Entrevista à escritora Elisabete Bárbara: «o caminho nunca é só o caminho, é também feito dos passos que damos»

A base foi “O Caminho – Passo a Passo”, o seu mais recente livro editado pela Marcador.

O novo livro de Elisabete Bárbara transporta o leito numa viagem, passo a passo rumo à tranquilidade, meio caminho para a felicidade. Estivemos à conversa com a autora para perceber um pouco melhor a sua visão sobre este caminho a que chamamos vida. 

Por Sandra M. Pinto

Doutorada em Estudos de Tradução e mestre em Linguística Portuguesa, Elisabete Bárbara é docente de Português do Ensino Básico e Secundário há mais de trinta anos. Atualmente, é diretora do Agrupamento Padre José Augusto da Fonseca, em Aguiar da Beira. Formadora acreditada na área do Português e com formação especializada em Didática das Línguas, em Administração e Organização Escolar e em Supervisão e Avaliação de Docentes. apresenta em “O Caminho – Passo a Passo”, o seu novo livro lançado pela Marcador, algumas “balizas” para que saibamos todos ser mais felizes.

Como e quando descobriu o prazer de escrever?

Escrever sempre foi, para mim, um prazer e uma necessidade. Aprendi a ler muito cedo, antes de entrar na escola, e sempre gostei de ficar sozinha com os meus pensamentos, de sonhar e criar outros mundos, de juntar as palavras para contar as histórias que nasciam da minha imaginação. Na escola primária, as minhas composições eram sempre elogiadas e a professora Diva dizia à minha mãe que eu iria ser escritora. No 1.º ano do Ciclo, agora 5.º ano, escrevi a minha primeira história, sob incentivo da professora de Português, que nunca mais vi, mas de quem recordo a simpatia e o nome: Mercedes Maio. Perdi esse texto, mas adoraria reavê-lo e ler o que, na altura, com 9 anos, escrevi. A partir daí, a escrita e eu temos sido inseparáveis, é uma ligação tão especial e íntima que sinto termos nascido uma para a outra.

Que papel desempenha na sua vida a inspiração?

A inspiração é fundamental na minha vida, tanto através do exemplo de pessoas que tenho como referência – como o de antigos professores que tenho como modelo – como através do fascínio que sinto por diversas áreas do saber, porque considero que a inspiração não existe sem conhecimento nem sem trabalho. Quanto mais conhecer, mais fontes de inspiração posso encontrar e mais criativa posso ser.

Porque é para si importante partilhar essa inspiração com os outros?

A inspiração é motivadora, alimenta o espírito de iniciativa e tem um poder transformador relativamente à forma como nos vemos e como vemos o que nos rodeia. A inspiração incita à ação e a ação centra-se em objetivos. Quando há objetivos, há um propósito de vida e é esse foco que nos ajuda a lutar contra as adversidades. Se posso ajudar as pessoas nesse sentido, com os meus textos, não devo guardar só para mim aquilo que escrevo e aquilo que penso, até porque é na partilha que nos acrescentamos.

Com as redes sociais, parecemos todos mais do que efetivamente somos. Concorda?

As redes sociais privilegiam o imediato e a imagem, e haverá quem, por força das publicações que faz ou do tipo de publicações que faz, possa parecer mais do que é e até possa querer parecê-lo. No entanto, também pode acontecer o contrário, na medida em que as redes sociais – pelo momentâneo, pela captação de fragmentos e pela supremacia da imagem – podem limitar as pessoas ao meramente visível, que não dá conta da sua verdadeira essência ou da sua real profundidade. De qualquer modo, e de forma geral, as redes sociais são, por um lado, o reflexo de uma sociedade que sobrevaloriza a aparência, mas funcionam também, por outro, como reforço dessa valorização, para que contribuem. Considero, todavia, que há situações em que, felizmente, as pessoas priorizam o ser em detrimento do parecer e não se reduzem ao “instagramável”.

Há quem defenda um certo afastamento delas, concorda?

Penso que essa será uma decisão individual, que cada um tomará em função da sua relação com as redes sociais e das vantagens e desvantagens que encontra no seu uso. A cada um cabe fazer essa reflexão e perceber se tem de alterar comportamentos nesse âmbito. Em tudo, é preciso equilíbrio.

Que conselhos daria para que todos soubéssemos aproveitar melhor a tecnologia e o que ela nos oferece de bom?

Creio que seria importante entender a tecnologia sobretudo como um recurso que favorece a comunicação e o acesso ao conhecimento, sem deixar que a vida virtual se sobreponha à vida real. Para tal, é necessário avaliar as prioridades e colocar a tecnologia ao seu serviço; é o ser humano que deve usar a tecnologia e não ser usado por ela. No meu caso, por exemplo, sirvo-me da tecnologia para divulgar o meu trabalho, para conhecer outros trabalhos e estar a par do que se vai fazendo a nível da cultura e da educação, e para aceder a recursos importantes, como bibliotecas e documentação, para investigar e estudar.

Na sua opinião, o que é que falta à sociedade para ser mais feliz?

Eu penso que não há investimento no autoconhecimento e no crescimento pessoal. As pessoas procuram a felicidade fora de si, naquilo que possuem, quando deveriam buscá-la dentro de si, naquilo que são e podem desenvolver. Vivemos numa época em que se evita o esforço, em que a facilidade é endeusada e em que se troca a profundidade do ser e do conhecer pela superficialidade do comodismo e do invólucro, que é mais valorizado do que o conteúdo.

Há hoje falta de amor próprio?

Não será só uma questão de hoje, mas parece-me que o contexto atual agudiza essa situação, precisamente pela valorização do transitório e da permanente comparação entre pessoas que a exposição digital potencia, sem perceberem que deveriam, elas mesmas, aplicar ao que veem os filtros já aplicados nas fotografias e que, ao surgirem irrepreensíveis, motivam a insegurança e a falta de autoaceitação, julgando que os outros não têm defeitos.

De que forma pode ele ser fortalecido?

O amor-próprio pode ser fortalecido no seio familiar e através da educação, consciencializando cada um do seu próprio valor e das suas próprias qualidades, para que seja possível relativizar a opinião alheia e não deixar que exerça sobre o sujeito uma pressão tal que, ao invés de as desenvolver, as consiga anular.

Basta a vontade para sermos mais fortes?

Na minha opinião, o sermos mais fortes tem de ser equacionado em função da nossa própria experiência de vida e das condições de que dispomos – ou não – para enfrentar as adversidades, cuja natureza e cujo grau de dificuldade vão variando. A força é necessária à superação, mas a superação também nos dá força para enfrentarmos novos obstáculos e vencermos outros desafios. Há uma aprendizagem constante e é essa aprendizagem que nos dá algum traquejo para nos mantermos à tona quando os dias se encapelam. A vontade é decisiva neste processo, porque, quem sabe o que quer, sabe onde quer chegar, ainda que não saiba muitas vezes por onde ir.

O que é mais importante: apreciar o presente ou idealizar o futuro? Porquê?

No meu caso pessoal, apreciar o presente passa por idealizar o futuro. Não concebo a minha vida sem pensar no que ainda gostaria de fazer ou no que ainda vou fazer, tenho sempre novos projetos e desafios em mente; o sonho é a véspera da sua concretização. Sonho para fazer, faço para sonhar.

Olhando para o mundo hoje, não é fácil sermos positivos. Como podemos reverter essa situação e continuar a acreditar que tudo vale a pena?

O facto de vivermos tempos difíceis não significa que não possamos – e devamos – reconhecer a beleza da Vida e considerá-la uma oportunidade para marcarmos a diferença; aliás, é minha opinião que, precisamente por vivermos tempos difíceis, devemos tentar fazer a diferença e tornar o mundo – ou o nosso mundo – mais bonito, mais harmonioso e mais acolhedor. Se nos é possível contribuir, com o nosso trabalho e o nosso apoio, para o bem comum, é isso que temos de fazer, e é nisso que reside o sentido da Vida: cuidarmos uns dos outros.

Acredita mesmo que o riso é o remédio certo?

Acredito que o riso é terapêutico e acredito que rir, sobretudo se for até não poder mais, desanuvia a alma. O riso é uma manifestação de inteligência e de prazer, e rir com gosto é das melhores coisas da vida. Penso também que devemos ter a capacidade de rirmos de nós, é sinal de autoanálise e de reconhecimento das nossas falhas.

Na sua opinião em Portugal ainda se ri / sorri pouco?

Por acaso, eu até acho que, de forma geral, os portugueses têm um sorriso fácil e simpático, e não precisam de muito para se rirem, o que, no entanto, não significa necessariamente que as pessoas se sintam felizes ou realizadas. Creio que há também uma nova geração de humoristas em Portugal, que encontram na contemporaneidade matéria de análise, na linha da tradição da poesia satírica medieval, que assim é reconfigurada.

Refere que a lei mais infalível é o retorno. De que forma essa lei se concretiza?

Acredito que tudo aquilo que damos ou fazemos acaba por voltar para nós, de uma ou de outra maneira. Isto não significa que, se ajudarmos alguém, essa pessoa nos venha a ajudar, mesmo que o possa fazer, o que nos pode desiludir; significa que essa situação se transforma em experiência de vida e que a experiência de vida se transforma em conhecimento e que esse conhecimento se tornou possível por força do que fizemos. Todo o conhecimento nos acrescenta.

Um passo de cada vez é, de facto, o caminho que devemos fazer?

Na minha opinião, sim. Um passo de cada vez, sem pressa e com confiança, mas sem desconsiderar a hipótese de termos de recuar. Às vezes, é preciso recuar para podermos avançar. O caminho é feito aos poucos e a sua consistência não é compatível com atalhos ou saltar etapas.

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