São quatro quartos e usam-se dois. Há uma escada que já custa, um jardim que dá trabalho, um quarto de banho no andar de cima e outro que ninguém abre há meses. As despesas de manutenção, o IMI, o aquecimento e a limpeza continuam a ser de uma casa cheia, quando lá vivem uma ou duas pessoas.
Mudar para uma casa mais pequena é uma decisão prática que a maioria das pessoas adia até deixar de ser uma decisão. Feita cedo e por escolha, permite escolher a zona, o piso, o preço e o momento. Feita tarde, depois de uma queda ou de uma doença, é feita a correr, por outros, e quase sempre em piores condições.
A conta não é só o preço das casas
O erro mais comum é olhar para a diferença entre o valor de venda e o valor de compra e assumir que é isso que sobra. Não é. À conta somam-se o IMT e o Imposto do Selo da nova aquisição, a escritura e o registo, a comissão de mediação imobiliária se houver, a mudança propriamente dita, e as obras que quase sempre aparecem na casa nova.
Há ainda a questão das mais-valias na venda da casa antiga, que tem regras próprias e exclusões que dependem de vários fatores, incluindo a data de aquisição, a afetação a habitação própria permanente e o eventual reinvestimento. É matéria com impacto financeiro elevado e que merece confirmação prévia junto do Portal das Finanças ou de um contabilista, antes e não depois de assinar.
Do outro lado da conta estão as poupanças recorrentes, e essas costumam ser subestimadas: menos IMI, menos condomínio quando a mudança é para um prédio mais pequeno, muito menos aquecimento, menos manutenção, menos limpeza e, em muitos casos, a possibilidade de dispensar carro se a nova zona tiver serviços a pé.
O que avaliar na casa nova, e o que não é dinheiro
A tentação é olhar para o preço e para a área. As perguntas que mais contam a dez anos são outras. Há elevador, e chega ao piso sem degraus pelo meio. A entrada do prédio tem escadas. A casa de banho tem espaço para uma cadeira e permite instalar apoios. O duche é de base plana ou é uma banheira. Há um quarto e uma casa de banho no mesmo piso da sala.
Depois vem a envolvente, que decide a autonomia. Farmácia, centro de saúde, mercearia, café e transporte a distância de caminhada. Um passeio que se percorra sem sobressaltos. Vizinhança com quem se cruze alguém. Uma casa perfeita num sítio isolado é uma armadilha para daqui a dez anos, e é o erro mais frequente de quem escolhe pela vista.
Há também a parte de que ninguém fala e que é a mais difícil: desfazer-se de coisas. Trinta ou quarenta anos de objetos não cabem numa casa de dois quartos, e a decisão sobre a mobília, os livros, as fotografias e o que ficou dos filhos é a que atrasa a maioria das mudanças. Compensa começar por aí, com meses de antecedência e uma divisão de cada vez, e perguntar aos filhos o que querem em vez de assumir que querem tudo, ou nada.
Por fim, uma alternativa que raramente é considerada: arrendar a casa grande em vez de a vender, e arrendar ou comprar uma pequena. Mantém o património na família, gera rendimento e permite voltar atrás se a mudança não correr bem. Traz responsabilidades de senhorio e tributação própria, mas merece entrar na conta antes de se decidir vender.











