A demência costuma ser tratada como uma fatalidade da idade. Os dados dizem outra coisa. Segundo a comissão do Lancet que reúne periodicamente a investigação mundial sobre o tema, cerca de 45% dos casos são potencialmente evitáveis atuando sobre fatores que se podem modificar ao longo da vida.
A lista dos 14
O relatório de 2024 identificou 14 fatores de risco modificáveis, distribuídos por diferentes fases da vida: baixa escolaridade, perda de audição, hipertensão arterial, tabagismo, obesidade, depressão, inatividade física, diabetes, consumo excessivo de álcool, traumatismo craniano, poluição do ar, isolamento social, colesterol LDL elevado e perda de visão não tratada.
Nenhum deles é uma condenação isolada. O que a comissão calcula é a fração da doença atribuível ao conjunto, ou seja, quantos casos deixariam de existir se estes fatores fossem eliminados da população. Daí os 45%.
Os dois que entraram agora
Duas novidades face à edição anterior, de 2020: o colesterol LDL elevado, considerado sobretudo como fator de meia-idade, e a perda de visão não tratada.
A segunda é a mais fácil de traduzir em ação concreta. Falar de visão não tratada significa, na prática, cataratas por operar e graduações desatualizadas. São problemas com solução conhecida, acessível e de resultado rápido.
Quatro mudaram de fase da vida
Há outra alteração menos comentada e igualmente relevante. Quatro fatores, o tabagismo, a depressão, a inatividade física e a diabetes, passaram de fatores de vida tardia para fatores de meia-idade entre as edições de 2020 e 2024.
Não é um detalhe técnico. Significa que a janela em que estes fatores mais pesam é anterior à idade em que a maioria das pessoas começa a preocupar-se com o assunto. Quem tem 50 anos está dentro dessa janela.
O que dá para fazer com esta lista
A leitura mais útil é procurar o que se sobrepõe. Vários destes fatores partilham as mesmas soluções: a hipertensão, a diabetes, a obesidade, o colesterol e a inatividade física respondem todos ao mesmo conjunto de medidas de estilo de vida e de acompanhamento clínico.
Outros exigem ação específica e frequentemente adiada. A perda de audição é o exemplo mais claro. É corrigível com aparelho auditivo, e a demora média entre notar a perda e tratá-la conta-se em anos.
O isolamento social é o mais difícil de resolver por prescrição, e é também um dos que mais se agrava depois da reforma e da viuvez.
As cautelas
Três, e são importantes.
Primeira: falar em 45% de casos potencialmente evitáveis não é o mesmo que garantir que 45% dos casos serão evitados. É um cálculo populacional, não uma promessa individual.
Segunda: eliminar um fator de risco não elimina o risco. Há pessoas sem nenhum destes fatores que desenvolvem demência, e o contrário também acontece.
Terceira: parte destes fatores não depende de escolhas pessoais. A baixa escolaridade e a poluição do ar são questões de política pública, não de disciplina individual, e é por isso que a comissão dirige boa parte das suas recomendações aos governos e não aos cidadãos.
Dito isto, a mensagem central mantém-se e é otimista: mais de metade do risco de demência ainda não tem explicação conhecida, mas a fatia que tem é, em boa parte, modificável. E a idade em que mais se pode fazer é agora, não aos 75.











