Os pés são a parte do corpo de que menos se cuida e a que mais depende disso. Depois dos 60, três coisas mudam ao mesmo tempo: deixa de ser fácil chegar lá, por causa das costas, das ancas ou da vista; a pele fica mais fina e mais seca; e a sensibilidade diminui, o que significa que uma ferida pode existir durante dias sem ninguém dar por ela.
Em quem tem diabetes, esta combinação é a origem de um problema com nome próprio e consequências graves. A doença compromete a circulação e a sensibilidade e dificulta a cicatrização, e é por isso que uma bolha causada por um sapato apertado, ou um pequeno corte a arranjar uma unha, pode evoluir para uma úlcera que demora meses a fechar. A regra, nestes casos, é evitar qualquer ferimento nos pés, por mínimo que pareça.
O que fazer todos os dias
A inspeção diária é a medida com maior efeito e a que menos custa. Olhar para a planta, para os calcanhares e para os espaços entre os dedos, à procura de cortes, bolhas, vermelhidão, fissuras, alterações de cor ou zonas mais quentes. Quem não consegue ver a planta do pé usa um espelho pousado no chão, ou pede a alguém que veja por si.
Lavar todos os dias com água morna, nunca quente, e verificar a temperatura com o cotovelo ou com o antebraço, e não com o pé, precisamente porque a sensibilidade pode estar diminuída. Secar bem, com atenção especial ao espaço entre os dedos, onde a humidade que fica origina micoses e fissuras. Hidratar a pele, evitando aplicar creme entre os dedos.
Nas unhas, cortar a direito e não em curva, sem apurar os cantos, para evitar unhas encravadas, e limar em vez de cortar quando a unha é grossa ou a vista já não ajuda. Os calos e as calosidades são para tratar por profissional habilitado: nunca cortar com lâmina, nunca usar calicidas, calos-adesivos ou produtos com ácido, que provocam queimaduras químicas na pele à volta.
Não andar descalço, mesmo dentro de casa, é uma recomendação simples que evita muitos episódios. E antes de calçar, passar a mão pelo interior do sapato à procura de pedras, costuras soltas ou objetos, gesto que demora dois segundos.
Sapatos, podologia e quando pedir consulta
O calçado decide grande parte disto. Deve ter a biqueira larga, para os dedos não ficarem comprimidos, sola que absorva impacto e que não escorregue, e fecho ajustável, de atacadores ou velcro. As meias devem ser sem costuras salientes e sem elástico apertado. Sapatos novos usam-se uma hora no primeiro dia e vai-se aumentando, e é um conselho aborrecido que evita bolhas.
A consulta de podologia resolve com segurança aquilo que não se deve fazer em casa: corte técnico de unhas grossas ou encravadas, remoção de calosidades e avaliação de deformidades. Em pessoas com diabetes, sessões regulares fazem parte da prevenção e não são um luxo. Vale a pena confirmar o que existe no centro de saúde da área, porque há unidades com consulta de pé diabético e rastreio periódico da sensibilidade.
Há sinais que exigem ir ao médico sem esperar: uma ferida que não fecha, vermelhidão que se alastra, inchaço com calor, pus, mau cheiro, dor que aparece de repente, ou uma zona da pele que muda de cor e fica escura. Em quem tem diabetes, qualquer destes sinais é motivo para contactar o SNS 24 ou o centro de saúde no próprio dia. Deixar para a semana seguinte é o que faz a diferença entre um penso e um internamento.











