dia são poucos os doentes que são enviados para transplante hepático dados os avanços terapêuticos com fármacos que permitem modificar a progressão da doença. Um estudo publicado em 2015 de revisão de todos os transplantes hepáticos realizados até à data revelou que a sobrevida aos 20 anos após transplante hepático é de cerca de 50%, sabendo-se que as formas associadas à mutação VAl30Met e de início antes dos 50 anos de idade têm melhor prognóstico.

Que conselhos daria a quem tem esta doença?

Para doentes com Paramiloidose, é essencial adotar uma abordagem holística para cuidar da saúde física, emocional e mental:
1. Manter seguimento médico regular
2. Manter estilo de vida saudável com uma dieta equilibrada, exercícios regulares, evitar álcool e tabaco para reduzir sintomas.
3. Manter a mobilidade e função muscular através de fisioterapia, adaptando o ambiente doméstico conforme necessário.
4. Procurar terapia e grupos de apoio ajudam a lidar com o estresse emocional associado à doença.
5. Manter conexões sociais com amigos e familiares para manter a saúde mental.
6. Considerar aconselhamento genético se planear ter filhos, explorar opções como diagnóstico genético pré-implantação.
7. Contribuir para o avanço na investigação através da participação em ensaios clínicos e estudos científicos.
8. Aprender sobre a Paramiloidose para entender a condição e opções de tratamento.

Manter diálogo aberto com a equipa médica, familiares e amigos para garantir apoio adequado e personalizado.

E a quem convive com estes doentes?

Estes doentes necessitam de apoio emocional e prático. As pessoas que rodeiam estes doentes devem informar-se sobre a doença para entender os desafios enfrentados pelo mesmo, manter uma comunicação aberta e empática, oferecer ajuda prática, como assistência nas tarefas diárias e transporte para consultas médicas. É ainda crucial estar disponível para o diálogo e apoio emocional, participar ativamente no tratamento e decisões médicas, se o doente estiver confortável.

Discutir abertamente o planeamento familiar e considerar aconselhamento genético para futuras gerações. Participar em grupos de apoio proporciona um ambiente para compartilhar experiências. Incentivar atividades inclusivas e evitar o isolamento social é vital. Respeitar a autonomia do paciente, apoiando suas escolhas e decisões, é fundamental.

Testemunho

Maria Laurinda Costa ( 47 anos) foi diagnosticada com Paramiloidose aos 26 anos. Na sua família a doença já existia, como revela à Forever Young. «A doença afetava a minha mãe e os meus dois irmãos. A minha mãe e o meu irmão mais velho morreram com doença, ela com 60 anos e ele com 40. No meu irmão mais novo a doença ainda não se manifesta».

Para Maria Laurinda viver com pessoas portadoras de Paramiloidose, foi «viver com grande ansiedade, especialmente devido às dificuldades que surgem por causa da perda motora».

Uma vez ela própria diagnosticada com a doença, a grande tábua a que se agarrou foi «aguardar por uma cura e esperar não ter sintomas que alterem a minha vida quotidiana», afirma, revelando que «aos 32 fiz um transplante de fígado para evitar passar pelo sofrimento que a minha mãe e o meu irmão passaram».

No caso de Maria Laurinda, a doença manifesta-se através de dormência pés, formigueiro, perda de sensibilidade ao calor e frio, dores no corpo e diarreias. Depois de feito o transplante, revela que «recuperei grande parte da sensibilidade nos pés e deixem de sentir algumas dores no corpo». Hoje, leva uma vida normal, sentindo «apenas algumas cãibras nos membros inferiores».

Mãe de um rapaz, Laurinda confessa que o que a deixa mais feliz é «ter tido a sorte do meu filho ter nascido sem a doença». Aos outros, os que têm a doença, mas também a quem convive com doentes de Paramiloidose, deixa um conselho: «não tenham medo de demonstrar e de ajudar o próximo nos esclarecimentos da doença para que assim possam alcançar um maior bem-estar».

 

 

 

 

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