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Voltar a ler quando a concentração já não é a mesma

Voltar a ler quando a concentração já não é a mesma
Georgia Gonçalves

Não é a cabeça que está pior. Muitas vezes é a luz, são os óculos, é o telemóvel ao lado. E há livros que se prestam melhor ao recomeço.

A frase repete-se muito: já não consigo ler como lia. Leio uma página e não sei o que lá estava. Adormeço no segundo parágrafo. Antigamente devorava um livro num fim-de-semana.

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Na maior parte dos casos, a cabeça não é o problema principal. São as condições.

Primeiro, o que não é cognitivo

A vista depois dos 50 precisa de muito mais luz do que precisava aos 30. Ler num sofá com um candeeiro de ambiente é um esforço que cansa em dez minutos e que ninguém atribui à luz, mas à concentração.

A graduação desactualizada faz o mesmo, e o mesmo fazem as cataratas em início, que tiram contraste sem tirar nitidez. Antes de concluir seja o que for sobre a memória, vale a pena marcar uma consulta de oftalmologia e mudar a lâmpada do candeeiro de leitura para uma mais forte e de luz branca.

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Depois, o telemóvel

A leitura profunda exige vinte a trinta minutos seguidos para o cérebro assentar no texto. Um telemóvel que vibra de oito em oito minutos torna isso impossível, e a culpa acaba atribuída à idade.

A experiência que vale a pena fazer é simples: deixar o telemóvel noutra divisão durante meia hora e ver o que acontece. Quase sempre acontece que se lê.

Escolher o livro certo para recomeçar

Quem está a retomar o hábito faz mal em começar por um romance de oitocentas páginas com quarenta personagens russas. O regresso faz-se melhor por:

  • contos e crónicas, que se resolvem numa sessão e dão a sensação de ter terminado alguma coisa;
  • memórias e biografias, onde a linha narrativa é fácil de retomar dias depois;
  • policiais bem construídos, que empurram para a página seguinte sem esforço;
  • livros já lidos há trinta anos, que se leem de outra maneira e com muito menos atrito.

Abandonar um livro não é falhar

Há uma culpa antiga associada a deixar um livro a meio, como se fosse um compromisso assinado. Não é. Cinquenta páginas chegam para perceber se aquilo interessa. Largar depressa o que não prende é o que permite continuar a ler.

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Hora certa, e não a hora que sobra

Ler na cama, às onze da noite, depois de um dia inteiro, é ler em piores condições. Quem tenta e adormece conclui que já não consegue ler, quando na verdade só está cansado.

Meia hora depois do almoço ou a meio da manhã rende três vezes mais. É um horário estranho para quem sempre leu à noite, mas funciona.

Letra maior e audiolivros

As edições em letra grande deixaram de ser raras e não são um sinal de rendição. Os livros electrónicos permitem aumentar a letra ao gosto de cada um e iluminam-se por dentro, o que resolve o problema da luz.

E há os audiolivros, que muita gente rejeita por achar que não conta. Conta. Para quem tem problemas de vista, ou para quem quer ouvir enquanto caminha ou cozinha, é a diferença entre ler e não ler.

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A biblioteca municipal

Continua a ser o melhor negócio do país. Empresta de graça, tem edições em letra grande, tem clubes de leitura que obrigam a acabar o livro e a falar dele, e o café ao lado costuma ser barato.