A partir de certa idade, as perdas acumulam-se: o cônjuge, os irmãos, os amigos de sempre. Cada uma deixa um vazio diferente e ninguém aprende a lidar com isso por repetição. O luto é uma resposta natural, mas é também das experiências mais desgastantes que existem.
O que é normal sentir
Tristeza profunda, choro que aparece sem aviso, falta de apetite, dificuldade em dormir, cansaço, dificuldade de concentração. Também raiva, alívio, culpa, e a sensação de ouvir a voz da pessoa ou de a ver de relance. Nada disto é sinal de estar a enlouquecer: são reacções descritas em todas as culturas.
Sintomas físicos são igualmente comuns: aperto no peito, falta de ar, dores difusas, quebra de imunidade. Vale a pena não ignorar queixas cardíacas nesta fase, sobretudo em quem já tem doença de base.
Quanto tempo dura
Não há prazo. Nos primeiros meses, a intensidade é máxima; depois, a dor tende a vir em ondas, desencadeadas por datas, objectos, cheiros ou músicas. Com o tempo, as ondas ficam mais espaçadas, mas podem continuar a aparecer anos mais tarde, e isso não significa que o luto não tenha sido feito.
Quando é preciso ajuda
Procure apoio se, passados vários meses, se mantiver incapaz de retomar as rotinas básicas, se houver isolamento total, se aumentar o consumo de álcool ou de comprimidos para dormir, se surgirem sintomas depressivos persistentes, ou se houver ideias de que a vida não vale a pena. Nesta última situação, não espere: fale com o médico ou dirija-se a um serviço de saúde.
Existe apoio psicológico nos centros de saúde, através do médico de família, e há associações e linhas de apoio dedicadas ao luto, incluindo grupos de ajuda mútua onde se conversa com quem passou pelo mesmo.
O que ajuda no dia-a-dia
Manter alguma rotina, sobretudo horários de refeições e de sono. Sair de casa todos os dias, ainda que por pouco tempo. Aceitar ajuda em tarefas práticas. Falar sobre a pessoa que morreu, se apetecer, e permitir-se não falar, se não apetecer. Adiar decisões grandes, como vender a casa ou mudar de cidade, durante o primeiro ano.
Para quem está à volta
A frase mais útil raramente é uma frase. Estar presente, telefonar com regularidade nas semanas seguintes, quando o movimento do funeral já passou, e oferecer coisas concretas, como levar uma refeição ou ir às compras, vale mais do que conselhos.
E evitar os lugares-comuns: dizer que já era hora, que ele descansou ou que é preciso ser forte fecha a conversa em vez de a abrir.
Datas e rituais
Aniversários, o Natal, o dia da morte. As primeiras vezes são quase sempre as mais difíceis, e antecipá-las ajuda. Decidir com antecedência onde se vai passar o dia, com quem, e se se quer manter ou mudar a tradição, evita ser apanhado desprevenido.
Alguns encontram conforto em criar um pequeno ritual próprio: acender uma vela, visitar um lugar, cozinhar um prato que a pessoa gostava. Outros preferem não marcar a data. Ambas as opções são válidas, e podem mudar de ano para ano.
A parte prática também pesa
Habilitação de herdeiros, pensão de sobrevivência, contas bancárias, contratos de água e luz em nome do falecido. Tratar destes assuntos numa altura de grande fragilidade é exigente, e é razoável pedir a um familiar ou a um amigo que acompanhe. Não há obrigação de resolver tudo nas primeiras semanas: a maioria dos processos admite prazos folgados.











