O vinho do Porto e o vinho da Madeira são dois dos produtos portugueses mais conhecidos fora de Portugal e dois dos mais mal tratados dentro de casa. Ficam no armário à espera da visita, bebem-se mornos num copo pequeno e muitas vezes já passaram do ponto. Com meia dúzia de noções, a mesma garrafa dá outra coisa.
O que quer dizer fortificado
Em ambos os casos, a fermentação é travada com aguardente vínica. O açúcar que ainda não se transformou em álcool fica no vinho, e por isso estes vinhos são doces e têm mais álcool do que um vinho de mesa. A diferença grande está no que vem depois: o Porto envelhece em cascos nas caves de Vila Nova de Gaia, o Madeira passa por calor, numa estufagem ou num envelhecimento lento em canteiro, e é desse calor que lhe vem o sabor inconfundível.
Os tipos que interessa distinguir
No Porto, a divisão prática é entre os que envelhecem em garrafa e os que envelhecem em casco. Os primeiros, do tipo vintage, ganham com os anos e pedem decantação. Os segundos, os tawny, já vêm prontos e são os que se guardam melhor depois de abertos. O branco e o rosé são outra categoria, pensados para beber frescos. Na Madeira, os nomes a saber são quatro castas: Sercial e Verdelho para os mais secos, Boal e Malvasia para os mais doces.
A temperatura muda tudo
Este é o erro mais comum. Um tawny e um Madeira doce sabem melhor ligeiramente frescos, não à temperatura da sala, e um Porto branco bebe-se mesmo frio, com gelo e uma casca de limão. Já um vintage não gosta de frio: pede o copo à temperatura de uma sala de inverno. Meia hora no frigorífico antes de servir resolve a maior parte dos casos.
Com que doces
A regra antiga é simples: o vinho deve ser pelo menos tão doce como o doce. Um Porto tawny dá-se bem com sobremesas de ovos e amêndoa, com pastel de nata e com queijo curado. Um Madeira Boal ou Malvasia é dos poucos vinhos que aguenta o chocolate negro sem desaparecer. Os mais secos, o Sercial e o Verdelho, bebem-se antes da refeição ou com uma sopa, à maneira antiga da ilha.
Quanto tempo dura a garrafa aberta
Depende do tipo. Um tawny ou um Madeira aguentam semanas e até meses bem fechados e em pé, no frio, porque já estavam habituados ao contacto com o ar. Um vintage, depois de aberto, dura poucos dias e deve ser bebido como se fosse um vinho de mesa. Garrafas esquecidas durante anos não ficam perigosas, mas perdem o aroma e ganham um sabor plano que já não se recupera.
O copo e a dose
O copo pequeno de licor é demasiado estreito para deixar o aroma subir. Um copo de vinho branco pequeno, enchido até menos de um terço, serve muito melhor. E a dose conta: são vinhos com bastante álcool, o que significa que um cálice ao fim da tarde é um prazer e três são outra coisa. Quem toma medicação deve falar com o médico antes de fazer disto um hábito diário.










