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A sede diminui com a idade e o corpo não avisa

A sede diminui com a idade e o corpo não avisa
Rogério Junior

Depois dos 60 anos, o mecanismo que faz sentir sede perde eficácia. O corpo continua a precisar da mesma água, mas deixa de a pedir, e a desidratação instala-se sem sintomas que alguém associe a falta de líquidos.

Há uma frase que se ouve em quase todas as casas com uma pessoa mais velha: já bebi, não tenho sede. É provavelmente verdade e é precisamente esse o problema. Depois dos 60 anos, o mecanismo que regula a sede perde eficácia, por redução da sensibilidade dos recetores e por alterações hormonais. A necessidade de água mantém-se, o aviso é que deixa de chegar.

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A isto juntam-se outras circunstâncias comuns nesta idade. Quem toma diuréticos perde mais líquidos. Quem tem incontinência ou dificuldade em ir à casa de banho reduz de propósito o que bebe. Quem tem problemas de mobilidade bebe menos porque levantar-se para ir buscar água custa. E a percentagem de água no corpo é naturalmente menor, o que significa que há menos margem antes de a falta se fazer sentir.

Os sinais não parecem sede

É aqui que a desidratação engana quem está por perto. Raramente se apresenta como boca seca e vontade de beber. Apresenta-se como confusão mental que aparece de um dia para o outro, sonolência, cansaço fora do habitual, tonturas ao levantar, dor de cabeça, prisão de ventre que piorou e infeções urinárias que se repetem.

A confusão súbita é o sinal mais mal interpretado de todos. Numa pessoa com 80 anos, é frequentemente lida como o começo de uma demência ou como um agravamento súbito da que já existe. Uma parte destes episódios resolve-se com hidratação, e vale sempre a pena pensar nisto antes de qualquer outra conclusão.

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As quedas são a outra consequência séria. A desidratação faz descer a tensão arterial, sobretudo ao levantar, e uma tontura que dure dois segundos numa casa de banho basta para uma fractura da anca. Há ainda o agravamento da função renal e o desequilíbrio dos sais minerais no sangue, motivos frequentes de ida à urgência no verão.

Quanto e como

A referência habitual situa-se entre 1,5 e 2 litros de líquidos por dia para um adulto, com a ressalva de que a quantidade certa depende do peso, do calor, da atividade e da situação clínica. Há doenças, como a insuficiência cardíaca e algumas doenças renais, em que existe restrição de líquidos prescrita pelo médico, e nesses casos a indicação médica prevalece sobre qualquer recomendação geral.

Como quase ninguém bebe dois litros de uma assentada, o que resulta é distribuir. Um copo ao acordar, um a cada refeição, um a meio da manhã e outro a meio da tarde, um com a medicação. Ter sempre uma garrafa à vista no sítio onde se passa o dia funciona melhor do que qualquer lembrete, e uma garrafa de litro e meio permite ver ao fim do dia quanto se bebeu de facto.

Nem tudo tem de ser água. Chá, infusões, leite, sopa, gelatina, fruta com muita água como melancia, melão, laranja e pêssego, tudo conta. O café e as bebidas alcoólicas contam menos, porque aumentam a perda de líquidos, e os refrigerantes trazem açúcar que muitas vezes não convém.

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Duas notas para quem cuida de alguém. Não esperar que a pessoa peça: oferecer a horas certas, porque a resposta a uma oferta é quase sempre sim e a iniciativa própria quase nunca aparece. E em dias de calor, ou quando há febre, vómitos ou diarreia, a necessidade aumenta e a vigilância também: perante confusão nova, prostração ou urina muito escura e escassa, contactar o SNS 24 em vez de esperar pelo dia seguinte.