Imagine marcar uma consulta de psicologia e, em vez de falar com um profissional, conversar com um chatbot. Pode soar estranho, mas esta realidade já chegou aos consultórios — e está a crescer rapidamente. O mercado global de inteligência artificial voltada à saúde mental movimentou mais de mil milhões de euros em 2023 e deve crescer cerca de 24% ao ano até 2030.
O Conselho Federal de Psicologia reconheceu em julho que o uso de IA já vem sendo incorporado ao quotidiano dos psicólogos em múltiplos contextos de atuação. Mas até que ponto estes assistentes digitais podem substituir — ou complementar — a terapia tradicional?
Como funciona a terapia por IA na prática
Uma pesquisa da BBC News Brasil com 50 psicólogos revelou que 10 deles confirmaram usar IA para tarefas como transcrições de sessões de terapia e resumos. Mas as aplicações vão muito além do apoio administrativo.
No sistema público de saúde da Inglaterra, o chatbot Limbic Access é utilizado para triagem de pacientes e encaminhamento ao programa NHS Talking Therapies. A ferramenta faz uma avaliação inicial, identifica sintomas e direciona as pessoas para o tipo de apoio mais adequado — tudo antes de chegarem ao consultório de um profissional.
Aplicações como o Wysa, presente em mais de 90 países e com o selo de «Dispositivo Inovador da FDA» (agência reguladora dos Estados Unidos), oferecem conversas terapêuticas 24 horas por dia. Os utilizadores podem falar sobre ansiedade, depressão ou stress a qualquer momento, sem marcações ou listas de espera.
Os resultados surpreendentes da terapia digital
Em pesquisa com 1.200 utilizadores do chatbot Wysa, psicólogos da Universidade de Stony Brook constataram que em apenas cinco dias havia sido estabelecida uma «conexão terapêutica» entre bot e paciente. Um resultado que, tradicionalmente, pode demorar semanas a desenvolver-se numa terapia presencial.
O aplicativo Youper apresenta números ainda mais impressionantes: cerca de 80% dos utilizadores relataram melhora no bem-estar emocional após uso frequente, segundo dados dos desenvolvedores. A aplicação combina técnicas de terapia cognitivo-comportamental com inteligência artificial para ajudar as pessoas a identificar padrões de pensamento e emoções.
Estes resultados chegam numa altura crucial. Países em desenvolvimento apresentam uma lacuna de tratamento de 76% a 85% nos transtornos mentais, segundo a OMS, devido à escassez de profissionais. A IA surge como uma possível solução para democratizar o acesso aos cuidados psicológicos.
Os avisos dos especialistas portugueses
Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica da Ordem dos Psicólogos, alerta que o uso de IA pode fomentar padronização dos comportamentos em vez de aceitar que as pessoas são diferentes. O risco é tratar todos os utilizadores da mesma forma, ignorando a complexidade individual de cada caso.
A Organização Mundial da Saúde lançou em 2021 o guia «Ethics and Governance of Artificial Intelligence for Health», recomendando inclusão e equidade nos atendimentos. O documento sublinha a importância de manter o elemento humano no centro dos cuidados de saúde, mesmo quando se usa tecnologia avançada.
Há também preocupações sobre privacidade e segurança dos dados. As conversas com chatbots terapêuticos contêm informações extremamente sensíveis — desde traumas pessoais a pensamentos suicidas — que precisam de proteção rigorosa.
O futuro da psicologia com IA
A inteligência artificial na saúde mental não pretende substituir completamente os psicólogos, mas complementar o trabalho. Pode servir como primeira linha de apoio, triagem inicial ou suporte entre sessões presenciais.
Para quem procura ajuda psicológica mas enfrenta barreiras como custos elevados, falta de disponibilidade ou estigma social, estes chatbots representam uma porta de entrada importante. Oferecem apoio imediato e confidencial, disponível a qualquer hora.
No entanto, casos complexos — como transtornos graves, situações de risco ou traumas profundos — continuam a exigir intervenção humana especializada. A IA funciona melhor como ferramenta de apoio, não como substituto.
O que pode fazer com esta informação
Se está a considerar apoio psicológico mas hesita em procurar ajuda presencial, as aplicações de IA podem ser um primeiro passo útil. Permitem explorar os seus pensamentos e emoções num ambiente sem julgamentos, ajudando a clarificar se precisa de apoio profissional.
Mantenha-se informado sobre esta área em rápida evolução — a inteligência artificial na saúde mental está apenas no início, e as próximas inovações podem transformar ainda mais a forma como cuidamos do bem-estar psicológico.











