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Porque é que nunca esquecemos os provérbios que aprendemos em pequenos?

Porque é que nunca esquecemos os provérbios que aprendemos em pequenos?
Rogério Junior

Rima, ritmo e imagens concretas fazem dos provérbios das memórias mais duradouras que temos. A psicologia explica porquê, e recordá-los é um exercício simples que passa de avós para netos.

Basta alguém dizer «quem sai aos seus» e a cabeça completa sozinha: «não degenera». Podem passar cinquenta anos sobre a primeira vez que o ouvimos e o provérbio continua lá, inteiro, pronto a sair. Não é sorte nem memória de ferro: é a forma como os provérbios foram feitos. Poucas coisas que aprendemos na vida ficam tão bem guardadas como estas frases pequenas.

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Uma tecnologia de memória com séculos

Antes de haver livros ao alcance de todos, o conhecimento viajava de boca em boca. Para sobreviver à viagem, tinha de ser fácil de guardar, e o povo foi apurando as ferramentas certas: a rima de «quem espera, desespera», o ritmo batido de «grão a grão enche a galinha o papo», as imagens concretas do gato escondido com o rabo de fora. Um provérbio é uma ideia embalada para durar.

As gerações que não sabiam ler carregaram nestas frases a experiência de séculos. Cada provérbio que hoje dizemos sem pensar foi polido por milhares de bocas até ficar com a forma exata que tem, e é essa forma que o torna quase impossível de esquecer.

A rima convence, e a ciência já o mediu

Os psicólogos deram nome ao fenómeno: efeito de rima. Num estudo publicado em 2000, Matthew McGlone e Jessica Tofighbakhsh mostraram que as pessoas consideram os aforismos que rimam mais verdadeiros do que os mesmos aforismos ditos por outras palavras. A rima cola a frase à memória e, de caminho, dá-lhe autoridade.

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Isso explica a resistência dos provérbios ao tempo, mas também pede espírito crítico: rimar não é ter razão. O próprio povo sabia disso e deixou pares em contradição saudável, como «quem espera sempre alcança» e «quem espera desespera». A sabedoria está em saber qual usar em cada hora.

E porque a memória gosta de companhia, os provérbios raramente andam sós: quem puxa por um traz outro atrás, e num serão bem puxado aparecem dez ou vinte sem esforço. É por isso que funcionam tão bem como jogo. Não há idade em que a cabeça não agradeça o exercício, e não há neto que resista a completar a frase que o avô deixa a meio.

Recordá-los é exercício e é património

Completar provérbios ao serão, discutir o que significam ou ensiná-los aos netos é um exercício de evocação simples, gratuito e com graça. E há sempre surpresas pelo caminho: muitas das frases que dizemos há décadas têm histórias que nunca ninguém nos contou, com origens que vêm da lavoura, do mar, do direito antigo e da Bíblia.

As histórias por trás das frases

É o caso do mais famoso de todos. O ditos.pt, um arquivo português de provérbios, expressões e poesia popular, explica com calma a história e o significado de «quem sai aos seus não degenera», e faz o mesmo a centenas de outros, dizendo com honestidade o que está documentado e o que é apenas tradição.

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Fica o teste, sem espreitar: «mais vale um pássaro na mão…», «depressa e bem…», «a cavalo dado…». Quem hesitou nalgum já tem programa para o serão de hoje.